Fotos de estúdio

Fotos de estúdio

Fotos de estúdio: imagens construídas

Marcelo Saldanha Sutil
Formado em Desenho Industrial (PUC-PR) e História (UFPR), é mestre e doutor em História (UFPR) e coordenador de pesquisa histórica da Fundação Cultural de Curitiba.

Maria Luiza Gonçalves Baracho
Graduada em Direito e em História pela UFPR, mestre em História (1995), pela mesma Universidade. Integra, desde 1994, a equipe de pesquisadores da Diretoria do Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Curitiba.

No final dos Oitocentos, as crônicas familiares contadas pelos mais velhos, escritas em diários bem guardados e passadas de uma geração a outra, ganharam poderoso aliado: a fotografia. A história familiar, com essa técnica, passava a ter eficiente suporte para a construção de sua memória. Entretanto, como os equipamentos e os laboratórios fotográficos estavam restritos aos profissionais, era a eles que se recorria. Nessas ocasiões, a simples presença de um fotógrafo ou a ida a um estúdio era acontecimento a ser lembrado nas reuniões familiares.

Itinerantes ou estabelecidos em estúdios próprios, os fotógrafos eram personagens que traziam a magia do novo para o cotidiano familiar. Magia traduzida nos enigmáticos equipamentos mas, principalmente, na possibilidade de reter momentos eivados de significação, a serem futuramente revisitados. E se, em dado momento, a imagem captada pelo fotógrafo podia surpreender pela estranheza de sua forma, por outro, era capaz de conter em si a intimidade da memória e de despertar uma gama de sentimentos em quem a contemplasse – sentimentos, por vezes, mais relevantes que a realidade representada na fotografia.

Capturadas de forma descontínua e fragmentária, e agrupadas em álbuns de família, as fotografias se transformaram em fios condutores das memórias familiares. Representando, por vezes, o último elo com um tempo já distante, elas ajudam a articular passado e presente, recuperando vínculos entre sucessivas gerações. São as fotografias que possibilitam, em última instância, a continuidade visual do passado.

Estúdios fotográficos de Curitiba: 1880–1930

O processo fotográfico, aperfeiçoado a partir da década de 1840, possibilitaria a democratização dos retratos, até então restritos às classes mais abastadas que contratavam artistas para realizá-los em tela. Nessa época, na Europa, fotógrafos começaram a se estabelecer até mesmo nas pequenas cidades.

Contemporaneamente, no Brasil, tal prática começou a se difundir. A expansão da fotografia ocorreu primeiramente nas maiores cidades costeiras, como Recife, Salvador e, principalmente, Rio de Janeiro, sede da Corte imperial. Nessas cidades, o movimento dos portos era intenso e as novidades do Velho Mundo chegavam primeiro. No Rio de Janeiro, em especial, a fotografia teve desenvolvimento maior graças ao espírito empreendedor de D. Pedro II, que apreciava tudo o que representasse a modernidade.

Entretanto, era uma modernidade ainda restrita aos mais abastados, como os grandes negociantes, membros da nobreza oficial e da elite agrária brasileira. Conforme se difundiram os avanços técnicos e os custos da fotografia baratearam, surgiram os retratistas itinerantes, percorrendo vastos territórios em busca de clientela, num mercado ainda incipiente e sem concorrência.

No Brasil, o desenvolvimento da fotografia coincidiu também com o crescimento de uma classe urbana formada por comerciantes, operários, funcionários da administração pública, militares, artesãos, imigrantes e escravos alforriados. Esses personagens, ao se deixarem fotografar, contribuíram para a difusão de especialidades que a fotografia permitia. Entre elas, a carte de visite, retrato colado sobre cartão, no formato de um cartão de visita, de baixo custo, acessível à maioria das pessoas e que popularizou o retrato. O costume de oferecer retratos com dedicatória transformou a carte de visite num modismo do século XIX.

