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Acervo da BN | Eu Sei Tudo: variedades para a família

08 nov 2020

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Almanaques, Eu Sei Tudo, Literatura Brasileira, Magazines, Periódicos Ilustrados, Primeira Guerra Mundial, Revistas Ilustradas, Secult, Segunda Guerra Mundial

Periódicos tratando das idas e vindas da sempre problemática política nacional. Quando não de crimes que assolam as grandes capitais e das mazelas do mundo em geral. Ou abordando isso tudo e muito mais. Neles, volta e meia marca presença o indefectível artigo de opinião polêmico, que faz a alegria de muitos e atiça a raiva de outros tantos, gerando em seguida uma réplica furiosa, que por sua vez abre alas a uma tréplica desbocada. Jornais e revistas assim abundam. Mas hoje não estaremos focando nada do tipo: muito pelo contrário. Um gênero de imprensa que sempre esteve em voga no mercado editorial do Brasil – e do mundo – foi o de periódicos amenos, que não queriam encrenca. Estudá-los hoje não deixa de ser importante: grandes almanaques de variedades, contendo certo tipo de literatura em prosa e poesia, curiosidades científicas, anedotas, serviços, estatísticas e informações úteis ao comércio e à lavoura, dicas de economia doméstica e passatempos para as crianças, entre diversas outras coisas, dizem muito a respeito da construção das disposições sociais, dos gostos, dos hábitos de consumo e das formas de pensar e de ver o mundo do público leitor de antanho. O mesmo pode ser dito a respeito de certa imprensa literária: aquela voltada para toda a família, longe de ofender a leitores sensíveis ao apresentar grandes e escandalosas questões morais, pouco interessada em polêmicas estéticas. A literatura foi muito utilizada nesse sentido, sobretudo quanto à constituição de uma estética ao gosto da sociedade estabelecida. Nesse sentido, folheemos hoje alguns exemplares de Eu Sei Tudo. Nome um pouco pretensioso para uma revista, não? Bom, quem a lesse perigava saber de tudo um pouco, mesmo.

Eu Sei Tudo foi um periódico mensal ilustrado lançado no Rio de Janeiro (RJ) em junho de 1917. Era propriedade da Companhia Editora Americana, gerida por Arthur Brandão, a mesma casa editora que publicava a Revista da Semana e, depois, A Scena Muda. Editado como grande almanaque, formato que, copiado da imprensa internacional, fez sucesso no mercado editorial brasileiro da época, Eu Sei Tudo lançou seu nº 1 com 150 páginas, nas dimensões 26,5 x 17,5 cm, encadernado em brochura e impresso em papel de boa qualidade. Seu preço de capa era de 2 mil réis. Algumas de suas páginas, em especial as com ilustrações de destaque, eram multicoloridas. Como todo almanaque, a linha editorial de Eu Sei Tudo buscava dar conta de tudo um pouco, atendendo a vários públicos: masculino, feminino e infantil, para entretenimento no lar e para comerciários. Assim, a variedade temática de suas edições – que já eram extensas – possibilitou a publicação de textos científicos e reportagens sobre uma infinidade de temas, sempre muito bem ilustradas, além de versos e textos em prosa, curiosidades, cartuns de humor, ilustrações, caricaturas e desenhos de figuras importantes da política e da sociedade brasileiras, anedotas, parábolas, enigmas (com verdadeiros torneios entre leitores na seção “Quebra cabeças”), aforismos, fotografias (como fotojornalismo ou, em alguns casos, reproduções de obras de arte, como na seção “Arte – Quadros célebres”), folhetins, trechos de peças teatrais, trivias, cartas de leitores, publicidade, etc. Cada capa trazia a imagem de uma linda e exuberante mulher. Os textos de abertura de cada edição, “Chronicas”, eram verdadeiros louvores aos meses correspondentes à publicação, divertidos textos mundanos ou avaliações de temas da atualidade – como a I Guerra Mundial.

Especialmente nos primeiros momentos do almanaque, era visível um verdadeiro fascínio com as maravilhas da ciência e da tecnologia modernas, na abordagem de veículos, máquinas e façanhas como “o phonographo, o aeroplano, o radium, a telegraphia sem fio...”. De igual maneira, em Eu Sei Tudo não faltavam previsões e hipóteses científicas para o futuro tecnológico e para o destino da humanidade – incluindo o fim do mundo, a possibilidade de viagens à Lua, o derretimento das calotas polares e a possibilidade da existência de extraterrestres. Supondo que assuntos científicos, históricos e geopolíticos atraíssem apenas o público masculino, o almanaque também explorava temas relegados aos interesses do então chamado “bello sexo”. Assim, abordava deveres e posturas conjugais, amor e romance, casamentos e noivados, educação infantil, as formas de uma mulher moderna se manter bela, receitas, crochê e bordados, moda masculina e feminina, joias, utilidades domésticas, decoração e a elegância no lar, economia doméstica, entre outras coisas, normalmente enquadradas na seção “Conhecimentos úteis”. Ironicamente, em 1917 e 1918 Eu Sei Tudo chegou a abordar a inserção da mulher no mercado de trabalho e o feminismo.

