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Festa: mensário de pensamento e de arte

por Maria Ione Caser da Costa
Surgida em primeiro de agosto de 1927 no Rio de Janeiro, então capital federal, Festa: mensário de pensamento e de arte foi impressa pelas Oficinas Alba, que estava localizada na rua Maranguape, 17, no bairro da Lapa, onde também funcionavam a redação e a administração.

Com 13 números publicados, ela circulou até janeiro de 1929. Em julho de 1934 retorna, o periódico reaparece numa segunda fase, que Nelson Werneck Sodré denominou de “repiquete”. O novo subtítulo inverteu a ordem dos substantivos, passando para revista de arte e pensamento. A série desta nova fase volta ao ano 1, número 1, indo até o número 9, quando encerra definitivamente a circulação, em agosto de 1935.

Aparecendo como proprietários, alguns jovens literatos participaram ativamente na elaboração da revista, formando o Grupo Festa. Eram brasileiros que cultivavam a linha espiritualista e católica e que defendiam pela afirmação da nacionalidade por intermédio da arte e da cultura: Andrade Muricy (1895-1984), Henrique Abilio, Porphyrio Soares Netto, Lacerda Pinto, Adelino Magalhaes, Barreto Filho, Brasilio Itiberê e Tasso da Silveira (1895-1968).

O grupo teve seu auge entre os anos de 1920 e 1930, num processo de consolidação paulatina. Eram vários colaboradores com uma linha de pensamento comum e várias afinidades intelectuais. Tasso da Silveira, antes da publicação de Festa, havia lançado, em agosto de 1919, em parceira com Andrade Muricy, America Latina: revista de arte e pensamento, que circulou até fevereiro de 1920. Em agosto de 1922, desta vez em companhia do intelectual Rocha de Andrade, editam Arvore nova, que publicou apenas quatro exemplares. Em janeiro de 1924, em parceria com intelectual português Álvaro Pinto (1889-1957), surge Terra de sol: revista de arte e pensamento. A revista Festa: mensário de pensamento e arte foi bem mais duradoura. Foram revistas modernistas, em sua maioria de “vida efêmera, mas que fizeram muito ruído, embora os ecos se limitassem aos meios intelectuais”, registra Werneck Sodré em seus estudos sobre a história da imprensa. À exceção de Terra de sol, os exemplares de destes títulos podem ser consultados neste dossiê.

O editorial de lançamento de Festa apresenta um manifesto em forma de poema, que descreve o momento literário que estão vivendo e o que este momento significa para o Brasil e para o mundo .

De acordo com José Aderaldo Castello, em A literatura brasileira: origens e unidade (1500-1960), o poema em questão é de autoria de Tasso da Silveira e foi “reproduzido conjuntamente com os ensaios de sua autoria – Definição do Modernismo Brasileiro” .

Nós temos uma visão clara desta hora.

Sabemos que é de tumulto e de incerteza.
E de confusão de valores.
E de Victoria do arrivismo.
E de graves ameaças para o homem.

Mas sabemos, tambem, que não é esta a primeira hora de agonia e inquietude que a humanidade vive.

A humanidade dansa a sua dansa eterna num velho rythmo em dois tempos.
Quando todas as forças interiores se equilibram, os gestos são luminosamente serenos.
Mas o que nesses gestos parecia um esplendor supremo de belleza
ou de verdade
não era senão um momento ephemero da escalada. [...]

A arte é sempre a primeira que fala para annunciar o que virá.
E a arte deste momento é um canto de alegria, uma reiniciação na esperança, uma promessa de esplendor.

Passou o profundo desconsolo romantico.
Passou o estéril scepticismo parnasiano.
Passou a angustia das incertezas symbolistas.

O artista canta agora a realidade total:
a do corpo e a do espírito,
a da natureza e a do sonho,
a do homem e a de Deus,

canta-a, porém, porque a percebe e compreende
em toda a sua múltipla belleza,
em sua profundidade e infinitude. [...]

Festa ocupava-se em dignificar em suas páginas os problemas brasileiros, o nacionalismo e o espiritualismo, num momento em que o modernismo estava em voga, numa perspectiva fortalecida pela arte moderna e a natureza. O mesmo ideário dos outros títulos publicados pelo grupo, que a antecederam.

A publicação teve uma variação em seu formato: os primeiros exemplares mediam 37 x 28 cm. Do número 7 ao número 13 as dimensões diminuíram para 32 x 23,5 cm. Na segunda fase o tamanho voltou ao primeiro modelo. Em média, cada edição vinha com 26 páginas.

Todos os fascículos estão digitalizados, e podem ser consultados através da Hemeroteca Digital. A coleção existente na coordenadoria de Publicações Seriadas não está em bom estado de conservação, apresentando rasgos e acidificação em suas páginas. São dois volumes que aparentemente, não foram encadernados nas oficinas da BN, pois em tudo diferenciam dos modelos utilizados na instituição. Na medida em que são peças entregues no cumprimento ao Depósito Legal e, pode-se supor que tenham sido encadernados pelos próprios editores. Vale o registro de que o segundo volume, correspondente a segunda fase da revista apresenta, em sua folha de guarda, uma dedicatória à Biblioteca Nacional, assinada por Andrade Muricy e datada em 1937.

A assinatura anual valia 5$000, e o número avulso era vendido ao preço de 500. A partir do número 2, a assinatura passa a valer 8$000 e o número avulso 800.

Muitos literatos colaboraram para a revista Festa. Os denominados personagens que compuseram o Grupo Festa tiveram um papel importante para a história da literatura brasileira, coroando uma sequencia de publicações que privilegiavam a arte e a cultura nacionais. Dentre os vários nomes que podem ser encontrados em suas páginas destacamos na prosa: Henrique Abilio, Brasilio Itiberê, Ribeiro Couto, Hamilton Nogueira, Adelino Magalhães, Barreto Filho, Wellington Brandão, Henrique Abilio, Walter Benevides, Mário Mendes Campos e Porfirio Soares Neto. Na poesia: Cecilia Meireles, Barreto Filho, Murilo Araujo, Walt Whitman, Gilka, Abgar Renault e Lacerda Pinto. Algumas ilustrações e desenhos de são de Di Cavalcanti

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