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O Besouro: illustrado e humoristico

por Maria Ione Caser da Costa
Em 27 de fevereiro de 1902, em Recife, capital pernambucana, surge O Besouro: illustrado e humorístico. Seu número inicial foi o número 6, com referência ao ano dois, isto é, segundo ano de publicação. Surgiu como continuação de O Grillo: periodico caustico, noticioso e humorístico, como pode ser confirmado no editorial de lançamento intitulado O Besouro: a nossa transformação:

Charos leitores e gentilíssimas leitoras. O BESOURO de hoje não é mais nem menos do que o Grillo de hontem, endiabrado e livre que fez muito coió andar com os fundos nas mãos. A sua metamorphose tem o cunho dos acontecimentos estupefacientes e altisonantes do seculo, (estou fallando sério) e é muito explicável.
O Grillo sacudiu fóra a casaca acinzentada dos cantadores para envergar as roupagens douradas d’O BESOURO civilisado e zumbidor, obedecendo assim á exigencia mephistophelica do nosso companheiro Thomaz Caminha, um bohemio de quatro costados que prometteu exterminar todos os besouros bypedes (raça original) do nosso decantado Pernambuco, que soffre agora a praga dos taes bichanos, como Egypto soffreu a praga dos gafanhotos.
Não haverá festa para qual o Besouro não seja convidade. (Chapa 69669...)
A mocidade d’O Besouro estará espalhada pelas ruas, cafés, jardins, reuniões, (casamentos não falla), theatros, bastidores, camarins e... recursos dos recursos.
Reportagem fina e perspicaz... Será mais fácil passar um camello pelo fundo de uma agulha do que um camarãosinho pela malha da nossa rapazeada...
E quem avisa já se sabe...


O Besouro teve como proprietários Thomaz Caminha e Felix Patife, cujos nomes apareciam em destaque, na capa, logo abaixo do título. Os diretores eram Sá Cantor, Gil Minhoca e Simplorio Baiacú (Severino Alves Barbosa).

As letras do título eram em maiúscula, caixa alta e negrito. Separados por fios triplos vinha o valor das assinaturas e os nomes dos diretores.

O valor da assinatura trimestral era de 1$500, a semestral valia 3$000, o número atrasado era vendido por $200 e o número da semana valia $100. Ainda no cabeçalho uma pequena nota com a informação aos colaboradores: “Toda correspondência deve ser enviada para a Agencia Jornalistica do Sr. Agostinho Bezerra (*) onde temos uma caixa a disposição dos nossos collaboradores”.

Localizava-se na rua do Imperador número 31.

A seguir, nas capas, um desenho em zincogravura - técnica de impressão litográfica que utiliza uma placa de zinco como matriz, ocupando a maior parte da página, seguida de uma nota ou poema sobre o desenho.

O Besouro era composto em três colunas. O primeiro exemplar foi editado com sies páginas, passando a oito a partir da edição número 7. O teor de suas matérias era o humorismo, que podiam ser redigidas em prosa, versos ou, ainda, compostas em caricaturas.

Muitos eram os colaboradores. Todos assinavam com pseudônimos. Pio Piparote e Zamparini (eram utilizados por Artur Benicio de Araujo Lima), Benevenuto Teles, O Besouro-Mor, Dr. Cabeçudo (Praxedes Lima), Escabrioso, Jacinto Porteiro, Dr. Serycobático, Dr. Maracuja de Gaveta, Roberto do Diabo, Tomaz Taboca, Dr. Ascanio Peixoto (José Pedro de Sousa), Invisivel nº I e Dr. Bilontra (dois pseudônimos utilizados por Caitano Quintino Galhardo), Pacifico Leao e Gil Mascote (ambos de Osvaldo Anibal de Almeida), Dr. Chacon Leite (Agripino Nazaré) e Ruffo.
A partir do número 12, publicado em 18 de abril de 1902, trouxe alterações no cabeçalho: Besouro é propriedade de uma Associação, que tem como diretor Pio Piparote.

Em 03 de junho daquele ano, com a publicação do número 20, as letras do título, na capa, mudam a diagramação e formato. Num desenho zincografado, elas estão entremeadas por homens alados, homens com cabeça de besouros, besouros com grande ferrão, pequenos besourinhos, um rato seguido por um besouro que tenta picá-lo. Abaixo, o desenho de quatro homens em estado de embriaguês, saudando a existência de O Besouro. Com o título “O semestre d’O Besouro, que grande pandega!”, segue o seguinte texto:

O BESURO, sympathico e trevesso jornalzinho completa hoje seis meses de existência.
Razão pela qual o Thomaz Caminha, Pio Pinarote, Sá Cantor e Simplorio Baiacú, essa troça de um diabo... a quatro, hoje no aprazivel Beberibe estão numa pagodeira de tresentos besourinhos... festejando a brincalhona data, a repetidos goles do PECCADO ENGARRAFADO! [...] Que O BESOURO tenha sempre a tua proteção, meu querido leitor e no dia 3 de Dezembro possa tirar a mama, são todos os desejos dos quatro bohemios.


No número 40, publicado em 7 de outubro de 1902, conservando as mesmas características de capa, desaparecem os nomes do diretor. Continua apenas “Propriedade de uma associação”. Na página dois, segunda coluna lê-se a seguinte nota:

Temos a grata satisfação de communicar aos nossos queridos leitores que, em data de 3 de setembro passado compramos o enciabrado jornalzinho “O Besouro”.
Amantes da troça e da pilheiria [sic], nós procuramos sempre por todos os meios agradar aos nossos leitores e esperamos que continuem a dispensar ao mesmo jornalzinho o acolhimento d’outrora.
Não pretendemos mudar a feição d’ “O Besouro” e portanto elle continuará no mesmo, fallando de tudo e de todos, chicoteando sempre os coiós sem vergonha e a cobaias atrevidas e bailistas.
D’ora avante “O Besouro” será o terror do Brejo e o atrazo dos quengos. Amen.


A coleção da Biblioteca Nacional é composta de 55 exemplares. Este, lançado a 3 de janeiro de 1903 corresponde ao terceiro ano da publicação. Em nossas pesquisas foram encontradas informações de que O Besouro teria circulado, com algumas interrupções até 1908.


(*) A Agência em questão é a Agencia Jornalística Pernambucana, de propriedade de Julio Agostinho Bezerra.

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