Independentemente de certos assuntos serem então encarados como masculinos ou femininos, muitos dos temas abordados no periódico eram de interesse geral: medicina e saúde, astronomia e observações espaciais, biologia e microbiologia, astronomia, botânica, história, estudos sociais, geografia, geologia, literatura, lendas e mitologia, matemática, assuntos militares (apesar de denunciar os horrores das guerras, o periódico via com bons olhos o militarismo), geopolítica, guerras e conflitos armados, fotografia, cinematografia e artistas de cinematógrafo, esportes, gramática, energia elétrica, indústria e métodos de produção variados, teatro (com transcrições de peças), expedições e aventuras, questões trabalhistas, anatomia humana, antropologia, física, química, higiene, arquitetura, paisagens naturais e grandes cidades ao redor do mundo, navegação marítima, alimentação, dança, agricultura, personalidades femininas históricas, ficção científica, o fundo do mar, atualidades e excentricidades do mundo estrangeiro, divas e misses da época, a alta sociedade internacional, costumes e tradições de sociedades variadas, a opulência de cortes e nobres, esoterismo, conhecimentos de utilidade pública, religião, animais de estimação, jardinagem, horóscopo, jogos e passatempos, datas comemorativas, etc.

Ao fim de cada número do almanaque, era publicado um calendário com curiosidades e acontecimentos históricos sobre cada dia do mês correspondente à edição. Muitas curiosidades e informações científicas faziam referências diretas a invenções e experiências em solo internacional, imprimindo nas páginas de Eu Sei Tudo certo fascínio com as sociedades norte-americana e europeia. Isso era ainda reforçado pelas frequentes fotografias e textos sobre paisagens urbanas e naturais de todo o mundo, além de narrativas importadas de culturas variadas (inclusive africanas, asiáticas e latino-americanas, embora menos frequentes).

Na publicação de poemas, contos e trechos de romances, o periódico trouxe textos de (tome fôlego que a lista é grande): Orlando Teixeira, João de Deus, Belmiro Braga, E. Gonzalez Fiol, Gastão Leroux, Guy Chantepleure, Arthur B. Reeve, Grant Allen, Humberto de Campos, Augusto de Lima, Souza Viterbo, Ulysses Linz de Albuquerque, Edmond Pilon, Antonio Salles, Xavier de Carvalho, Hermann Scheffaner, J. Joseph- Renaud, H. G. Wells, Maurice Leblanc, Bocage, Adolpho Krunnacher, Charles-Henry Hirsch, Victor Margueritte, Magalhães Azeredo, Anthero de Quental, Arthur Conan Doyle, William A. Wolff, Cruz e Souza, Moreira de Vasconcellos, Margaret Cooper, André Linville, Thomas Lopes, Augustin Filon, Alberto de Oliveira, Anatole France, H. W. Hornung, Emilio de Menezes, Georges de Peyrebrune, Bulhão Pato, Henry de Bresay, André Couvreur, Victor Hugo, Raymundo Corrêa, Hildegard Hawthorne, S. P. Shiel, Max Reboul, Grazia Delledda, Stanislau Rzewnski, Ivan D’Urgel, André Smithson, José Luengo, Georges Dombre, J. Ortiz y Piñedo, Rudyard Kipling, Camille Marbo, Mauricio Lopez Roberts, H. Rider Haggard, George Casella, Marie Anne de Bovet, F. Perez Rueda, Georges Berr, Arsenio Lupin, Pedro de Repide, Horacio Van Offel, M. Diaz Barneda, Condessa Pardo Bazan, Tristan Bernard, Alfredo Marte, Germano Gomez de la Mata, René Maizeroy, Paul Bourget, François Coppée, Noelle Roger, Owen Oliver, Rodrigo Rey, Álvaro Real, Olavo Bilac, Rosita Forbes, Max Pemberten, Emma Lindsay Squier, R. L. Stevenson, Edgar Allan Poe, James Francis Dwyer, Frederick Boutet, H. Seton Merriman, Edouard de Keyser, Henrique Sieukiewiez, Pierre Villetard, Herbert Bishoff Henning, Roger Vercel, Patricia Wentworth, Anthony Armstrong, Carlton Jones, Jefferson Farjeon, Holloway Horn, Yves Pascal, Charles Dickens, Manoel de Gongora, Alice Campbell, Frank Brentano, Marie Madeleine Chantal, Agatha Christie, Herbert Adams, Vicki Baum, Margareth Linn, Henry Gréville, Antonio de Hoyo y Vinent, Anne Pollier, Hervé Bazin, entre muitos outros.

