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Acervo da BN | Colonie Zeitung: um empreendimento colonizador

22 ago 2020

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Alemães no Brasil, Colonização do Brasil, Imigrantes no Brasil, Imprensa imigrante, Língua Alemã, Santa Catarina

Hoje em dia, ler qualquer coisa escrita em caracteres góticos pode parecer um desafio e tanto: os tipos correspondentes ao S às vezes parecem F, quando não o T, e vice versa. Por vezes dá vontade de mandar a leitura às favas e tentar logo o etíope ou o coreano, de uma vez. Que o digam os leitores – ou aspirantes a – dos inúmeros periódicos da imprensa imigrante alemã no Brasil, presentes na Coordenadoria de Publicações Seriadas e na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Nem todos escritos 100% no idioma de Goethe, tais impressos são testemunhos da vida, dos valores, do pensamento, da religiosidade e das aspirações de grupos sociais que, apesar de responsáveis pela ocupação e pela colonização de terras brasileiras, custaram a se sentir inseridas cá nos trópicos: sentimento que, de certa forma, calca certas comunidades ainda hoje. Isolados geograficamente quando chegavam, em momentos que foram do Império à República, e sem grandes incentivos estatais visando sua integração, colonos de nacionalidades como a alemã acabavam aferrados à cultura que estava à mão: a pátria e a língua originais, a família, a religião, a propriedade rural. Tudo isso estava na imprensa imigrante, em jornais como o que trazemos hoje, o Colonie-Zeitung. Aproveitem que ao menos este texto não está em caracteres góticos.

Colonie-Zeitung (“Jornal da Colônia”) foi um jornal lançado em 20 de dezembro de 1862 por Ottokar Doerfell, na colônia alemã Dona Francisca, atualmente município de Joinville (SC). Doerfell era membro da direção da colônia Dona Francisca – mais tarde, aliás, seria ainda cônsul de Hamburgo e prefeito de Joinville de 1874 a 1877. Além de ter marcado o início da imprensa periódica formal na colônia – que, antes disso, só havia contado com o lançamento do manuscrito alemão “Der Beobachter am Mathias-strom”, lançado por Karl Konstantin Knüppel em 2 de novembro de 1852 e conseguindo cerca de 700 leitores –, o periódico foi um importante meio para o sucesso do empreendimento colonizador. Seu subtítulo era “Und Anzeiger für Dona Francisca und Blumenau” – algo como “... E indicadores para Dona Francisca e Blumenau”.

A primeira edição de Colonie-Zeitung foi experimental, rodada em dezembro de 1862 poucos dias após a chegada de impressoras importadas de Hamburgo, na Alemanha. O nº 1 do jornal, portanto, foi lançado a 3 de janeiro de 1863, acompanhado do suplemento Die Lesehalle (“O Salão de Leitura”). Possivelmente, o jornal teria sido lançado já em 1858, mas o prelo manual completo encomendado por Doerfell na ocasião fora perdido com o naufrágio do navio Francisca, vindo de Hamburgo e jamais chegando ao seu destino. A prensa que, anos depois, possibilitaria o lançamento de Colonie-Zeitung foi viabilizada através da influência do embaixador suíço J. J. Tschudi junto ao governo brasileiro, que liberou a verba necessária à instalação de uma oficina tipográfica nas paragens catarinenses.

Instalado inicialmente na casa de Doerfell, na Rua 15 de Novembro, onde hoje está o Museu de Arte de Joinville (o “Castelinho”), e com oficinas na atual praça Lauro Müeller, o periódico era publicado aos sábados, totalmente em alemão e impresso em letras góticas, de acordo com a tradição da imprensa germânica. Sua tiragem inicial era de aproximadamente 250 exemplares distribuídos em Joinville, Blumenau e São Bento do Sul, mais 50 que eram enviados para distribuição em Hamburgo, através da livraria de Robert Kittler. Circulando com quatro ou seis páginas e em formato tabloide, em seus primeiros momentos o jornal era disposto em apenas duas colunas de texto em cada página, sem imagens. Seu formato inicial era o conhecido como tamanho “chanceler”, tabloide de dimensões próximas a uma folha de papel A4. Ao longo dos anos, seu formato oscilaria, entre tabloide e standard, assim como sua periodicidade: primeiro um semanário, Colonie-Zeitung passaria a bissemanário em 1887 e, depois, em sua melhor fase, circularia 3 vezes por semana.

