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O Papagaio: folha litteraria e recreativa

por Maria Ione Caser da Costa
Editado pela primeira vez no dia 6 de agosto de 1899, na cidade de Manaus, principal cidade da selva amazônica, cidade cosmopolita apoiada no ciclo da borracha (1879-1912), O Papagaio: folha litteraria e recreativa teve como redator e proprietário, Correia de Sá.

Publicação semanal, saindo sempre aos domingos, era vendida por 300 réis, tendo a assinatura trimestral o valor de 3$000. Quando enviado para fora da capital amazonense, era acrescido a este valor o porte do correio.

Sua redação e administração funcionavam na rua Henrique Antony, nº 7. Esta rua mantém o mesmo nome até os dias de hoje.

Cinco exemplares podem ser consultados na Hemeroteca Digital, sem que haja neles qualquer informação sobre a continuidade da publicação do título. O exemplar de número um, e os subsequentes, os números 2, 3, 4, 5 e 7, que foram lançados nos dias 13 e 20 de agosto e dias 7 e 22 de outubro, respectivamente.

Todos os exemplares se apresentam com quatro páginas. Na parte superior da capa vem o nome do local e a data de publicação, seguida do título do periódico. Este se apresentou em duas famílias tipográficas diferentes, ambas em caixa alta. Nos primeiros exemplares o título se apresenta com os tipos preenchidos em negrito e com serifa de tamanho pequeno. Nos dois últimos os tipos estão vazados, com o interior sem qualquer preenchimento e cada tipo tem um sombreado, dando maior volume ao título.

Uma rápida explicação para o leitor que não é familiarizado com os estilos tipográficos, “serifa” diz respeito ao traço ou barra que remata cada haste de certas letras, de um ou de ambos os lados. De acordo com o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, do qual a Biblioteca Nacional tem alguns exemplares.

Abaixo do título, centralizado, vem o subtítulo. Ladeando o subtítulo, à direita, o número da publicação e à esquerda, o ano. Dividido em três colunas, separadas por um fio simples, segue o conteúdo diário de cada publicação.

A primeira matéria dá destaque ao programa da publicação:

Creando o humilde periódico, que temos a honra de apresentar hoje ao publico, nosso fim principal não é só juntarmos á grande imprensa adiantada o nosso pequenino contingente de trabalho e boa vontade, como proporcionar um momento de distração á nossa sociedade tão sedenta de passatempo agradável: para isso contamos com a valiosa coadjuvação de nossos bons amigos, que faremos por merecer.
Sejam estas simples linhas, despidas de ornamentos rhetoricos e falsos coloridos.

Aparecem como colaboradores S. Cipriano, versos de Tobias Barreto (que havia falecido em dez anos antes do lançamento do periódico), Bocage, Tirolito, José de Alencar, Gregorio Junior, Eugenio Ribeiro, J. dos Anjos.

No segundo exemplar uma nota agradece o acolhimento que O Papagaio recebeu da imprensa de um modo, como de praxe faziam as pequenas publicações, fossem ou não reconhecidas pelos periódicos de maior circulação:

As illustradas redacções do Commercio do Amazonas – Amazonas – Federação – Patria – Diario de notícias – e Amazonas commercial, - fallando da nossa apparição, na imprensa periódica, honram-nos com as mais delicadas e animadoras phrases.
Agradecemos com vivo reconhecimento a gentileza e bondade das distinctas redacções.

Assinada por A Redação, uma nota de agradecimento aos que foram tomados como colaboradores, para abrilhantar o periódico. O termo tomados não é aleatório, pois como se pode ler, o jornaleco fez uso do que muitos de seus confrades faziam mundo afora, simplesmente reproduziam textos de autores famosos que vivos ou mortos não eram e nem poderiam ser consultados sobre o uso do que escreveram um dia:

Agradecemos ainda a esta ilustre redacção os bons desejos, que nutre a nosso respeito, mas, caríssimo mestre, o nosso canto, por maiores que sejam nossos esforços, jamais poderá aproximar-se, quanto mais substituir o de intelligencias robustas e privilegiadas, como a de um Tobias Barreto, um V. Hugo, um Dumas, um Bocage etc., de que lançamos mão, para salvar do naufrágio o pobre “Papagaio”.
Pois a quem, se não a estes, elevados talentos, deve o modesto jornalzinho o fidalgo e lisongeiro acolhimento que teve?

A edição de número cinco não foi publicada com a periodicidade semanal, como indicado no expediente, no mês de setembro o jornal não circulou, como mencionado anteriormente. Na matéria “Duas palavras” os editores explicam as dificuldades na continuação da árdua tarefa de continuar com O Papagaio, problema enfrentado por todos os jornais, grandes ou pequenos.

Reaparecendo hoje o nosso modesto periodico, sua visita ao publico não significa mais que a força de vontade por nós expendida, para levermos por diante ima tentativa sagrada.
O sustentáculo de um jornal em nosso meio, por pequenino que seja o seu formato, é uma romaria bem difficil de proseguir sem embaraços; entretanto a Amazonia é a plaga nortista que mais jornaes alimenta em seu seio.
Que surjam mil empecilhos á ideia mobilitante da palavra impressa, que nós esforçar-nos-émos sempre por perfectibilisal-a, como caminheiros intransigentes do futuro.
A isso nos incitam, na senda da perseverança, as palavras animadoras dos nossos estimados leitores, de quem esperamos continuar a merecer o favor do seu valioso concurso.

Aparentemente busca de financiadores para o jornal foi bem sucedida, pois, nos números que se se sequem, as duas últimas páginas estavam tomadas por anúncios e propagandas, dos mais variados empreendimentos comerciais, desde armazéns de ferragens, casas especializada em tabaco, hotéis, loterias, importadoras, até fábrica a vapor, para refinamento do açúcar e torrefação do café, fábrica de malas e colchoaria.

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