Embora distante da Corte e das cidades mais importantes do país, a Curitiba de meados dos Oitocentos também se urbanizava. Recém-elevada a capital de Província, a cidade se adequava política e economicamente à nova condição, já recebendo a visita de fotógrafos itinerantes, que anunciavam seus serviços no jornal O Dezenove de Dezembro. Mais tarde, expandindo seu quadro urbano, passou a abrigar significativo número de imigrantes, muitos dos quais já conheciam a fotografia, razão pela qual os fotógrafos mais requisitados da cidade, nas últimas décadas do século XIX, eram estrangeiros ou destes descendentes.

Entre os fotógrafos, um dos primeiros a se estabelecer profissionalmente em Curitiba foi Adolpho Volk que, em 1881, já se fazia conhecer através da imprensa. Em novembro daquele ano, no jornal Dezenove de Dezembro comunicava aos curitibanos a instalação do seu estúdio:

“O abaixo assinado tem a honra de participar ao respeitável público, que abriu a sua bem montada oficina de fotografia artística, recomendando-se para todo e qualquer serviço de sua arte, que seja retratos mais finos de apurado gosto, à moda de Berlim, Viena e Paris, de todos os tamanhos até natural e coloridos, vistas de paisagens, edifícios em todas as proporções.

E como este laboratório está provido de tudo o que é necessário a satisfazer os mais exigentes, convido as sociedades, corporações e famílias honrarem-me com suas visitas, a persuadirem-se que com os meus aparelhos e fundo de paisagem de 8 metros posso produzir o trabalho mais perfeito neste gênero.

Estabelecimento em frente ao Hotel União, travessa da rua da carioca. Adolpho Volk.”

Para uma cidade de parcas ruas devidamente pavimentadas, poucos edifícios dignos de nota e que, na época, mal chegara aos vinte mil habitantes, a promessa de fotos à moda das grandes capitais européias era um sinal de que o progresso e a modernidade de fin-de-siècle, enfim, chegavam a Curitiba. Com laboratório bem provido e equipado com as melhores máquinas disponíveis no mercado europeu, Volk executava todos os gêneros de fotografias então conhecidos. Os oito metros de fundo de paisagem e a possibilidade de criar cenários no estúdio representavam algo ainda não visto nestas paragens, o que, certamente, despertou a curiosidade e o desejo de se deixar retratar.

Com espírito progressista, Volk não somente estava a par das últimas técnicas e tendências da fotografia, como sabia utilizar muito bem o melhor meio de divulgação que sua época oferecia: a imprensa. Foi por meio de anúncios primorosos que a população tomou conhecimento dos variados serviços oferecidos pelo fotógrafo e dos endereços por onde passou.

Atento às inovações tecnológicas que ocorriam no mundo, ele atualizava, no Paraná, o ofício de fotógrafo, ao introduzir técnicas e equipamentos que ajudaram a abrir novas frentes de trabalho para quem se aventurasse na profissão. Assim, no final de 1888, anunciava a possibilidade de realizar, em vários tamanhos e com preços diferenciados, retratos em nova técnica, a fotopintura, graças a um aparelho desenvolvido em Berlim. Em 1903, no amplo ateliê recém-instalado na Rua 15, preparava-se para receber um revolucionário aparelho elétrico, o flash, que permitia fotografar à noite, com muita qualidade, e que dispensava a ação do pó do magnésio.

Além de sua grande produção, Volk também contribuiu para divulgar e consolidar a fotografia ao influenciar a formação de vários fotógrafos que atuaram em Curitiba na sua época, como Fanny, sua mulher, Joseph Weiss e Antonio Linzmeyer. Fanny, que, ao se casar com Volk, em 1886, adotou o nome Francisca, participava ativamente do cotidiano do estúdio. Ao acompanhar o marido em seu trabalho, aprendeu todos os segredos do ofício, tanto que, em 1904, quando Volk retornou à Alemanha, decidiu dar continuidade ao estabelecimento, com a ajuda de antigos funcionários. Bem sucedida, foi premiada com a medalha de ouro numa exposição realizada em Curitiba em 1910. Ao longo de quatorze anos, o estúdio fotográfico permaneceu como um dos mais requisitados da cidade, pois Francisca manteve as diretrizes que orientaram o trabalho do marido: aprimoramento técnico e atualização constante de equipamentos. Quando, em 1918, Bernardo Heisler, fotógrafo já conhecido na cidade, adquiriu o ateliê, tratou de manter a respeitada razão social, Photo Volk.

