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Rede da Memória Virtual Brasileira

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A dramaturgia brasileira

Maria Helena Kühner*



Como jovem país que somos, o imediatismo no fazer muitas vezes atropela a necessidade de avaliar e pensar o que se faz, e de conhecer ou re-conhecer o que foi feito e deve ser valorizado como parte de nossa diversificada e rica produção cultural.

Diversificada e rica: os adjetivos são exatamente esses, e nossa dramaturgia pode bem comprovar a extraordinária diversidade social e cultural do Brasil. Uma peça da região Norte, ou do Centro Oeste traz uma visão de mundo e uma linguagem permeadas por raízes índias; no Nordeste, as raízes ibéricas darão características próprias às expressões, quase sempre carregadas de um matiz popular; na Bahia e Rio de Janeiro, as raízes afro marcarão a importância da raça e da cultura negra em nossa formação como povo e nação; no Sul, a influência da imigração italiana, alemã, polonesa deixarão seus traços na expressão social, histórica e cultural. Sem falar nas diferenças sociais, reveladas na variedade de histórias, de costumes, de meios de vida e trabalho que exibem as vivências dos seres humanos de cada região. Por isso afirmamos, sem hesitar, que nossa dramaturgia permite delinear um re-trato do Brasil. Para dar apenas um exemplo, comparem-se simplesmente, no Catálogo, as obras de um João Jesus Paes Loureiro (Pará) com as de um Tácito Borralho (Maranhão) ou um Joaquim Cardozo (Pernambuco), de Hildásio Tavares (Bahia), de Amaury Tangará (Mato Grosso), de Roberto Bordin (Santa Catarina) ou de Ivo Bender (Rio Grande do Sul) e o que afirmamos saltará aos olhos.

Também a nossa História aí tem registro dos mais significativos, por não apenas apontar fatos e personalidades, mas mostrá-los, torná-los presentes tais como foram vividos, sentidos e pensados por aqueles mesmos que os presenciaram, com toda a sua carga também afetiva e emocional, com esse misto de comédia e drama, riso e dor que é a vida humana. Ao lado de dramas que registram momentos históricos importantes, como, por exemplo, os de Jorge Andrade, espelhando a decadência da aristocracia rural cafeeira de São Paulo, as comédias de costumes, como as de Martins Pena, Gastão Tojeiro, França Júnior, delineando tipos e situações de um Brasil da virada e início do século 20, ou os folguedos populares e sua síntese das relações sociais vistas pelo ângulo do oprimido, ou as revistas, como as de um Artur Azevedo (um dos maiores homens de nosso teatro), esboçando de forma crítico-cômica as agruras de um Zé Povinho casado com a Opinião Pública (de quem às vezes se perde…) e sempre perseguido e ludibriado pela Política e os poderosos de plantão…

A valorização de nosso patrimônio cultural daí resultante é tão óbvia que dispensa ênfase: o Catálogo resulta de abrangente pesquisa realizada a partir de 1995 em todos os estados do Brasil. Para garantir uma informação qualificada, correta e confiável, foram confrontados e selecionados dados recolhidos a partir de consulta a pesquisadores, críticos, historiadores, professores, jornalistas, autores, diretores, atores de cada estado; ou em bibliotecas públicas federais, estaduais e municipais; ou em Secretarias Municipais e Estaduais e Fundações Culturais; ou em premiações de concursos regionais e nacionais. Daí resultaram, até o momento, 5.500 obras teatrais, do Acre ao Rio Grande do Sul e de José de Anchieta (1567) a nossos dias, postas permanentemente à disposição dos milhões de usuários da Internet em todo o globo e referenciadas de modo a promover e divulgar um segmento mais importantes de nossa produção artística, que é a nossa multifacetada dramaturgia.

Alguns, inconscientes das dificuldades de reunir e sistematizar as informações em um país de dimensões continentais como o Brasil, nos acusam de sermos “um país sem memória’, ou “um país que não se conhece”, ao constatar o número de autores importantes em sua época e região, e cujas obras, em muitos casos, estão dadas como extraviadas ou perdidas. O caso de um Qorpo Santo, hoje considerado o precursor mundial do teatro do absurdo, mas só “descoberto” 100 anos após sua morte, é emblemático. E os demais, onde estão? Onde, hoje, as obras de um Alfredo Bastos (PA), um Domingos Olímpio (CE), um Acioli de Vasconcelos (PE), um Dionísio Lage (MG), uma Andradina de Oliveira (RS) que periódicos da época e historiadores locais citam como autores importantes de seu tempo? Do mesmo modo, quantos talentosos autores regionais fora do chamado “eixo Rio-São Paulo – caixa de ressonância maior – ainda morrem sem ver sua obra (re)conhecida em outros pontos desse país continente?

Se Cultura não é apenas um conjunto de bens ou produtos a serem distribuídos, mas sim a extensa rede de relações que o ser humano desenvolve com o mundo, com os outros e consigo mesmo, mostra-se imprescindível localizar dramaturgos de todos os estados, passados ou atuais, e buscar descobrir os novos talentos que vêm usando o teatro para expressar seu pensamento, sua realidade, com sua própria linguagem, trabalhando no sentido de dar aos criadores de cada região do país, via Internet, meios de difundir sua criação. E garantir aos milhões de usuários dessas obras a possibilidade de conhecimento e fruição mais ampla de nossa cultura. Pois se o homem é “o ser da linguagem”, a maior violência que se pode fazer ao ser humano é silenciá-lo, ou apropriar-se de sua expressão, seja a que pretexto for. Resgatar seu direito à expressão é resgatar aquilo mesmo que o define como ser humano.

A valorização da cultura regional soma-se, assim, à recuperação de nossa memória e ao reconhecimento de nossa diversidade regional e nacional. Reforçando, igualmente, a auto-estima e identidade de cada grupo ou camada social, pois se uma obra valoriza, em suas raízes culturais, uma raça, uma classe social, uma região, ela necessariamente valoriza aquele que passa a ter orgulho de a ela pertencer. Sem esquecer que, como o próprio título do Catálogo indica, trata-se de uma dramaturgia que nos identifica como povo e nação, de uma dramaturgia brasileira.

Se te-atrium é lugar de ver e fazer ver o ser humano na cena do mundo, nosso teatro mostra que está cumprindo plenamente sua função.


*Dramaturga e escritora.