Colonie-Zeitung funcionava como um informativo geral das colônias alemãs onde hoje estão os municípios de Joinville e Blumenau. No entanto, com o seu desenvolvimento, o jornal passou a circular em toda a comunidade alemã no Brasil, atingindo diversas cidades fora de Santa Catarina e até cidades alemãs. No editorial de sua primeira edição, o tabloide se comprometia principalmente a divulgar ao público imigrante as atualidades sócio-políticas da Europa: “(...) o jornal publicará sempre um resumo, claro e compreensível, das mais importantes ocorrências mundiais, sobretudo dos fatos mais em evidência na Europa, dando atenção especial às coisas e à evolução dos acontecimentos nos países de língua alemã”.

Como informativo colonial, o jornal era inicialmente dividido em duas partes, uma estritamente local e outra nacional e internacional. Assim, trazia notícias e informes gerais de utilidade pública para as colônias alemãs catarinenses (na seção “Örtliche Nachrichten”) – incluindo anúncios comerciais, serviços, achados e perdidos, anúncios de compra e venda, notas de óbito e nascimento, meteorologia e índice pluviométrico (um avanço para a época), listas de casamento, notas de noivados desmanchados, retratações públicas e convites para festas locais, além de noticiário político e geral de Santa Catarina, do Brasil, da Alemanha, da Europa e do restante do mundo. Colonie-Zeitung abordou principalmente a defesa do progresso de Joinville e Blumenau, fórmulas para a adaptação de colonos à realidade local e para a melhora na qualidade de vida dos imigrantes da região, agricultura local e divulgação de técnicas agrícolas, economia e finanças coloniais, atitudes e direções do presidente da Província de Santa Catarina e da direção da colônia Dona Francisca, crimes e casos de polícia (um assassinato é divulgado já na edição experimental inicial), literatura (com contos, crônicas e versos), a Abolição da Escravatura (1888), a Guerra do Paraguai (1864-1870), a Proclamação da República no Brasil (1889), variedades sobre a família imperial brasileira (o aniversário de D. Pedro II é noticiado na edição experimental inicial), a guerra franco-prussiana (1870-71), etc.

Politicamente, Colonie-Zeitung foi um jornal muito crítico e, por vezes, irônico. Assim, seus redatores não se mostravam intimidados ao criticar sem restrições medidas tomadas pelo presidente da província e pela direção da colônia, caso estas fossem avaliadas como prejudiciais aos interesses do povo. Nesse sentido, o periódico teve uma inimizade considerável em relação ao Joinvillenser- Zeitung, jornal concorrente comprometido com o governo, que o combatia ferozmente. Ademais, Colonie-Zeitung se posicionou ideologicamente contrário a alguns partidos políticos, avesso a qualquer partidarismo, e a manobras violentas na guerra franco-prussiana.

Em suas primeiras edições, Colonie-Zeitung identificava como seus expedidores em Joinville e Hamburgo, respectivamente, Johann Heinrich Auler e Robert Kittler. Pouco depois de seu lançamento, em seu nº 7, de 14 de fevereiro de 1863, Adolph Bartels passou a assinar como agente do jornal no Rio de Janeiro. Na edição seguinte, o nº 8, de 21 de fevereiro, diversos outros correspondentes/agentes passaram a figurar no cabeçalho do periódico: Victor Gärtner em Blumenau, T. Brandt em Itajaí, Ferdinand Hadradt em “Santa Catarina” (possivelmente em Desterro, a capital do estado), Emil Wiedemann em Porto Alegre, A. Stellfeld em Curitiba e J. G. P. Jacoby em Petrópolis, além dos demais.

Finanças frágeis, concorrência e mudanças

Desde o início de sua existência, Colonie-Zeitung passou por diversas dificuldades financeiras. Sua primeira crise, neste sentido, deu-se por volta de 1865, sobretudo no final deste ano. À época, embora o número de leitores do jornal fosse elevado nas colônias alemãs catarinenses, o número de assinantes e leitores pagantes era relativamente baixo. Desde 1863, Ottokar Doerfell editava também o Santha Katharinaer Kalender (“Anuário de Santa Catarina”), percebendo que ambas as publicações davam prejuízo. Assim, pretendendo foca-se no jornal, ao fim de 1865 Doerfell deixa o anuário nas mãos de Johan Heinrich Auler.

