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Intelectuais Brasileiros | Gustavo Corção, onde tudo é amor

28 set 2020

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Foi Nelson Rodrigues quem disse, em “O Óbvio Ululante” (1968): “Tudo em Corção é amor”. Explicava o cronista que o modo como Corção batia forte nos assuntos nada mais era do que sempre amor, de um coração atormentado e puro de menino. Seus textos fazem prova disso. Como o relato autobiográfico de sua conversão religiosa, “A Descoberta do Outro” (1944), que se tornou um poderoso livro à conversão de quem o lê.

Polemista, radical, persistente e peculiarmente irreverente, Gustavo Corção é um dos mais profundos escritores brasileiros. Segundo Oswald de Andrade surgia como Machado de Assis enquanto nosso mestre no século XX, enquanto Manuel Bandeira o sugeriu ao Prêmio Nobel, depois de ter lido “O Desconcerto do Mundo” (1965).

Corção causava espécie, turvava a cabeça da intelectualidade. Pude apurar isso quando mexia nos arquivos de João Camilo de Oliveira Torres, no acervo da PUC-Minas. Nas cartas endereçadas ao discreto historiador mineiro algumas citavam os artigos e entreveros do escritor carioca, e era sempre um tom de espanto, como Washington Vita que chegou a perguntar, num ar de mistério: “como você definiria Gustavo Corção?”

Em uma palavra, católico. Nasceu em 17 de dezembro de 1876 no Rio de Janeiro, fez Engenharia na antiga Escola Politécnica, foi estudioso, inventor e professor na área da eletrônica aplicada às telecomunicações, astronomia de campo, radiocomunicações. Sobre isso já havia feito um bocado de coisas, mas fez um tanto mais na crônica jornalística e numa série de reflexões sobre o destino do mundo ocidental e da Igreja. Aliás, foi essa a sua sina, apaixonado pela teologia e pela cruz.

Corção escreveu textos marcantes de cunho religioso. Foi chestertoniano em Três alqueires e uma vaca de 1946, ao abordar o distributivismo à realidade brasileira. Num título bastante agostiniano, Dois Amores e Duas Cidades (1967) foi tomista, o sendo mais ainda em O Século do Nada (1973), talvez o livro o mais importante na sua crítica católica sobre a crise da filosofia ocidental e da Igreja.

Deixou apenas um romance, Lições do abismo, lançado em 1950, e que já naquela década ganhou diversas traduções e foi premiado pela UNESCO em 1966.

Líder no Centro Dom Vital, até o rompimento com Alceu Amoroso Lima em 1963, Gustavo Corção fundou, em 29 de setembro de 1968, o movimento e a revista Permanência. Foi um evento importante, que teve lugar no auditório do Ministério da Educação, no Palácio Capanema. Não apenas a Permanência existe, quanto quase tudo o que Corção escreveu está acessível nos jornais arquivados na Hemeroteca Brasileira, em especial o que publicou na Tribuna da Imprensa, no Diário de Notícias, n’O Estado de São Paulo.

Por algum tempo proscrito do quadro cultural brasileiro, Corção tem sido republicado e relido. A Biblioteca Nacional é fonte privilegiada a qualquer pesquisa sobre o autor. Em 26 de outubro de 1992 a instituição recebeu da senhora Hebe Corção o acervo pessoal, com correspondências ativas e passivas, textos e recortes de periódicos de Gustavo Corção. O conteúdo encontra-se na seção de Manuscritos. Detalhes podem ser encontrados no Guia de coleções da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional (2018).


Abaixo algumas possibilidades de pesquisa à partir da obra de Gustavo Corção na Hemeroteca Digital Brasileira:

Contra a Novacap: Corção compreendeu um dos maiores desafios a qualquer comunhão política no Brasil: a demofobia, e esse havia sido seu diagnóstico a respeito da construção de Brasília, que foi sua batalha perdida. Deixou diversos artigos descrevendo o absurdo da Novacap, em frases bombásticas que circulavam em notas nos jornais:

"Eu não imagino como possa ser possível governar um país de costas para 90% da população e sem saber o que está acontecendo nos lugares onde ainda moram os desventurados habitantes que se deixaram ficar estupidamente no litoral, como caranguejos, em vez de optarem inteligentemente pelo deserto, como gafanhotos".
Tribuna da Imprensa, 28 de julho de 1959

Para Corção a construção de Brasília era uma verdadeira "Ideia de Faraó", título de artigo publicado no Diário de Notícias, 1 de maio de 1957: "Ouvi dizer, por pessoas muito bem informadas, que as primeiras construções de Brasília estão sendo feitas com areia e tijolos transportados por via aérea. E não admira. No regime em que tudo anda pelo ar, não admira que também as paredes das casas aproveitem nossa magnífica frota aérea. Antigamente, quando se desejava frisar a dificuldade extrema de algum feito, dizia-se que era mais fácil um burro voar. Hoje, graças ao progresso do Brasil, voam os burros e os tijolos".

Sobre a ideia mirabolante de Brasília

Dinheiro enterrado em Brasília pagaria obras no Rio e sobrariam mais de três bilhões, Gustavo Corção explicou na Tribuna da Imprensa em 2 de outubro de 1958:

Contra o imobilismo: o reacionarismo de Corção não significava um imobilismo quanto as mudanças. Vivia impaciente com certos entraves brasileiros. Em artigo de 04 de abril de 1956 no Diário de Notícias, escreveu "Nada Acontece": "Todo o mundo no Brasil se queixa da inconsequência dos fatos. Denuncia-se o ladrão, aponta-se o prevaricador, prova-se o crime - e nada acontece. Nada acontece no Brasil, a não ser nas colunas sociais. Ninguém é punido, a não ser o batedor de carteiras que também é habilidoso, mas não tem um mandato que faça da sua habilidade uma virtude suprema".

Analista político: artigo “Um homem político”

Com se via e como foi visto: entrevista na Revista O Cruzeiro de 1967 - O segredo da vida

Raquel de Queiroz homenageia o 70º aniversário de Corção, na revista O Cruzeiro, janeiro de 1967

Joaquim de Sales escreveu sobre Corção: “Para a Glória do Brasil”

Reportagem de Luiz Santa Cruz, "Corção e Chresterton", no Diário de notícias de 10 de novembro de 1946

Em 17 de dezembro de 1958, nota do Jornal do Brasil sobre o sucesso dos livros de Corção no exterior

Em 1963 quatro nomes circularam como possíveis indicados ao Nobel de Literatura: Jorge Amado, Gustavo Corção, Guimarães Rosa e Gilberto Freyre
http://memoria.bn.br/DocReader/030015_08/63502

Um autor maldito nas páginas do Pasquim, segundo Millôr Fernandes

A influência de Corção sobre Carlos Lacerda: reportagem da Revista Manchete



Corção em entrevista à Revista Cruzeiro, em 1967