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Introdução

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Introdução


Interprete contumaz do Brasil, militar e engenheiro, viajante científico e escritor de estilo arrebatador e denso, Euclides da Cunha foi uma inteligência singular e também um representante dos ideários do seu tempo. Formado na Escola Militar do Rio de Janeiro, cultivou um sentimento de nacionalidade avesso ao cosmopolitismo copista das elites cariocas. Euclides vislumbrava o cerne da nacionalidade nos recônditos do Brasil. Ardoroso defensor da República compreendeu a missão republicana como um esforço de incorporação e autoconhecimento do Brasil profundo.

Ganhou imensa projeção nacional com a publicação de sua obra prima, Os Sertões (1902). Neste livro, Euclides descreve a formação física e social dos sertões nordestinos e de seus habitantes e narra a guerra de Canudos. A guerra de Canudos (1896 -1897 ) conflito entre os seguidores do líder religioso Antonio Conselheiro (1830-1897)e o exército brasileiro marcou de forma dramática a jovem república brasileira. Canudos que chegou a ter aproximadamente 35 mil pessoas era uma cidade composta, em sua maioria, de sertanejos pobres. Para seus habitantes, Canudos era uma comunidade, uma sociedade mais igualitária permeada pela forte religiosidade. Os seguidores sertanejos de Antonio Conselheiro derrotaram três expedições do exército. Canudos foi somente aniquilada em 6 de outubro de 1897, após as investidas finais de uma quarta expedição do exército brasileiro.

Pensador moldado por convicções, Euclides da Cunha foi capaz de rever e criticar suas próprias crenças ao se deparar com situações humanas e sociais que o impeliram a uma tomada de posição. Sua experiência em Canudos foi tensionada entre suas convicções científicas e sua vivência como testemunha.

Esta exposição na ocasião dos 120 anos da morte de Euclides da Cunha, revisita, Os sertões (1902), ressaltando sua prosa, o contraste entre a capital e o sertão e as divergências entre ideias e vivências. Da república imaginada pelos jovens positivistas à saga de Canudos temos a trajetória conturbada dos ideários da nação. Para os idealistas da República, a inépcia e a violência do exército na guerra de Canudos aniquilaram as aspirações de uma república civilizadora. Para os seguidores de Antonio Conselheiro, o fim de Canudos significou desespero e morte.

Das ruínas desta história, a escrita de Euclides da Cunha permanece como monumento narrativo e como testemunho das cicatrizes da nação.


Beatriz Jaguaribe e Maria Eduarda Marques
Curadoras