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Única: revista feminina

por Maria Ione Caser da Costa
Unica: revista feminina foi lançada em julho de 1925 no Rio de Janeiro. Se apresentava com capas coloridas, ilustradas com grafites ou retratos de mulheres altivas. No primeiro exemplar está um desenho emoldurado, assinado por Sylvia Meyer, de uma jovem senhora em perfil, maquiada e bem penteada. Na lateral esquerda da moldura, uma flâmula lilás adornada por uma flor vermelha onde, internamente, está grafado o número do fascículo.

A redação de Unica funcionava na rua Conde de Baependy, 84. O valor da assinatura anual valia 30$000 e para o interior o valor cobrado era de 36$000.

O editorial, assinado por Francisca de Vasconcellos Basto Cordeiro, diretora-proprietária, encontra-se na décima primeira página. As páginas que o antecedem são destinadas a propagandas e notícias sobre a publicação.

Chama a atenção nestas páginas iniciais a coluna “Entre nós”, onde são oferecidos os serviços de consulta médica: “O titulo desta secção, já por si bastante suggestivo, indica claramente o sigillo absoluto da correspondência e cujas respostas virão sob o véu do pseudonymo”. Para efetivar a consulta a pessoa interessada precisava preencher o “coupon de consulta medica”, informando, além do pseudônimo para resposta, os “antecedentes mórbidos, hereditários e a historia da doença actual”. Os que desejassem receber a consulta em sua casa deveriam “remeter com o questionário um vale postal registrado e um sello de 200 réis”.

Nas páginas iniciais também consta o ex-libris da revista Única e, antecedendo o editorial localiza-se a página de rosto. Nela estão, além do título, o sumário e a relação das colaboradoras.

As letras que compõe o título estão grafadas em caixa alta, negritadas, e, no miolo de cada letra, observa-se o desenho de mulheres em diferentes posições acrobáticas. A seguir, o subtítulo revista feminina: litteratura, arte, elegância, sociologia, acompanhado da informação: “Tendo completo o grupo de suas collaboradoras, a administração só excepcionalmente, publicará artigos de pessoas estranhas”.

Com o título “Programma da revista feminina de arte, elegância, literaturas, vida social e domestica”, Francisca de Vasconcellos enumera suas considerações dobre o lançamento da publicação:

Revista de elegancia e de literatura nos moldes práticos das modernas publicações congeneres, vem a ÚNICA preencher uma lacuna em nosso meio feminino culto e progressista.
Instructiva e recreativa a um tempo, abrange tudo quanto possa interessar á mulher de qualquer mentalidade; á frívola, como a intellectual; á mãe de familia, como á jovem que findou a sua educação colegial. Á todas e a cada uma leva uma mensagem, sugere uma idéa, dá um conselho, desvenda um novo horizonte.
Exclusivamente feminina em sua directriz e colaboração, não patrocina fins sectários de espécie alguma. Em seu ecletismo, visando canalizar as ideias novas, acolhe todas as opiniões e ideaes, desde que não ofendam o moral, nem perturbem a harmonia social.

A editora, ou diretora proprietária, como aparece grafado na revista, contava, à época, com a colaboração de expressivas mulheres que se empenhavam na conquista dos seus direitos, nunca deixando de entreter suas leitoras. Segue o editorial:

O texto da revista conterá, além da parte puramente literária, outras, dedicadas á sociologia evolucionista, ao estudo das questões mais elevadas do pensamento modeno do feminismo christão, ao embelezamento do interior, á esthesia da elegancia, aos misteres caseiros, á hygiene, á puericultura e ao equilíbrio financeiro indispensável ao lar.
Propõe-se a ÚNICA a auxiliar e interessar a todas as mulheres distrahindo e aconselhando-as, tornando-se a sua companheira indispensavel.
A ÚNICA organizará concursos variados em que serão distribuídos prêmios.
Si, como é de esperar, esta audaciosa tentativa feminina encontrar, de parte do publico, o apoio indispensável ao seu desenvolvimento, a sua directoria não poupará esforços para servil-o, melhorando-a, sempre.
O programma inicial será fielmente executado, graças aos elementos valiosíssimos que soube reunir, uma pleiade de colaboradoras onde se encontram os primeiros nomes da nossa sociedade confraternizando para um mesmo ideal: - o aperfeiçoamento moral, intelectual e esthetico da mulher brasileira.

E finaliza informando que “as paginas da ÚNICA estarão sempre generosamente abertas a toda e qualquer iniciativa que vize o Bem, o Bello e o Justo, correspondendo assim ao carinhoso interesse que o seu aparecimento despertou”.

Publicação mensal, podem ser consultados na BN Digital os dezesseis números de Única. Cada fascículo tem em média cinquenta páginas totalmente ilustradas. Alguns números apresentaram numeração dupla, correspondendo a dois meses: o 5/6 (novembro/dezembro de 1925), o 9/10, (março/abril de 1926), 12/13 (junho/julho de 1926) e 14/15 (agosto/setembro de 1926). Depois de um pequeno intervalo, o número 16 foi publicado em abril de 1927.

A seguir, a relação das colaboradoras de Única: Abel Juruá, Alba de Mello Amadel Soares, Albertina Bertha, Alice Serpa, Anna Amelia C. de Mendonça, Aracy Dantas, Chrysanthéme, Cecilia Meirelles, Dagmar Cortines, Diva Dantas, Engraçadinha Meira Penna, Gilka Machado, Guaratyba, Guiomar Simith de Vasconcellos, Julia Lopes de Almeida, Julieta Telles de Menezes, Laura Margarida de Queiroz,Lia Correia Dutra, Lucia Fernando Magalhães, Luzia de Souza Bandeira, Maria Eugenia Celso, Maria da Gloria Ribeiro de Almeida, Maria Luiza Monteiro Dantas, Maria Junqueiro Schimidt, Mme. Octavio Teixeira, Maria Rachel Prado, Maroquinha Jacobina Rabello, Ruth Leite Ribeiro, Stella Fáro, Sylvia Meyer, Sigrid Nepomuceno, Victoria Regia, Virginia Victorino e Zita Coelho Netto.

Dos vários poemas encontrados nas páginas da revista, selecionamos o soneto de Virgínia Victorino, intitulado Alegria.


Alegria

Ha diversas maneiras de sentir.
A vida é que o afirma dia a dia
Ha uns que encaram a tristeza a rir,
Outros que chóram mesmo de alegria.

Uns sonham a dôr muda, grande, fria,
Outros choram as penas a sorrir...
O que um sorriso, ás vezes, nos diria!
O que esconde uma lagrima ao cahir!

A alegria pe diffícil de occultar.
Gosta de luz, de sol e de cantar,
e quando assim não é, já não se sente.

Não se esconde. Por mim, logo que a vejo,
logo que a sinto, Deus! Sinto desejo
de a dizer pela rua, a toda a gente.

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