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Estréa litteraria: jornal scientifico, recreativo e poético

por Maria Ione Caser da Costa
Estréa litteraria, que se apresentou com o seguinte subtítulo: jornal scientifico, recreativo e poético veio a lume pela primeira vez no Rio de Janeiro em 15 de outubro de 1864. Esta forma de subtítulo era muito comum no ambiente jornalístico e literário do século XIX. O detalhamento pretendia indicar os objetivos e a abrangência de assuntos da publicação ao suposto leitor seu contemporâneo. Nos dias de hoje, documenta as articulações entre tais assuntos, indicando as posições e valores que tinham na relação entre os periodistas e o público que pretendiam atingir. Público leitor que estava em formação, importante observar.

O periódico teve como redatores Alexandre José de Mello Moraes Filho (1844-1919), José Theodoro de Souza Lobo (1846-1913) e Juvenato de Oliveira Horta. Mello Moraes, que viria a ter importante lugar no campo cultural do país, teria participado da redação de Estréa littereria antes de receber o grau de doutor na Universidade de Bruxelas, de acordo com o Diccionario Bibliographico Brazileiro de Augusto Victorino Alves Sacramento Blake (1883).

Estréa litteraria era editada duas vezes por mês pela Typographia Brasileira, que funcionava à rua de São Pedro, nº 100. A assinatura trimestral custava 2$000, e podia ser feita na rua dos Inválidos, nº 118.

No acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional podem ser encontradas quatro edições deste periódico. Provavelmente, trata-se da coleção completa, a julgar pelas informações do Diccionario Bibliographico Brazileiro, que observa “poucos números viram a luz” . Na página XX, da edição que pode ser consultada na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, acessível remotamente.

No editorial de lançamento os redatores se apresentam e divulgam a árdua tarefa da criação de um novo periódico, principalmente por não serem personagens de importância já estabelecida, como José da Silva Lisboa (1756-1835), Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882) ou Frei Francisco de Monte Alverne (1784-1858), segundo afirmam, num tom em que modéstia se confunde com auto-ironia e desmistificação, própria de estudantes:

Leitor
Desconhecidos actores no grande palco das lettras, e ardendo em nossos peitos o enthusiasmo pela sabedoria, resolvemos a fazer neste dia memorável e de eterna recordação para todos os Brasileiros; neste dia em quê até o céo se regosijará de suas festas, a nossa Estréa Litteraria.
É o primeiro hymno de nossa mocidade essa publicação sem mérito, porém é ingênua como um pensamento de mãi. Não encontrareis nella o cunho da erudição grandiosa dos Josés da Silva Lisboa, dos Magalhães, e dos Alvernes, porque a imaginação do mancebo, semelhante a era da ermida, necessita de tempo para se poder completamente ramificar. São apenas, como diz Junqueira Freire, “fructos temporões; mas se ha de perdêl-os, quando o sol tem obstinadamente esperdiçado tantos raios para amadurecê-los a força?” Todavia, julgamos deste modo pagar um tributo sublime, imposto pelo desejo que temos de sermos em algum dia uteis á nossa patria, desejo que nos levou a esquecermos os agudos espinhaes desta tortuosa estrada, e a aceitarmos a nosso cargo tarefa tão ardua.

O editorial finaliza com dois conhecidos versos do poeta português Antonio Ferreira (1528-1569), após explicarem suas dúvidas quanto a duração do periódico:

Se a sua duração for curta, será mais uma flor que teve a desventura de desabrochar nas fendas de uma rocha, e que o vendaval da indifferença a despenhou n’um abysmo: mais um pyrilampo que se afundou nas trevas do erro. E se ao contrario a estreitardes em vossos braços como um protector zeloso, nos pronunciaremos como outr’ora o poeta Ferreira
Eu desta gloria só fico contente
Que a minha terra amei e a minha gente,

Em termos de composição gráfica, a publicação se apresenta diagramada em três colunas, utilizando um fio simples para dividi-las. As folhas medem 31cm X 21cm. Os títulos aparecem em negrito e cercados de um espaço em branco, o que atribui o destaque das matérias. Um pequeno traço simples também colabora na demarcação do espaço.

Participaram colaborando com poemas ou crônicas nas páginas de Estréa litteraria: Azevedo C. Real, Francisco de Farias Villas-Boas, F. de F. Villas-Boas, Manuel Odorico N. Ribeiro, Padre Luiz Pinto de Almeida, J. S. Castello, Mello Moraes Filho, Ferreira Leal, Antonio P da Silveira, A. F. Barreto, H. de Aquino, H. I. G. Burnier, D. Edeltrudes de Menezes e Angelo de Aquino.

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