Mestre Valentim

Mestre Valentim

Mestre Valentim (1745-1813)

Patrícia Souza de Faria
Doutoranda em História Moderna pela Universidade Federal Fluminense

Valentim da Fonseca e Silva nasceu na freguesia de Santo Antônio do Arraial de Gouvea da comarca de Serro do Frio, em Minas Gerais, em torno do ano de 1744. Mais conhecido como Mestre Valentim, atuou como escultor, entalhador e urbanista no Rio de Janeiro no momento em que era capital do Vice-Reino do Brasil.

Era filho natural de Manoel da Fonseca e Silva e da escrava Amatilde da Fonseca. Declarou no seu testamento que teve uma filha natural com Josefa Maria da Conceição, sendo que a filha do casal, Joana Maria, foi criada por Teodora Maria dos Santos, de quem não se sabe muito.

Estabeleceu uma oficina no Rio de Janeiro, onde deve ter chegado entre 1765 e 1766. Não é plenamente provada a sua estadia em Portugal em companhia do pai, de modo que sua formação artística pode ter sido obtida entre os entalhadores de Minas Gerais e com os mestres do Rio de Janeiro. Tinha livros como a Arquitetura de Vignola e a Perspectiva de Andrea Pozzo.

Destacou-se nas obras em talha dourada para igrejas do Rio de Janeiro, foi responsável pelo retábulo e altar-mor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, além da urna, banqueta e andor; para a mesma igreja teria projetado a fachada e portal. Na Igreja da Ordem Terceira do Carmo (da Rua 1o de Março), Valentim realizou obras na capela-mor, na capela do noviciado e no altar de Nossa Senhora das Dores.

Executou lampadários de prata para a igreja do Mosteiro de São Bento entre 1781 e 1783. Na Igreja da Santa Cruz dos Militares foi responsável pela talha, esculpindo a capela-mor, arco cruzeiro e parte da nave.

Decorou a capela-mor da Igreja da Candelária, mas teve os seus ornatos substituídos no final do século XIX. Já na Igreja de São Francisco de Paula do Largo de São Francisco, Valentim trabalhou na capela-mor, no altar-mor e na capela de Nossa Senhora das Vitórias. Foi encarregado da reconstrução do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto após o incêndio de 1789.

Além da talha das igrejas, durante o vice-reinado de Luís de Vasconcelos e Sousa (1779-1790), Mestre Valentim foi designado a projetar obras de caráter urbanístico como chafarizes e o Passeio Público do Rio de Janeiro (primeiro jardim público da cidade, inaugurado em 1783).

Realizou o Chafariz do Carmo, conhecido como Chafariz de Mestre Valentim ou Chafariz da Pirâmide (por sua forma ser de uma torre com uma pirâmide em cima), localiza-se no antigo Largo do Carmo, atual Praça XV. Realizado em 1779, Brasil Gerson afirma que as pretensões do vice-rei Luís de Vasconcelos era que se erigisse na região um cais à semelhança de Lisboa, sendo o chafariz da época de Gomes Freire reformado e adornado por Mestre Valentim.

Já o Chafariz das Saracuras foi realizado em 1795 para o Convento de Nossa Senhora da Conceição da Ajuda, doado pelo vice-rei Conde de Resende às freiras. O Convento da Ajuda localizava-se na atual Praça Marechal Floriano Peixoto (Cinelândia), mas tendo sido o convento demolido, o chafariz teve como destino a Praça General Osório, em Ipanema. Valentim também realizou o Chafariz das Marrecas, cujo caminho que o ligava até o Passeio Público (atual Evaristo da Veiga) era chamado de “Belas Noites” por proporcionar aprazível experiência visual àqueles que andavam na região quando o sol já havia se escondido.

Mestre Valentim não deixou muitos bens para sua filha natural, pois seu legado era pequeno: apenas uma casa, instrumentos de trabalho, móveis, um escravo velho alforriado, um par de fivelas de sapato de ouro, livros, medalhas e estampas. Faleceu em 1o de março de 1813, sendo seu corpo sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Em 1997 foi inaugurado o Memorial Mestre Valentim para preservar suas peças originais, em exposição no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Leituras sugeridas:

CARVALHO, Anna Maria Fausto Monteiro de. Mestre Valentim. São Paulo: Cosac & Naify, 1999.
CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004