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Acervo da BN | Realidade: a mãe das atuais revistas jornalísticas no Brasil

09 abr 2021

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Anos 1960, Novo Jornalismo, Política, Realidade, Regime Militar, Revistas Brasileiras

Época, Veja, IstoÉ, Piauí, Carta Capital. Nomes para lá de conhecidos no mercado editorial jornalístico brasileiro: se bobear, os leitores deste texto também o são de alguma dessas revistas. Lançadas com periodicidade mensal ou semanal, sempre tentando tocar nos assuntos em alta do momento nacional, tais publicações tiveram, mais ou menos diretamente, uma mãe, já finada. Ela se chamava, simplesmente, Realidade. Um marco modernizador no jornalismo brasileiro. Revista mensal de circulação nacional lançada pela Editora Abril, então dirigida por Vítor Civita, em abril de 1966, em São Paulo, foi considerada revolucionária para o jornalismo brasileiro quando de seu lançamento. Abordou criticamente, sobretudo em sua primeira fase, que foi até fins de 1968, temas polêmicos com relação à política e ao comportamento, algo que acabou ocasionando problemas com a censura, e, consequentemente, enfraquecimento de sua linha editorial original, até deixar de ser publicada após o lançamento de sua edição nº 120, de março de 1976. O trunfo de Realidade foi sua inspiração no chamado “novo jornalismo”, ou “jornalismo literário” norte-americano, sucesso em publicações periódicas como The New Yorker, através de autores como Norman Mailer, Tom Wolfe e Truman Capote. Assim, publicava algo até então inédito por estas bandas: grandes reportagens, com amplo destaque de fotografias e ilustrações, em sofisticados padrões estéticos que relacionavam textos com imagens. Nas páginas de Realidade também era visível a valorização da cobertura jornalística in loco, com a presença de repórteres nos locais dos acontecimentos.

Assim que foi lançada, Realidade lançou reportagens sobre a Revolução Cultural chinesa, os anseios da juventude brasileira, a ditadura haitiana encabeçada por François Duvalier, a participação brasileira na ocupação da República Dominicana em 1965, etc., destacando ainda entrevistas com figuras políticas então exiladas: João Goulart, Leonel Brizola, Adhemar de Barros, Celso Furtado, entre outros. Muito por isso, Realidade, desde cedo, passou desfilar pelo radar da censura oficial. No entanto, curiosamente, foi devido a reportagens enquadradas na temática do comportamento que se deu a apreensão da edição nº 10 da revista, de janeiro de 1967: na ocasião, tratando-se de uma edição especial sobre a mulher da atualidade, que trazia entrevistas com mães solteiras, dados estatísticos com relação ao aborto, opiniões a respeito da virgindade e, sobretudo, fotografias de um parto então consideradas chocantes. Os juizados de Menores da Guanabara e de São Paulo não deram mole: determinaram a apreensão dos exemplares publicados (dos 475 mil veiculados, cerca de duzentos mil chegaram aos leitores).

Depois desse primeiro embate com a censura, ao longo de 1968 a revista voltou a desafiar o governo, em diversos tópicos: publicou trechos dos diários de Che Guevara, questionou o celibato na Igreja Católica e deu voz, em entrevistas, a guerrilheiros do Vietnã do Norte, a lideranças políticas que defendiam o fim do governo militar, a integrantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), etc. Foi nesse ano em que uma reportagem de Hamílton Ribeiro sobre a guerra do Vietnã trazia na capa da edição a foto do próprio repórter sendo socorrido após a explosão de uma mina, ocasionando a amputação de sua perna esquerda – acabou entrando para os anais do jornalismo nacional. Já em dezembro, Paulo Patarra entrevistava exclusivamente Luís Carlos Prestes, dirigente do então ilegal Partido Comunista Brasileiro (PCB), descrevendo na reportagem as regras de segurança a que foi submetido para que se mantivesse secreto o local do esconderijo do líder. Tais afrontas gerariam indisposição da publicação com o regime militar, e novos episódios de censura ocorreriam, sobretudo após a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968, que amenizou consideravelmente a linha editorial da revista. Afinal, depois desse ponto, a Realidade jamais voltaria a ser a mesma.

Segundo Bernardo Kucinski, em “Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa”, a experiência vivida nessa primeira fase de Realidade influenciou inúmeras publicações da chamada “imprensa alternativa”, periódicos independentes de resistência ao regime militar, não pertencentes ao grupo comumente denominado como “grande imprensa”. Citando trecho de depoimento de J. A. Granville Ponce, o autor destaca tanto a participação de membros da redação de Realidade em células políticas de resistência, notadamente as do grupo Ação Popular (AP), quanto o ambiente nas reuniões editoriais:

Criada em 1966, em plena revolução da sexualidade e introdução da pílula anticoncepcional, e dirigida por Paulo Patarra, Realidade fazia sucesso com um jornalismo baseado na reportagem social, na discussão crítica da moral e dos costumes, mostrando um Brasil real, em profundas transformações. Era também um jornalismo com ambições estéticas, inspirado no new-journalism, o movimento de rebelião estilística dos jornalistas norte-americanos contra a camisa de força da narrativa telegráfica, que introduziu a reportagem jornalística de valor literário, baseada na vivência direta do repórter com a realidade que se propunha a retratar. (...) Vendia tiragens crescentes que chegaram a 400 mil exemplares. Apesar de pertencer ao grupo empresarial Editora Abril, Realidade já funcionava internamente como redação alternativa. Não só seus principais jornalistas eram membros de células políticas, como “na redação discutiam em pé de igualdade com a direção da revista, impondo seus pontos de vista; as divergências eram sempre de fundo, mas a equipe tinha competência para defender sua posição. O grupo todo tinha a mesma posição editorial, as reuniões em que se definiam os rumos da revista tinham um espírito democrático e uma grande preocupação política, não no sentido partidário, mas no sentido das palavras que empolgavam a juventude da época, debate e democracia”. (p. 36)

