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Doutor Ulysses: Senhor Brasil

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Painel de Abertura

Doutor Ulysses: Senhor Brasil

 

Em mais de 40 anos de vida pública é natural que se acumule alguns apelidos. O que é raro é que nenhum deles seja depreciativo. Ulysses Guimarães, além de todas as outras, conseguiu essa façanha. Foi o “Anticandidato à presidência da República”, em pela ditadura militar. O “Senhor Diretas”, em 1984. E também o “Senhor Constituinte”, entre 1987 e 1988 – momento em que era também o “homem mais influente do Brasil” e o “tetra presidente”, já que acumulava a vice-presidência da República com a presidência da Câmara dos Deputados, do PMDB e da Assembleia Nacional Constituinte, que pariria a Constituição de 1988. Há quem diga, aliás, que a Constituinte só funcionava em sua presença, e que, sabendo disso, Ulysses se mantinha em sua cadeira por até 12 horas seguidas, proferindo dali sua palavra de ordem, célebre no momento e tão rara ao ouvido brasileiro: “Vamos votar! Vamos votar!”


É um paradoxo: mesmo com tantos apelidos, falava tão pouco de si mesmo. Isso nos dá uma pista, para que decifremos Ulysses. O legado do “Senhor Democracia”, como tem sido chamado no ano de seu centenário, é maior do que o próprio. No plano simbólico, ele reside em seu caráter impessoal, tão raro na política. Quem esteve lá foi sempre o “Senhor Estadista”.


Se neste ano comemoramos os 100 anos que Ulysses Guimarães faria se estivesse vivo, não deixamos de lembrar aquele que foi, talvez, o maior desafio de sua carreira pública: erguer, num Plenário tão diverso quanto confuso, a “Constituição Cidadã”. A obra-prima que o imortalizou. Não há homenagem maior a Ulysses do que o respeito à mesma. Ao abrir os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, em 4 de fevereiro de 1987, em discurso, o deputado sublinhava que um processo como aquele era inerente à política. Porque a verdadeira política era intrínseca à democracia: “Sem esse ideal maior, a política desce de sua grandeza à superfície das disputas menores, do jogo ridículo do poder pessoal, da acanhada busca de glórias pálidas e efêmeras”. Lembremos.


Bruno Brasil


Doutor Ulysses - Convite