Durante sua história, em quatro ocasiões Colonie-Zeitung mudou de nome. De seu surgimento até a edição de 26 de dezembro de 1868, o jornal circulou com seu nome original, mudando para Kolonie-Zeitung na edição de 2 de janeiro de 1869 e permanecendo assim até o número de 25 de outubro de 1917 (ver as alterações seguintes abaixo). Poucos anos depois da mudança no início de 1869 – que acaba marcando o início da segunda fase do periódico –, Ottokar Doerfell adoece e transfere a direção do jornal a Karl Julius Parucker, antigo colaborador da publicação que passa a figurar como seu diretor a partir da edição de 28 de janeiro de 1871. Entre 1871 e 1872, período em que Parucker manteve o Kolonie-Zeitung, a linha editorial da publicação permaneceu a mesma. No entanto, nesse período o jornal sofre uma reforma gráfica, quando passa a ter três colunas de texto por página e o seu o formato é alterado pela primeira vez, do tamanho “chanceler” para um modelo maior, próximo ao de uma folha de papel A3. Esse seria o formato do jornal até aproximadamente o início do século XX.

Ainda em 1872, mesmo com sua saúde restabelecida, Ottokar Doerfell decidiu não exercer mais a editoria do jornal, colocando-o à venda. Assim, a partir da edição de 1º de janeiro de 1873, Karl Wilhelm Boehm passou a figurar no cabeçalho de Kolonie-Zeitung como seu novo dono e diretor. Iniciava-se, desta forma, a terceira fase do periódico, a “fase Boehm”. Karl W. Boehm, contando também com o trabalho de sua esposa, Thereze Alvine Boehm, dirigiu Kolonie-Zeitung até a sua morte, em 15 de março de 1889. Com o ocorrido, Carlos Bernardo Otto Boehm, filho do casal, assumiu o comando da folha – sua mãe, apesar de não ocupar formalmente um cargo de direção, foi fundamental para os novo processo de edição do periódico. Mesmo nesse novo período, uma característica da gestão do antigo fundador do jornal, Ottokar Doerfell, ainda se mantinha: Kolonie-Zeitung – que em 1887 passou a bissemanário, circulando às terças e quintas-feiras – continuava apartidário, politicamente neutro. O periódico era simpático ao seu antigo dono, tendo, aliás, dado amplo destaque ao falecimento do mesmo em 18 de novembro de 1906.

Em 1917, o jornal alemão Koelnische Zeitung, da cidade de Colônia, passou a ser distribuído em Santa Catarina. Visando o público imigrante local, o periódico trazia sobretudo noticiário relativo à Primeira Guerra Mundial (1914-1918), destacando suas consequências e as condições da população alemã após os conflitos. Com a presença desse jornal, Kolonie-Zeitung passou por grandes alterações. Em primeiro lugar, para não ser confundido com Koelnische Zeitung, o periódico joinvilense mudou seu título por uma segunda vez na edição de 6 de novembro de 1917, quando passou momentaneamente a se chamar Actualidade, nome que permaneceria em vigor por cerca de dois anos. Em segundo lugar, na ocasião, o periódico passou a ser totalmente editado em português, tanto para facilitar sua aceitação junto ao público brasileiro quanto para evitar perseguições por parte do governo, que, à época, enxergava publicações estrangeiras com suspeição. Aproveitou-se ainda para modificar também o formato do jornal, desta vez para um próximo ao tabloide clássico. Editorialmente, no entanto, o jornal continuava o mesmo: crítico e objetivo, Actualidade circulava prioritariamente no Vale do Itajaí, noticiando a Primeira Guerra Mundial e a participação brasileira no conflito, além de outras notícias nacionais, internacionais e locais, com muitas informações sobre agricultura e orientando colonos vindos da Alemanha a como tirarem seu sustento da terra da melhor forma possível. Em 26 de agosto de 1919, de qualquer forma, a folha voltou a se chamar Kolonie-Zeitung e a sair em alemão. Pouco antes disso, o antigo formato “chanceler” fora resgatado no periódico. Em seu retorno ao título Kolonie-Zeitung, o tabloide passou a ser uma publicação bilíngue, com textos, editais e anúncios em alemão (principalmente) e português. Antes disso, já no século XIX o jornal publicava em português apenas editais divulgados pelas autoridades regionais, esporadicamente. Como curiosidade, o jornal anunciou logo na capa de sua edição de 19 de fevereiro de 1923 a criação do periódico joinvilense A Notícia, que se tornaria o maior jornal da cidade.

