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Vera-Crvz: revista d’arte

por Maria Ione Caser da Costa
Vera-Cruz: revista d’Arte foi impressa pela Typographia Aldina, que estava localizada na “rua d’Assembléa, 96”, no Rio de Janeiro. O primeiro exemplar foi publicado em janeiro de 1898. Em todas as capas, o título aparece grafado como Vera-Crvz, utilizando a letra v grafada no lugar da letra u.

O diretor foi Oliveira Gomes e o secretário, Netto Machado. A publicação, repleta de poesias e textos em prosa, reuniu poetas e contistas simbolistas, que chamavam a poesia de então, de “poesia nova”.

No exemplar quatro, Netto Machado deixa de ser secretário, passando a dirigir o periódico. A saída de Oliveira Gomes da direção foi explicada no terceiro fascículo. Do extenso texto, que não está assinado destacamos o excerto:

Deixa-nos pelos affazeres d’outras atividades intelectuaes o nosso inestimável Oliveira Gomes!
Rica moldura foi a su’alma, para a Revista; felizmente legou os estygmas do seu temperamento, a esta mui de nós amada Vera-Cruz.
Delicado e sensível não deixa de trabalhar um minuto. Ellabora fantasias que soam a doçura mysteriosa dos celestiaes. É um eleito por excellencia. A grandeza bizarra, triste e melancólica das suas fantasias tem a exquesitice extranha dos saborosos e venenosos fructos: envenena e apaixona, faz-nos sonhar pelo soffrimento. [...]
Vera Cruz foi a sua filha dilecta; as condições do trabalho mental obrigaram ao progenitor sahir para outras bandas. [...]

Na Biblioteca Nacional podem ser encontrados quatro exemplares do primeiro ano de publicação e um do segundo ano, o ano 2, número 6, lançado em janeiro de 1899.

Estes fascículos ainda não estão digitalizados e a consulta ao periódico deve ser feita in loco, na Coordenadoria de Publicações Seriadas. Não foram encontradas, nas pesquisas, informação quanto a continuidade da publicação.

As páginas são numeradas com algarismos romanos, e a numeração é sequencial, isto é, não recomeça a cada novo exemplar. Ano e número dos exemplares, bem como a data da publicação, também estão grafadas em numerais romanos e aparecem impressos na última página, quase como uma nota de rodapé. É também neste local que lemos o endereço para correspondência: “Toda a correspondência da V. C. deve ser dirigida para a rua Bambina – 60 – Rio de Janeiro”.

Vera-Cruz media 24cm x 17,5cm e foi impressa em papel couché, diagramada em uma coluna apenas. As ilustrações aparecem em página inteira. A seguir, a relação dos ilustradores, e, entre parêntesis, o nome do homenageado ou o título da ilustração que decora as páginas da revista: Theodoro Braga (Raul Pompeia; Maria, a vida é um beijo; Antonio Austregésilo e Nestor Victor), Celso Herminio (Mulheres), Libanio do Amaral (Theodoro Braga), P. Isasi (Oliveira Gomes), Julião Machado (Emanuel Carnero), Arthur Lucas (Luiz Delfino, que recebeu o título de príncipe dos poetas brasileiros), e Ramos Lobão (Stéphane Mallarmé).

A lista de colaboradores é extensa. Várias foram as figuras que contribuíram com sua tendência espiritualista, impregnada de sentimentos: Alves de Faria, Antonio Austregesilo (1876-1960), Arthur Lobo(1869-1901), Azevedo Cruz, Bernardino Lopes, Carlos Dias Fernandes (1874-1942), Cunha Mendes, Cruz e Souza, Dario Vellozo (1869-1937), Domingos Ribeiro Filho, Dunshee de Abranches, Emilio Kemp, Figueiredo Pimentel, Henrique Marinho, Herméto Lima, Julio Cesar da Silva (1892-1936), Léon Némo, Luiz Delfino (1834-1910), Marc Legrand, Narciso Araujo, Nestor Victor (1868-1932), Netto Machado, Oliveira Gomes (1872-1917), Pethion de Villar, Raul Braga, Raul Pompéia, Silva Marques e Silveira Netto (1872-1942), pai de Tasso da Silveira.

Destaque abaixo para um texto de Oliveira Gomes, publicado no segundo exemplar. Diz respeito ao ilustrador Theodoro Braga e especificamente sua contribuição para a revista Vera- Cruz, bem como para o momento literário que estavam vivendo.

[...] A simples observação dos factos que se têm succedido, mais ou menos regularmente, no nosso pequeno mundo artístico já por si nos dá a segurança de que uma accção, lenta, laboriosa, por vezes mal orientada e mal succedida, mas persistente e forte, está, dia a dia, elaborando sem desfallecimento e sem repouso a obra grandiosa da Arte no Brazil.
O Norte, o Centro e o Sul não descansam. No período cosmolitterario o Pará, o Maranhão, o Ceará, Pernambuco, a Bahia, o Rio de Janeiro, S. Paulo e o Paraná apresentam as suas revistas, modestas e ephemeras mas attestadoras d’energias valiosas constantemente em acção. E não só no periodicismo litterario mas também em manifestações mais reservadas e restritas, como as sessões de musica, as exposições de pintura e esculptura e os espetáculos dramaticos, alguns d’esses centros se têm distinguido. [...]
Qu’importa o triumpho d’uma revista litteraria se restrinja á publicação do seu primeiro fascículo? [...] A multiplicação d’essas tentativas, dia a dia feitas com desassombro e fé, há de rigorosamente levar a resultados fecundos. O meio há de modificar-se, educar-se e afinal comprehender e admirar tanto sacrifício, tanta tenacidade e a obra grandiosa que ahi se está lentamente fazendo.

Vera-Cruz foi bem recepcionada pela imprensa do final do século XIX. Algumas notícias sobre o lançamento ou as matérias publicadas em suas páginas estão na Revista Moderna, periódico que circulou entre maio de 1897 e abril de 1899. Dentre elas destacamos dois excertos que podem ser visualizados na íntegra na Hemeroteca Digital.

“Vera-Cruz representa uma tentativa sincera e feliz na moderna evolução da Arte, e isso bastará cremos para lhe alcançar successo e aplauso”; e, “Vera-Cruz – revista d’arte. Rio de Janeiro. - O ultimo numero que recebemos d’esta revista, a que já nos temos referido por varias vezes, continua com brilhantismo o programma novo e especial que esta publicação se impoz: literatura nova e apresentação de nossos”.

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