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História do Livro | O Comércio Livreiro na São Paulo no século XIX

18 abr 2021

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A primeira tipografia de São Paulo surgiu por iniciativa do advogado José da Costa Carvalho, mais tarde Marquês de Monte Alegre. Em 1827, ele adquiriu um prelo e contratou um tipógrafo espanhol, José Maria Roa, a fim de produzir “O Farol Paulistano”, primeiro jornal editado na província.

No início de 1828, teve lugar um acontecimento que iria movimentar a vida cultural e intelectual de São Paulo. Num país onde os estudos superiores eram incipientes, a cidade foi escolhida para sediar uma das duas primeiras Faculdades de Direito – a outra foi instalada em Olinda, Pernambuco --, e, embora não tenham sido muitos os estudantes a se formar nos primeiros anos, logo foi aberta uma livraria para atender a suas necessidades. Também publicações esparsas saíram do prelo nas décadas de 1830 a 1850, tanto em São Paulo como em outras cidades da província, entre as quais Santos e Campinas.

A Faculdade de Direito de São Paulo em fotografia de Jean Georges Renouleau, ca. 1880, acervo de Iconografia.

Segundo o pesquisador Laurence Hallewell, em 1855 havia seiscentos estudantes matriculados na Escola de Direito de São Paulo. Eram atendidos por três livrarias, uma das quais, a de Fernandes de Souza, trabalhava apenas com publicações da área jurídica. Também havia três gráficas, número que subiu no início da década de 1860. E foi nesse ano que o livreiro e editor francês Baptiste-Louis Garnier, já então estabelecido no Rio de Janeiro, decidiu abrir uma filial em São Paulo, atento à recepção que os livros franceses podiam ter naquela cidade.

O escolhido para administrá-la foi um parisiense que viera para o Brasil aos 17 anos, Anatole-Louis Garraux (1833 – 1904), e que pouco tempo ficaria à frente da Garnier paulista. Já em 1863 ele abriu sua própria livraria, em sociedade com Raphael Suárez e Guelfe de Lailhacar: a Livraria Acadêmica, situada no Largo da Sé, mais tarde conhecida como Casa Garraux. Tal como muitos livreiros da época, sua loja oferecia uma variedade de artigos de luxo: caixas de joias, vinhos, charutos, tinteiros, papel de carta. Segundo Almeida Nogueira em “A academia de São Paulo”, foi Garraux que popularizou no Brasil o uso do envelope, pois até então as cartas eram fechadas dobrando-se as folhas de papel e aplicando o lacre ou selo na junção.

Apesar da diversificação dos itens, o forte da Casa Garraux eram de fato os livros, dos quais, contudo, o francês chegou a imprimir muito poucos; ele era, principalmente, revendedor de obras de todos os gêneros, nacionais e estrangeiras, anunciadas em grossos catálogos atualizados de tempos em tempos. Para manter seu estoque, elogiado por muitos viajantes como o melhor do país, e para fazer seus livros circularem entre a Europa e o Brasil, bem como distribui-los pelas províncias, valia-se das ligações entre os portos da costa brasileira e mantinha uma rede eficiente de comércio que incluía uma base em Recife – vizinha à outra Faculdade de Direito e onde seu sócio, Lailhacar, também tinha uma livraria -- e outra em Paris, onde estava o terceiro sócio, Raphael Suárez.

Em 1872 a Casa Garraux se mudou para a Rua da Imperatriz, antiga Rua do Rosário, e passou a ser ponto de encontro de fazendeiros de café, cultura que vinha enriquecendo a província. Em 1876 passou às mãos de outros proprietários, porém conservou seu nome, já consolidado no mercado, e assim funcionou até 1930, quando fechou as portas. Seu fundador falecera em 1904, em Paris, para onde havia retornado na década de 1890. Lá fez publicar um catálogo de livros sobre o Brasil, que o identifica como ex-livreiro em São Paulo e que parece, sobretudo, destinar-se a fazer uma homenagem ao país onde Garraux vivera por décadas.

Veja o catálogo, publicado em 1898, que integra o acervo da Divisão de Obras Raras.

Além de Garraux, vários outros livreiros atuaram em São Paulo no século XIX. Entre os mais destacados encontram-se os irmãos portugueses António Maria e José Joaquim Teixeira, fundadores, em 1876, da Livraria Teixeira, mais tarde editora, que publicou o primeiro livro de Olavo Bilac (“Poesias”, 1888) e, no mesmo ano, “A Carne”, de Júlio Ribeiro, ambos impressos em Portugal. Também se podem citar o francês Gazeau, que abriu o primeiro “sebo” da cidade em 1893 -- o qual chegou a ter 100.000 volumes e só fecharia as portas em 1981 --, e o engenheiro Alcebíades Bertolotti, fundador da Livraria Italiana em 1894, quando muitos imigrantes dessa nacionalidade chegavam a São Paulo. Bertolotti foi o editor do jornal “Il Messaggero”, publicado entre 1891 e 1892 e voltado para a comunidade italiana, embora com alguns artigos e anúncios em português.

Conheça o periódico na Hemeroteca Digital.

Impulsionada pelo “boom” do mercado cafeeiro, e com a população aumentada pela chegada de estrangeiros e de migrantes do Nordeste do Brasil, São Paulo, na virada do século XIX para o XX, já via sua indústria se desenvolver. Entre os novos setores estava o do papel, de que já havia fábricas no estado, em Salto do Itu e Osasco. Em 1890 foi fundada a Companhia Melhoramentos, pioneira, segundo Hallewell, no uso de madeira brasileira para produção de polpa de papel. Em 1920, a empresa se associaria à Editora Weiszflog Irmãos, e nesse mesmo ano Monteiro Lobato publicou seu primeiro livro ambientado no Sítio do Picapau Amarelo, cuja distribuição e difusão marcaram o início de uma nova fase para a história editorial brasileira.



Primeira página da primeira edição de “Il Messaggero”, jornal editado em São Paulo e destinado à comunidade italiana (1891).