Em meados de 1918, Eu Sei Tudo passou por mudanças: na edição nº 15, de agosto daquele ano, Aureliano Machado aparecia como diretor gerente da Companhia Editora Americana, no lugar de Arthur Brandão. Até 1920, no entanto, as mudanças foram poucas em Eu Sei Tudo. Nesse período, o almanaque publicou novas seções e melhorou sua qualidade gráfica. Após o lançamento da edição nº 36, de maio de 1920, a numeração de Eu Sei Tudo reiniciou apenas nas capas: um mês depois, a edição de junho de 1920 viria como nº 1 do ano 4. No entanto, no sumário, a mesma aparecia também como nº 37.

No nº 38 (nº 2 do ano 4), de julho, foi publicada “Uma explicação a nossos leitores”, onde citava-se que a crise no mercado de papel no pós-guerra, que encareceu em demasia o produto, forçou o periódico a reduzir páginas e aumentar seu preço de capa. Para rebater a crise, logo abaixo da explicação publica-se um anúncio do “Almanach de Eu Sei Tudo”, “O mais efficaz instrumento de propaganda e reclame”, “Indispensável no lar, no estabelecimento commercial e na repartição pública”. Esse anúncio referia-se à publicação dos almanaques anuais do periódico, lançados em dezembro. Ali anunciava-se que o novo periódico teria tiragem de 100.000 exemplares, “gigantesca”.

A partir de 1926, alguns artigos e reportagens de Eu Sei Tudo começavam a aparecer assinados – antes, somente textos literários traziam os nomes de seus autores. Assim, revelavam-se nomes como Luís Gastão de Escragnolle Doria, P. Soares, Frank Crane, Felippo Melli, Paul Gruyer, L. Lenotre, Aurelio Pinheiro, Julio Marino de Carvalho, Saul de Navarro, F. Matania, Emile Schreiber, William H. Hall, Francisco Mendizabal, Felix Duquesnel, Helio Vianna, José Ricardo Neto, Tomaz de Aquino Filho, Mattos Pinto, Ferdinand Tuohy, Ezequiel Padilla, Doris M. Cochran, George Christ, George T. Renner, Graham H. Friese-Greene, José L. Colom, Vieira Fazenda, entre outros. Ainda na década de 1920, várias ilustrações de Alberto André Delpino Júnior figuraram nas páginas do almanaque.

Na edição nº 222 (nº 6 do ano 19), de novembro de 1935, Eu Sei Tudo publicou, no lugar dos contos que saíam no início de cada número, um texto de Renato de Castro homenageando o até então diretor da Companhia Editora Americana, Aureliano Machado, em virtude de seu passamento. A partir da edição seguinte, a editora passou a ter como diretora responsável Adelaide Aureliano Machado, filha do falecido, que ficou no cargo até julho de 1937. No nº 243 (nº 3 do ano 21), de agosto de 1937, seu marido, Gratuliano da Costa Brito assumiu o cargo. Durante a gestão de Gratuliano Brito o slogan do periódico se tornou mais específico, mudando para “Magazine mensal illustrado – scientifico, artistico, historico e litterario”. A adição do termo “histórico” fazia jus ao crescimento do tema na publicação, que, além de incontáveis artigos e ilustrações sobre momentos variados da história brasileira e internacional, trazia na velha coluna “Como é fácil saber tudo – Pequena Enciclopedia Popular” a “Biografia de todos os santos e personalidades históricas ou legendárias”.

Apesar das mudanças que sofrera na década de 1930, Eu Sei Tudo manteve a linha editorial da época de Aureliano Machado. No entanto, ao chegar 1940, a qualidade gráfica de boa parte de suas páginas caiu: várias páginas passaram a vir em preto-e-branco, impressas em papel de jornal, menos nobre. No início da década de 1940, com a mudança da moeda nacional, as edições avulsas passaram a custar inicialmente CR$ 2,50 na capital.