Ao passo em que o periódico ia sofrendo pressões da própria Editora Abril para que amenizasse seu conteúdo, já no início de 1968, antes do AI-5, o grupo de jornalistas vistos como politicamente mais combativos na equipe (sobretudo os mais próximos ao grupo Ação Popular), entre os quais Roberto Freire, Eduardo Barreto, Paulo Patarra, Narciso Kalili e Sérgio de Souza, havia abandonado a redação da revista. Em seguida, novamente citando Granville Ponce, Kucinski expõe que “Na mesma semana do AI-5, Alessandro Porro, a pretexto de uma divergência editorial, obtém a demissão de dirigentes da Realidade”. A publicação então “deixava de ser a estrela da Abril. Precisava morrer por causa da Veja, que era o grande investimento da empresa” (p. 73).

Iniciada a segunda fase de Realidade, já no início de 1969 os diretores Paulo Mendonça e Mílton Coelho da Graça (substitutos de Sérgio de Sousa e Paulo Patarra) colocaram em prática um plano de modificações tanto na equipe quanto no conteúdo e nos temas do mensário. Grande destaque começou a ser dado a reportagens de teor comportamental, mas não da maneira anterior, ligada à franca crítica de costumes: nesse momento, enfocavam-se temas ligados à saúde e à medicina, com inúmeras curiosidades científicas. No tocante à política, iniciativas governamentais brasileiras começaram a receber atenção, ao passo em que as entrevistas passaram a dar voz a autoridades do regime em vigor. Nessa fase, Realidade começou a se valer de sucessivas divulgações de pesquisas de opinião. Nas palavras de Dimas Sales Pereira Júnior, em verbete sobre a revista no “Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930”,

Em novembro e dezembro de 1969 foram publicadas as expectativas da revista sobre o então futuro presidente da República, general Emílio Garrastazu Médici. A revista publicou vários dados da biografia do presidente que revelavam a sua capacidade de liderança, não economizando em adjetivos: “bom menino”, “bom moço”, “bom conspirador”, “bom militar”, “bom revolucionário”, “bom pai” e “bom amigo”. Poesias também foram publicadas para homenagear o futuro presidente. (p. 4.911)

Iniciada a nova linha editorial, a tiragem de Realidade caía vertiginosamente. Ainda conforme Dimas Sales,

(...) dos 475 mil exemplares vendidos em setembro de 1966, começou o ano de 1969 com 435 mil, caindo para 365 mil em agosto do mesmo ano. Em outubro, Realidade parou de publicar sua tiragem e passou a dedicar-se a grandes reportagens sobre o Brasil. A primeira delas foi um número especial, com 330 páginas, publicado em julho de 1970, sobre a situação econômica e as perspectivas de crescimento do país. Outras edições seguiram esse mesmo tipo de estratégia, surgindo então grandes reportagens sobre as metrópoles brasileiras, o Pantanal, a Amazônia, o Nordeste, entre outras que envolviam toda a equipe de jornalistas da revista, tanto nas pesquisas quanto na redação das reportagens. (p. 4.911)

No mês de agosto de 1970 novas modificações, propostas por Paulo Mendonça, se deram na revista. Num processo de atualização, Realidade tornou-se mais ilustrada, seus textos passaram a vir mais curtos e, em consequência, suas reportagens começaram a aparecer em maior número, ainda com foco principal em temas relativos aos costumes, mas também abordando modas e serviços. Curiosamente – talvez por necessidade de conquista de mais leitores – reportagens focando questões mais polêmicas voltaram a aparecer na publicação, envolvendo tanto a Igreja quanto temas caros à esquerda, como a situação de risco social dos trabalhadores que ganhavam o salário mínimo no Brasil e o pensamento de personalidades que se opunham aos militares, que voltavam a ser entrevistadas pela revista: caso do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. O mensário continuou nesses moldes até setembro de 1973, quando anunciou que seu projeto jornalístico original acabava ali, para o nascimento de uma “nova” Realidade, então sob direção de Ulisses Alves de Sousa.

Nessa terceira e última fase, Realidade passou a vir em formato um pouco menor. Seus textos também diminuíram, ficando ainda mais diversificados. Algumas de suas reportagens se aproximavam “de certos guias para o dia-a-dia ou manuais de auto-ajuda”, conforme explanação de Dimas Sales (p. 4.911), embora sempre na perspectiva da classe média. Basicamente, Realidade dava sugestões ao leitor sobre como “vencer na vida” (literalmente o tema principal da edição nº 92, de novembro de 1973). A publicação preocupava-se em mostrar como manter uma empregada doméstica da forma mais eficiente, como passar no vestibular, como lograr na busca por uma bolsa de estudos fora do Brasil e, na contramão do discurso quanto ao chamado “milagre econômico”, como se proteger da inflação. Nessa toada, em janeiro de 1976, na sua 118ª edição, Realidade previa com pessimismo a realidade econômica brasileira e mundial, fornecendo dicas de como tentar passar pela crise. Ironicamente, a revista não parece ter sido imune à turbulência financeira que alertava. Foi extinta duas edições depois, após o lançamento de seu nº 120, de março daquele ano, sendo Fernando Pereira Guimarães seu último diretor responsável. Para muitos leitores, deixou saudades.



Capa da revista Realidade.