Com Adolpho Volk, despontou um nome que se tornou conhecido dos curitibanos: o dos irmãos Weiss. Trabalhando com o fotógrafo, nos idos de 1890, no início da carreira, Joseph Weiss adquiriu a segurança necessária para, mais tarde, juntar-se ao irmão Augusto. Formaram, então, o estúdio Weiss, também divulgado via imprensa: “… Ao respeitável público! Comunicamos aos nossos amigos, assim como ao público em geral, que mudamos o nosso Ateliê de Pintura e Fotografia da rua Serrito para a da Liberdade, junto à casa dos Srs. Hürlimann e Comp., onde esperamos merecer a mesma confiança com que até hoje fomos honrados…”.

O estúdio dos irmãos Weiss marcou época na cidade; sua produção foi bastante profícua até o final dos anos de 1930. No começo da década anterior, divulgava na Revista do Povo que realizava trabalhos artísticos em todos os tamanhos e sistemas e que conservava as chapas para futuras reproduções.

Os jornais e os almanaques do começo dos Novecentos fazem referência também a outros profissionais estabelecidos na cidade. Entre eles, Max Kopf, Lehmann & Barthes, Octávio Lustoza & Cia, Franklin Soares e José Gonçalvez Vasquez. O número de fotógrafos aumentava e, na mesma proporção, a demanda por produtos especializados. Novidades em equipamentos poderiam ser importadas da Europa, mas para o dia-a-dia havia necessidade permanente de abastecer os estúdios com papéis, produtos químicos e outros materiais. Comércio esse que atendia tanto aos estúdios quanto aos demais fotógrafos, fossem amadores ou profissionais não estabelecidos em ateliês próprios, muitos bastante atuantes. Entre eles, Arthur Wischral, Armin Henkel e Alberto Oncken, que chegou a ser, além de fotógrafo, comerciante de equipamentos e produtos fotográficos. A exemplo deste, outros também tiveram lojas do gênero, como Frederico Lange e João Baptista Groff.

A Casa das Novidades foi uma das lojas que, embora não fosse especializada em artigos fotográficos, freqüentemente anunciava variado estoque: “Casa de Novidades – (…) Acaba de receber diretamente da Europa grande sortimento de aparelhos fotográficos – chapas, papéis e todos os acessórios pertencentes a arte fotográfica. (…)Vende-se em prestações”.

Anunciar nos jornais a chegada de artigos fotográficos vindos da Europa conferia importância ainda maior ao ato de ser fotografado. Naquela época, estúdios detinham uma aura de mistério e solenidade; fotógrafos, por sua vez, donos de um conhecimento enigmático, aprisionavam instantes no papel. Magia e mistério que, embora não possuam a mesma intensidade de outrora, ainda mantêm o poder de seduzir, pois, se no começo a fotografia se constituiu numa grande novidade, que mudou costumes e a forma de as famílias ordenarem suas memórias, com o passar do tempo, foi cada vez mais assimilada ao cotidiano das pessoas.

Imagens de cenas corriqueiras tornaram-se habituais. Muitos outros fotógrafos e estúdios se estabeleceram na cidade, alguns fizeram história como a Foto Brasil; outros, apesar de não tão famosos, deram continuidade ao ofício de construir imagens que ajudam a contar histórias de vida.

Visite as galerias de retratos, pertencentes à Fundação Cultural de Curitiba