Lembrando suas edições contemporâneas à I Guerra Mundial, na década de 1940 Eu Sei Tudo abordou a II Guerra Mundial em vários aspectos. Suas capas, antes trazendo apenas imagens puras e belas moçoilas, passaram a mostrar figuras brucutus ou dramáticas, diretamente relacionadas com a guerra: porta aviões e outras embarcações, pessoas rezando, entre outras coisas. O tema era abordado sobretudo em uma seção nova, de atualidades, “Olhando o mundo a sessenta dias”, com notícias gerais sucintas da guerra, publicadas com o atraso de dois meses. Durante o conflito, a linha do periódico se mostrou inicialmente neutra entre os Aliados e as potências do Eixo, deixando apenas transparecer antipatia com a União Soviética. Toda cautela era pouca, ao menos até que o Brasil se posicionasse no conflito: melhor explorar o já galopante anticomunismo. Já em 1943, o almanaque se mostrava tendencioso aos Aliados, apresentando, em sua linha editorial internacional, valores democráticos americanos e ingleses mesmo em matérias mais amenas – após a guerra, diversos artigos dariam conta da política, da sociedade e de personalidades destes dois países. Reportagens que tocavam diretamente nos conflitos, aparentemente, eram reproduzidas da imprensa americana. Apenas no fim da guerra, o discurso antinazista do almanaque seria explícito: em julho de 1945 foi publicada a sugestiva matéria “Goering doente mental”, que iniciava pouco sutil: “O Goering de que vamos falar não é o miserável destroço, lamuriento e sem a menor compostura, que se deixa fotografar tendo os olhos súplices e cheios de lágrimas, enquanto comprime um lenço encharcado contra a boca soluçante”.

A Companhia Editora Americana iniciava a década de 1950 ainda com Gratuliano de Brito na direção, mas, à época, Mário Renato de Castro assinava como redator chefe de Eu Sei Tudo. Via-se ainda que em cada expediente, em 1950, o representante norte-americano do periódico passou a ser Aguiar Mendonça, e que Helena A. Lima passou a figurar como representante em Lisboa (na época, diversos artigos e reportagens eram dedicados à cultura e às paragens portuguesas). A partir do nº 394 (nº 10 do ano 33), de março de 1950, abaixo do nome de Gratuliano Brito como diretor presidente da Cia. Editora Americana, R. Peixoto de Alencar passou a aparecer como diretor- secretário. No entanto, em 1951 seu nome não aparecia mais no expediente.

Com o passar do tempo, o almanaque havia se mantido fiel à sua linha editorial variada, com ênfases em ciências, literatura, história, entretenimento, cidades brasileiras e estrangeiras e variedades “para toda a família”, em diagramação que pouco evoluía. No entanto, mesmo no sumário de cada edição já não se fazia mais divisões entre páginas de “Curiosidades”, “Conhecimentos úteis”, arte, abordagens científicas, crônicas e contos. No início da década de 1950 eram publicadas apenas novas seções, sobre filatelia, a cultura de produtos de origem rural, novas invenções e excentricidades mundo afora. O noticiário de atualidades, na seção “Memento de Eu Sei Tudo”, continuava sendo publicado, assim como a antiga seção “Nos domínios da gramática”, a “Pequena Enciclopédia Popular”; e a página de passatempos e enigmas “Quebra Cabeças”. Em meados da década, uma nova seção de receitas foi criada com o nome de “Conselhos de uma quituteira”, assinada por Graciela Elizalde. Na época, eram ainda publicados artigos em séries, como “A vida do Cristo relatada por São Lucas”, “Explorando o Brasil meridional” ou “Re-descobrindo a América”. Por algum tempo, na forma de uma dessas séries, o periódico continuou publicando material que fazia eco à II Guerra, como reportagens sobre a polêmica “Hitler está vivo? – Sensacionais revelações”, no nº 410 (nº 2 do ano 35), de julho de 1951, e o medo da ameaça atômica, reflexo da Guerra Fria na publicação, em “Como virá a MORTE atômica?”, no nº 455 (nº 11 do ano 38), de abril de 1955.

Em 1951, quando seu exemplar avulso passou de Cr$ 4,00 para Cr$ 5,00, Eu Sei Tudo começou a circular em formato menor, medindo 22,5 x 16 cm. Em paralelo, o almanaque sofreu uma sensível reforma visual e voltou a ter algumas páginas em papel nobre, mas ainda assim sem a qualidade de outrora. Aos poucos, a diagramação e o uso de cores do periódico iam melhorando – a ponto de apresentarem verdadeiro avanço em 1955. Tempos depois, as edições passariam a trazer algumas chamadas nas capas, que até então seguiam com apenas ilustrações.

