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O Garoto: orgam critico, humoristico, inofensivo, franco-popular

por Maria Ione Caser da Costa
O Garoto foi um semanário lançado em Manaus, capital do Amazonas, em 22 de junho de 1919. Recebeu o extenso subtítulo de orgam critico, humoristico, inofensivo, franco-popular. Se autoproclamava “o jornal do riso e da graça”. Uma nota logo abaixo do título confirmava a afirmação registrando que “O GAROTO circulará sempre aos domingos e estará ao alcance de todas as bolsas sem ser preciso ser lido pelos cafés e botequins como faz muita gente bôa.” Seu humorismo cuidadosamente inocente, tinha a preocupação de não ofender qualquer pessoa.

Circulou com quatro páginas cada exemplar, diagramadas em três colunas, separadas por um fio simples. Não era ilustrado. Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional podem ser consultados os quatro primeiros exemplares publicados, tendo o número quatro sido lançado no dia 20 de julho daquele ano.

Com o título Mais um, os editores apresentam o seu trabalho, argumentando que a aceitação do público teria o poder de se transformar em diálogo o que era um monólogo. Este editorial não apresentou autoria.

Mais um que se vem juntar ao numero dos que aqui já circularam, dirão os leitores.
É acontecimento vulgar, vulgarissimo mesmo, a publicação d’um novo órgão de imprensa. Quaesquer que sejam o seu formato, feitio, orientação, divisa e direcção, não mais impressiona a ninguém, despertando emoção nova em nenhum bípede carnívoro.
A imprensa, Dalila insaciavelmente diabólica que nos absorve a seiva do espírito, as forças da alma e as energias do corpo, vae, infelizmente, perdendo, dia a dia, a sua influencia formidável, o seu valor indiscutível. Respondem por esse crime os seus maus amantes.
No seio do eterno anonymo que se chamma povo ainda conta ella, porém bons amigos. Ainda bem que assim é.
Confiados nessa amizade – que muito presaremos – é que nos abalançamos a fazer circular o Garoto que será o vehiculo e reflector de humorismo sadio, alegre, sarcastico, pilherico, ironico, mas inoffensivo e bom como as pombinhas mansas de que nos fala Junqueiro.

Também não apresentam um programa que pretendessem cumprir.

Nós que temos da vida longa pratica e experiencia, affeitos a essa indifferença de hoje pelos filhos de Guttemberg, nos abstemos prudentemente de fazer o chamado – programma – para evitar sermos prolixos logo no dia faustoso do nascimento.
Contentar-nos-hemos com simples palavras, não enroupadad na dialectica de novellas romanticas, sempre tão estafantes e cacetes.
Baptisamos o nosso jornal com o nome um pouco irreverente de “Garoto”. Como o garoto nas cidades modernas, elle será também rapido, ligeiro, celere, cheio de graça e de alegria temperado por um pouco de verve.
O nosso Garoto não joga pedras. É muito despreocupado com os seus possiveis inimigos, com os que lhe queiram puxar as orelhas, é perfeitamente igual em desassombro áquelle celebre garoto que vendia rebuçados na tomada da Bastilha.
Prevenimos para evitar enganos.

Ao final, a pessoa escolhida para apadrinhar O Garoto é apresentado:

Antigamente a todo estreante era costume se dar, ou elle escolher, um Mecenas, isto é, um padrinho ou paranympho como se diz presentemente. Adeptos da antiguidade, insensiveis, qual “Jéca Tatu”, a certas modernizações, teremos tambem um Mecenas.
Escolhemos o academico Marques de Stephano com cujo apoio contamos na qualidade de afilhados.
Sob sua protecção é que contamos estar.
Neste momento do recrudescimento da “hespanhola” em que todo o mundo está apprehensivo, tristonho e mal humorado, aconselhamos o convivio de uns minutos com o Garoto.
É desopilante e preservativo. Com a leitura do nosso jornalzinho cumpre-se um preceito de hygiene moral, tão util quanto indispensavel em toda sociedade.

Uma consulta aos jornais manauaras permitiu reunir informações sobre o personagem Marques de Stephano. Seu nome civil era Raphael Antonio Marques de Stephano, um pernambucano que migrou para Manaus, lá exercendo a profissão de professor e também subdelegado de polícia do Segundo Distrito. Sua vida acadêmica deu-se na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais, antigo nome da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas.

Todos os colaboradores de O Garoto assinam com pseudônimos: Agarthon, Bap Tista, Barnabé, Cab Çudo, Garotinho, Gil Blas, Heitor Veridiano, Jéca-Tatu, M., Raunier, Roberto Diabo, Tritão de Sella e Zé Pitanguinha.

Dos poemas publicados em O Garoto, dois sonetos de Roberto Diabo, receberam o mesmo título: “Perfil”. O primeiro publicado na terceira página do número 1 e o segundo, na terceira página do número 3.


Perfil

Menina e moça de soberbo porte,
Gentil senhora da belezza e graça,
É a linda flôr das regiões do norte
Victoria-Regia de esplendente raça.

Ao vêl-a, quando entre sorrisos passa,
Meiga e risonha em juvenil transporte,
Vemos que alegre e delirante a enlaça,
De sylphides esplendida cohorte.

É-lhe a existencia um canto ameno e doce
Da mocidade nos primeiros annos
Cheios de sonhos, límpidos de enganos.

Um dia, vendo-a, alguém julgou que fosse
A divindade, traiçoeira e rara,
Que diz a lenda se chamar Yara.



Perfil

Tudo nella relembra a estatuaria antiga
O contorno emphoral da plástica perfeita,
Ou a regia imponencia, amoravel, que instiga
Gladiadores ao prélio augusto, a que é eleita...

De Calliope e Polymnia ao canto egrégio affeita,
É a senhora da graça e do gesto que liga
Entre as nuvens dos sons, a idéa rarefeita
De ansiada guiar uma alípede quadriga.

Ás vezes contemplando o seu perfil antigo,
Na hora em que o sol esconde o seu candente rosto,
Julga-se ser um louro e exul ramo de trigo...

Erectil Girasol de uma intérmina aurora,
Há de soltar ao ler estes versos sem gosto,
Uma linda risada, encantada e sonora.

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