O falecimento de Otto Boehm em 18 de maio de 1923 deixou a propriedade de Kolonie-Zeitung com uma sociedade, identificada em seu cabeçalho apenas como Empresa Boehm & Cia., gestora do periódico e de sua editora, que, há tempos, rodava diversos outros tipos de impressos. Carlos Willy e Max Boehm eram os diretores da Boehm & Cia. e se mantiveram diretores da folha até o seu fim. Os novos donos da firma decidiram, à época, não alterar a estrutura gráfica e a linha editorial do jornal, que continuava focado no desenvolvimento da região e no bem-estar para colonos locais. No ano de 1926, a exemplo, Kolonie-Zeitung publicou uma série de textos intitulada “Joinvilles Zerdegang” (“O desenvolvimento de Joinville”), com acontecimentos gerais da cidade e dos arredores.

O início do fim

Em 1937, Kolonie-Zeitung completava 75 anos de publicação, devidamente comemorados em sua edição de 20 de dezembro. Ali, em editorial, o jornal destacava a superação de suas dificuldades durante o seu estabelecimento no século XIX, além da coragem e das vitórias dos alemães que chegavam na região como imigrantes, pouco habituados com as realidades da nova terra. Apesar deste editorial positivo, e do sucesso vivido pelo periódico na década de 1930, no ano seguinte Kolonie-Zeitung viveria uma série de dificuldades na sua edição. A partir de 1938, Kolonie-Zeitung passou a enfrentar uma crise que culminou em seu fechamento quatro anos depois. Esta crise é considerada consequência, sobretudo, da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial e da Campanha de Nacionalização do governo de Getúlio Vargas, que, assim como ocorrido com outros periódicos da imprensa imigrante no Brasil, obrigou o jornal a publicar conteúdo somente em português. De 1938 a 1941, Kolonie-Zeitung enfrentou os decretos-lei da Campanha de Nacionalização. Mas, já com poucos recursos para postergar a mudança de seu idioma principal, em 31 de julho de 1941 o jornal publica “Die Abschiedesstunde hat geschlagen” (“Soou a hora da despedida”), anunciando que a partir de agosto qualquer jornal estrangeiro teria circulação proibida no Brasil. Por conta disso, a edição de 28 de agosto de 1941 acabou sendo a última do jornal a circular sob o título Kolonie-Zeitung: a partir da edição de 2 de setembro de 1941, e até a edição final no ano seguinte, o periódico foi publicado com o título Correio Dona Francisca, sendo então redigido totalmente em português. Na ocasião, o jornal passa a circular como “ano 1” de publicação, como se não fosse a continuação de Kolonie-Zeitung.

Como Correio Dona Francisca, o jornal continuava publicando conteúdo de teor local, voltado aos imigrantes sobretudo no tema da agricultura, e noticiário político geral, com destaque aos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial. Durante a fase Correio Dona Francisca, a manutenção do jornal acabou se mostrando inviável, já que boa parte do público leitor já fidelizado, espalhado por toda a região Sul, só podia ler em alemão. Além disso, a Empresa Boehm & Cia., por ser gerida por netos de alemães e estampar um sobrenome alemão em sua razão social, enfrentava dificuldades para conseguir o material necessário para a impressão do periódico. Assim, a versão em português de Kolonie-Zeitung lança sua derradeira edição em 21 de maio de 1942, suspendendo uma publicação que durara, ininterruptamente, cerca de 80 anos. Uma nota nesta edição, no entanto, destacava que o jornal não circularia apenas durante as festividades de Pentecostes.

Ao longo de sua história, tendo passado pela Monarquia e pela República brasileiras, Kolonie-Zeitung teve cinco editores diferentes, sofreu pressões de diversas naturezas e registrou grandes acontecimentos políticos, sociais e econômicos, além de importantes polêmicas e embates locais. Desde seu início até o seu fim, no entanto, o jornal preservou o mesmo estilo de diagramação. Diversos nomes importantes da colônia alemã catarinense colaboraram em suas páginas: Georg Knoll, Pastor Oswald Herse, Rudolf Danm, pastor Guilherme Rau, Wolfgang Ammon, Ernesto Niemeyer, Clemens Brandenburg, Hermann Leyfer, entre vários outros.



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