Na edição nº 455 (nº 11 do ano 38), de abril de 1955, Eu Sei Tudo se mostrou prestes a uma nova reformulação. Logo na primeira página deste número, lançou o questionamento “Que acha o leitor?”, com uma enquete para “o que gostariam de ver alterado, aumentado ou simplesmente cortado”. Ali, perguntava-se se o leitor gostaria se continuassem “sendo publicados dois romances, com oito páginas cada um, ou apenas um romance, com 16 páginas”, além de “quatro ou cinco” contos por edição, “ou em número muito menor, porém com histórias mais desenvolvidas”. Perguntava-se ainda quais destes textos literários despertavam maior interesse: de autores nacionais ou internacionais, de amor, de aventuras, policiais, fantasiosos, alegres ou trágicos. No campo das reportagens e artigos científicos, o leitor era questionado quanto aos temas de maior preferência, citando como opções “Astronomia, Medicina, Matemática, Geografia, Cirurgia, Hipóteses audaciosas, Viagens, Arqueologia, Astrologia, etc.”. Nas edições seguintes, assuntos ligados à saúde e ao corpo humano – como tratamentos e procedimentos médicos, doenças, mistérios da mente humana, aparelhagem médica, anatomia, pesquisas e etc. – pareceram aumentar, havendo inclusive, tempos depois, uma nova coluna regular sobre o tema, “Os progressos da medicina”. No mais, páginas de história, viagens, literatura e “o prodigioso mundo de amanhã” não perderam seu espaço. Seguindo nos mesmos moldes de 1955, em 1958 o almanaque já saía com o preço de capa de Cr$ 15,00 – as assinaturas nacionais custavam Cr$ 250,00 e as estrangeiras Cr$ 350,00. Tendo voltado à impressão em papel de baixa qualidade, uma quantidade moderada de páginas era colorida.

Salvo algumas exceções, Eu Sei Tudo não apresentou grandes mudanças e evoluções em sua trajetória. A última edição de Eu Sei Tudo consultada nesta pesquisa foi o nº 499 (nº 7 do ano 42), de dezembro de 1958. Ali, o periódico aparentava já ter possuído melhores momentos, mas nada indica ser esta sua última edição. Sabe-se, no entanto, que em meados da década de 1950 a Cia. Editora Americana entrou em franca decadência, com a revista A Cena Muda sendo o primeiro periódico da mesma a deixar de circular. Mesmo a Revista da Semana, principal publicação da editora, deixou de circular em 1959, num processo de falência creditado (embora não exclusivamente) à administração de Gratuliano da Costa Brito, que, dirigindo a Cia. Editora Americana sem ser do ramo, sofria ao enquadrar a mesma em novos valores de mercado editorial: basicamente, tinha dificuldades em atender a atualizações necessárias no parque gráfico da empresa. Pelo menos o Almanaque Eu Sei Tudo continuou sendo editado ao menos até 1960 – tendo ali trabalhado como repórter, de 1958 a 1960, Ignácio Aureliano Machado Brito, filho do diretor Gratuliano Brito com Adelaide Machado Brito, ex-diretora da Editora Americana. De 1950 a 1958 foram publicados em Eu Sei Tudo artigos e reportagens de Ignez Mariz, A. Vieira da Silva, Mattos Pinto, José Louzeiro, Antonio Ferrari, Leopoldo Massieira, Mário Reis, Lester David, E. C. Bullard, F. Taylor, Peggy Mann, P. H. Newby, David Thurlow, Barbara Bingley, Rose Marie Hodgson, Hans Pettersson, James N. Miller, K. R. Batten, M. Silverman, Grant Hubley, G. Lenotre, William Haeley Atwell, Samuel Hopkins Adams, Hodding Carter, Anny Selwin, Charles V. Nemo, P. A. Sheppard, Roger Waisbard, Richard Carrington, entre outros, na maioria repórteres, acadêmicos e escritores traduzidos de publicações internacionais – algo que acontecia também com os quadrinhos humorísticos publicados na época.

Hoje, nos tempos da internet, a leitura de um almanaque como Eu Sei Tudo pode parecer uma atitude jurássica. Mas cabe refletir: era através de publicações assim que boa parte do público leitor brasileiro – independentemente de idade e gênero – moldava a sua visão de mundo.

Explore os documentos:

http://memoria.bn.br/DocReader/164380/1

http://memoria.bn.br/DocReader/329754/1



Primeiro número do “Magazine mensal ilustrado” “Eu sei tudo”.