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Cri-cri: semanario humoristico e noticioso

por Maria Ione Caser da Costa
Na cidade do Recife, do início do século XX, veio a lume em agosto de 1908 o periódico Cri-Cri: semanario humoristico e noticioso.

Composto por 20 páginas, foi impresso pela Agencia Jornalística Pernambucana, localizada na rua do Imperador, 31. Aquele era o endereço para o qual deveriam se dirigir os “negociantes que quizerem nos distinguir com a sua confiança”, ou seja, os editores esperavam que a publicação despertasse o interesse de anunciantes.

Os interessados em anunciar nas páginas de Cri-Cri poderiam escolher entre vários tamanhos: 30$000 a página inteira, 15$000 meia página ou 84000 um quarto de página. “O CRI-CRI tira 5.000 exemplares”, informavam os editores. Fonte mais imediata de recursos era a venda, com o exemplar avulso, valendo 400rs, e assinatura anual custando 18$000.

Na capa do primeiro exemplar aparece o desenho estilizado do rosto de um rechonchudo senhor com chapéu coco amassado, e a frase “Carrancudo e meio risonho, a pensar como obterá 400 rs. para comprar esta deliciosa revista CRI-CRI”.

“Acceita-se qualquer colaboração espirituosa”: esta frase aparece no cabeçalho, em destaque, logo abaixo do título, com letras em caixa alta.

Com o título Apresentação, e assinado apenas com o pronome Nós, os editores, que não se identificam em nenhum outro local da publicação, informam às “gentis leitoras” quais os caminhos que pretendem trilhar com lançamento de Cri-cri.

Algumas palavras, minhas gentis leitoras, algumas palavras.
A Cri-cri é feito para vos alegrar alguns instantes, para vos encher d’um bom humor, dando-vos a agradável leitura d1um humorismo leve, delicado, e sem o mínimo de picante que vá offender o vosso recatado pudôr.
Ella é feita para vós e por isso vos ama.
Se tendes um pae político ella falará no vosso pae, mas delicadamente, gentilmente. Se tendes um irmão, e elle fôr um elegante, será incluido nas listas smarts em que se trate das modas dernier cri e dos factos up-to dates.
Ah! E quanto a vós!...
Vós tereis instantâneos, sereis retratadas, a vossa belleza será posta em destaque. Os vossos beautiful costumes serão descriptos com todos os pormenores que nascem deliciosamente dos espíritos femininos. Não ireis n’uma rua elegante, n’um jardim, n’um velódromo, sem que os nossos reporters lá estejam para saber o vosso nome, o vosso espírito, a vossa graça, e estamparem-n’os em nossas paginas, enchendo-nos de orgulho, o orgulho de ter-vos como amigas.
E certos de que nos ajudareis, iremos para diante, sempre para diante...

Nas páginas de Cri-cri são encontrados vários “instantâneos” fotográficos de jovens senhoras em seus passeios pelas ruas da cidade. Também entrevistas, crônicas, charges e caricaturas.

O exemplar número 1, único existente na Biblioteca Nacional possui vinte páginas. As primeiras e as últimas são dedicadas a anúncios, inclusive nas segunda e terceira capas. Nossas pesquisas encontraram indicações de que Cri-cri teria terminado sua publicação em dezembro daquele ano com 18 fascículos publicados.

Os colaboradores não se revelam nunca, assinam com pseudônimos. São eles Elyzio Anthelmo, Gilberto Aureo, J., J. do Canto, Paulo Azevedo (que assina a coluna Revista theatral), Portugal, Rastignac, Rénè, Sá da A., Satyro e Sigismundo da Fiança.

A seguir um soneto com o título Equilibrio indiferente, que foi dedicado a X.P.T. – illustre desconhecido, e assinado por J.

Equilibrio indiferente

Caem do ramo as folha[sic] ressequidas,
Velhas as portas caem dos portaes;
Caem dos olhos lagrimas sentidas,
Caem dos labios doloridos ais.

Caem do raio as arvores fendidas,
Caem das nuvens rijos temporaes,
Caem do sol as flechas accendidas,
Caem dos montes limpidos caudaes.

Todo mundo cae, tudo se gasta!
Prova: - a phalange aposentada e casta
Desse P. M., o club do não mais...

E em meio a tudo quanto vai findando,
Sempre de pé, o novo sol fitando,
Só tu, ó X. P. T., só tu não caes!

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