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História do Livro | Primeiras Tipografias Particulares no Brasil

30 jan 2021

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Os primeiros anos após o estabelecimento da família real portuguesa no Brasil viram crescer rapidamente o comércio livreiro. O surgimento de novas tipografias, porém, ocorreu de forma mais lenta, limitado, entre outros fatores, pela necessidade de adquirir e transportar maquinário desde a Europa e contratar trabalhadores especializados. Até o treinamento de aprendizes era demorado e demandava muitos gastos, razão pela qual Manuel da Silva Serva, dono da primeira tipografia particular do Brasil -- fundada em 1811, em Salvador –, encaminhou uma petição em que solicitava a dispensa do serviço militar para seus empregados.

Veja a petição, digitalizada a partir do microfilme. O original integra o acervo da Divisão de Manuscritos.

Em 1816, concedeu-se licença ao comerciante Ricardo Fernandes Castanho para que montasse uma oficina em Pernambuco. As máquinas, contudo, ficaram paradas em seu armazém durante meses, por falta de quem soubesse operá-las; e só em março de 1817, ao eclodir a revolução pernambucana, os prelos se puseram em movimento pelas mãos do tipógrafo inglês James Pinches e de auxiliares improvisados. Neles se imprimiu o folheto intitulado “Preciso dos sucessos que tiveram lugar em Pernambuco...”, o primeiro a contestar a autoridade da Coroa e a dar conta dos acontecimentos da revolução. Pouco depois, a tipografia passou a se chamar “Oficina Tipográfica da 2ª. Restauração de Pernambuco” (segundo o professor da UFPE Flávio José Gomes Cabral, a primeira restauração teria ocorrido com o fim do domínio holandês) e, já sem a colaboração de Pinches, imprimiu outros folhetos e avisos.

Conheça o “Preciso”, do qual não consta a indicação da oficina. Trata-se de um impresso, mas integra um dossiê de documentos sobre a Revolução de Pernambuco que se encontra na Divisão de Manuscritos.

Sufocada a revolução, o governo cassou o alvará de funcionamento da oficina, devido ao “infame abuso” que dela se fez, e ordenou que todo o material fosse enviado ao Rio de Janeiro. No entanto, só uma parte acabou por ser despachada; o que ficou foi acrescido de um prelo de madeira e utilizado pelo governador Luiz do Rego Barreto para imprimir algumas proclamações e outros papéis, bem como o primeiro jornal de Pernambuco, o Aurora Pernambucana (1921).

Em agosto de 1821 teve fim a censura oficial, com o que o Brasil passou a ter liberdade de imprensa. Esse foi mais um fator que incentivou o surgimento de oficinas tipográficas, muitas das quais, segundo Rubens Borba de Moraes, foram “fundadas com mais entusiasmo do que capital, para defender os novos ideais constitucionais e a Independência, e produziram uma quantidade de gazetas efêmeras, hinos patrióticos, proclamações, discursos, cartas e folhetos políticos”.

Entre as várias iniciativas verificadas nas províncias, em 1821 foi fundada a primeira tipografia do Maranhão; em 1822, já circulavam os primeiros jornais do Pará e de Minas Gerais; em 1924, a primeira tipografia cearense foi inaugurada com um prelo vindo do Recife. Já o Rio Grande do Sul só teria produção tipográfica a partir de 1827, assim como São Paulo, onde, segundo pequisadores da FAPESP, membros do governo da província vinham pedindo a instalação de uma oficina desde 1823, na qual fariam publicar e divulgariam suas leis e atos oficiais. A solicitação, porém, nunca foi atendida – e assim o advogado José da Costa Carvalho, marquês de Monte Alegre, decidiu adquirir na Inglaterra um prelo tipográfico, com o qual imprimiu o primeiro periódico naquela província, o “Farol Paulistano”.

Conheça, na Hemeroteca Digital, o “Farol Paulistano”, cujo primeiro número estampava, em francês: “A liberdade é uma bigorna que gastará todos os martelos”.

Enquanto isso, na Corte, o movimento era ainda maior. Aníbal Bragança, professor da UFF, relata que entre 1821 e 1836 surgiram no Rio de Janeiro pelo menos dez tipografias, várias das quais filiais de casas estabelecidas em Portugal e na França. Nelas se publicaram impressos de todo tipo, incluindo periódicos como o monarquista “O Espectador Brasileiro”, de Pierre René François Plancher – mais tarde editor do “Jornal do Commercio”, fundado em 1827 –, e “Aurora Fluminense”, do mesmo ano, cujo redator, Evaristo da Veiga, foi o autor da letra do “Hino à Independência”.

Conheça o “Almanaque dos Negociantes do Brasil”, publicado por Plancher, que, após ser inocentado da acusação de ser um falsário, tornou-se amigo de D. Pedro I e obteve permissão de usar o título de “impressor imperial”.



Detalhe da primeira página do Almanaque dos Negociantes do Brasil