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História do Livro | A Impressão Régia do Rio de Janeiro

22 dez 2020

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Ao longo de todo o período que antecedeu a chegada da família real, a impressão de livros e jornais foi proibida no Brasil. A tentativa de estabelecer uma tipografia, feita na década de 1840 por António Isidoro da Fonseca, resultou em quatro folhetos, a oficina desmontada e seu proprietário enviado de volta a Lisboa. Todo o material que circulava no Brasil era importado e devia se limitar às obras autorizadas pelo governo sediado na metrópole.

Ao mesmo tempo, em Portugal faziam-se sentir os ecos do Iluminismo, pelo menos no que se refere ao ideal de propagação do conhecimento e do desenvolvimento científico. Destaca-se, aqui, o nome do diplomata português Rodrigo de Sousa Coutinho, o conde de Linhares (1755 – 1812), principal articulador da política de conhecimento e exploração das colônias ultramarinas, em especial o Brasil, onde aliás passaria seus últimos anos. Segundo Nívia Pombo Cirne dos Santos, da UFF, Linhares foi um grande entusiasta das “viagens filosóficas”, que visavam a obter informações sobre a administração e os recursos naturais das colônias. Os objetivos eram práticos, utilitários, mas, no fim, as expedições resultaram em ganhos reais para a ciência.

O pesquisador da PUC-Rio Sérgio Hamilton da Silva Barra afirma que o estabelecimento de uma tipografia que assumisse o papel de difusora do conhecimento científico fazia parte dos planos de Sousa Coutinho para incentivar o uso de novos produtos e modernizar as técnicas agrícolas. Para isso fundou a Oficina Tipográfica do Arco do Cego, sediada em Lisboa e ativa entre 1799 e 1801 sob a direção de um brasileiro: o frade franciscano, e naturalista, José Mariano da Conceição Veloso (1741 – 1811). Muitas obras ali impressas diziam respeito ao Brasil, e muitos exemplares, assim como matrizes de gravuras, se encontram na Biblioteca Nacional.

Saiba um pouco mais sobre a Tipografia do Arco do Cego no artigo da Prof. Lorelai Kury, publicado na BN Digital.

Em 1801, Sousa Coutinho fez extinguir a Tipografia do Arco do Cego. Seus trabalhos e funcionários foram, porém, transferidos para a Impressão Régia de Lisboa, subordinada ao Erário Régio, que Linhares tinha passado a administrar. Assim, segundo Sérgio Barra, o conde se assegurava de continuar à frente do projeto de “ilustração” – termo utilizado para se referir ao conhecimento obtido por meio do estudo, para o que os livros eram fundamentais.

Os planos de transferir a sede do governo para o Brasil vinham sendo considerados desde a época da restauração portuguesa, no século XVII, e eram apoiados por Linhares. Quando, finalmente, se concretizaram, a instalação de uma tipografia oficial no Rio de Janeiro se impôs como condição essencial para dar continuidade ao projeto de construção de um “novo império”. Assim, por decreto de 13 de maio de 1808, estabeleceu-se a Impressão Régia brasileira, que princípio era subordinada à Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, então a cargo de Rodrigo de Sousa Coutinho. Os tipos e prelos utilizados foram trazidos por outro entusiasta das ciências e das artes, Antônio de Araújo e Azevedo (1754 – 1817), que mais tarde se tornaria conde da Barca e em cuja residência se instalou a Impressão Régia.

Nos primeiros tempos, Frei Veloso ficou à frente do trabalho de tipografia, auxiliado por dois gravadores que tinham trabalhado com ele em Portugal. Uma Junta de Direção, estabelecida em junho, administrava o órgão, encarregando-se inclusive de exercer a censura régia contra as obras que criticassem a Igreja e o governo, ou ainda atentassem contra a moral da época. Isso porque, além de toda a legislação, decretos, papéis diplomáticos – enfim, tudo que fosse produzido pelas repartições administrativas –, a Impressão Régia também imprimia obras apresentadas por particulares.

A primeira publicação, datada do mesmo dia em que foi criada a Impressão Régia, foi “Relação dos Despachos Publicados na Corte pelo expediente da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra”. A Divisão de Obras Raras possui um exemplar, que pode ser acessado pelo link da BN Digital.

Já nos primeiros anos foi grande a demanda de trabalho. A aquisição de novos prelos e a instalação da primeira fábrica de papel em território brasileiro, fundada entre 1809 e 1810 por Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva, vieram dar novo fôlego à Impressão Régia, e um decreto de 1811 incorporou às suas funções a impressão das cartas de jogar. Além das publicações oficiais, cerca de mil títulos foram impressos entre 1808 e 1822, com assuntos variados: obras científicas, livros literários, tratados de História, Direito e Teologia, compêndios para as Escolas de Medicina criadas em 1808 em Salvador e no Rio de Janeiro e também para a Academia Real Militar, criada em 1810.

Também na Impressão Régia foi publicado o primeiro periódico brasileiro, a “Gazeta do Rio de Janeiro”, cujo número inaugural saiu em 10 de setembro de 1810. Outros viriam, como o primeiro jornal ilustrado do Brasil, “O Patriota”, de 1813. Todos eram favoráveis ao governo; os jornais de oposição ou que continham críticas eram publicados fora do país, tais como o famoso “Correio Braziliense”, de Hipólito José da Costa, que circulou entre 1808 e 1822 e era editado em Londres.

Veja a “Gazeta do Rio de Janeiro” na Hemeroteca Digital

Com o passar dos anos, a Impressão Régia sofreu várias reformas administrativas e mudou muitas vezes de nome. Em 1821 passou a se chamar Tipografia Nacional, e outras denominações viriam até chegar à atual: Imprensa Nacional, como é chamada desde 1885. Bem antes disso, porém, já tinha deixado de ser a única tipografia brasileira: desde a iniciativa de Antônio da Silva Serva, que em 1811 abriu a primeira oficina em Salvador, impressores e editores particulares aqui se instalaram, assim como muitos livreiros. Isso fez circular um volume cada vez maior de livros e periódicos ao longo do século XIX, contribuindo para um relativo aumento da cultura letrada no país.



Primeira página da Gazeta do Rio de Janeiro, setembro de 1808.