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Literatura e letras | Extraterrestres, nazistas e assim por diante: razões para amar Kurt Vonnegut

11 abr 2021

Artigo arquivado em Literatura
e marcado com as tags Antibelicismo, Ficção científica, Humor Negro, Kurt Vonnegut, Literatura Americana, Secult, Segunda Guerra Mundial

Literatura e letras | Extraterrestres, nazistas e assim por diante: razões para amar Kurt Vonnegut

Que se saiba, não existem estatísticas oficiais a respeito de quantos seres humanos são abduzidos por alienígenas por década, ano, mês ou dia. Talvez, para maiores informações, fosse interessante dispararmos e-mails para certos figurões da Nasa, quando não da CIA ou do Pentágono, fora os caciques dos programas espaciais e serviços secretos da Rússia e da China. Fazer isso seria de fato notável, mas não prudente: não provoquemos a onça do Grande Irmão com vara curta. Primeiro, por discrição; segundo, para evitar que mandem discos voadores para cima de nossas residências, rastreadas pelos IPs de nossos computadores. Ainda assim, intrépidos e doentes por literatura que somos, convém apontar uma dica: seria de grande valia sugerir aos homens de preto – quando não diretamente aos extraterrestres – a entrega de ao menos um exemplar de Matadouro 5, a obra prima de Kurt Vonnegut, para cada ser humano abduzido, tanto para recreação e passatempo durante longos e fastidiosos rolês espaciais quanto para tranquilizar eventuais chiliques: narrando como pode ser divertida e construtiva uma abdução, o livro serve como perfeita medida compensatória de eventuais testes de laboratório, dissecações e quaisquer tecnotraquinagens, frutos da rica (e talvez sádica) criatividade dos homenzinhos verdes. Que aliás são cinzentos, sabe-se. Portanto, fica a dica: compartilhem este texto até que chegue ao Pentágono ou ao serviço sucessor da KGB (esqueçam Joe Biden, que não deve saber de nada, embora o mesmo não se possa dizer de Vladimir Putin).

Mas o que suscitou tamanha – e brilhante – ideia? Por que estaríamos tão espiroquetas e inquietos? Ora, hoje não é uma data qualquer: é uma daquelas de acender velas. Não exatamente pela memória dos milhões, ou milhares, ou centenas de seres humanos que viraram ratos de laboratório em mesas cirúrgicas interplanetárias. Mas quase. Acontece que, entre os seres humanos, existe um grupo seleto: o de pessoas que, por qualquer razão, tiveram seus nomes escritos nas estrelas. Ou entre as estrelas. Que o diga o asteroide 25399, um simpático bólide de quase 7km de diâmetro que, assim como o nosso triste planeta aguado, orbita o Sol, só que entre Marte e Júpiter. 25399 é um nome aborrecido, não? Por isso, quando descoberto, em 1999, decidiram batizá-lo de Vonnegut. Sim, o cara do livro supracitado. Não que seja um nome de grande sex-appeal. Era afinal uma homenagem a um grande escritor – grande mesmo, muito maior que seu corpo celeste homônimo. Estamos falando do americano Kurt Vonnegut Jr., nascido em 11 de novembro de 1922 e falecido 11 de abril de 2007 – correram, hoje, 14 anos desde sua morte. E assim por diante.

Como a maior parte dos escritores – e dos seres humanos, em geral –, Kurt Vonnegut tinha dois pés: literariamente falando, um fincado na ficção científica, outro no humor negro e na crítica política e de costumes (ok, isso talvez pressuponha que tivesse três pés, mas deixemos os detalhes anatômicos de lado). Pós-moderno, inconformado, fantasioso, antibelicista, amante de narrativas não-cronológicas, pessimista e irônico até o talo, o autor sempre foi daqueles arguidores para lá de corrosivos da cultura, da sociedade e da política (tanto interna quanto externa) dos Estados Unidos. Isso quando não impôs abrupta vigília ao chamado “sonho americano” – tradição, justamente, entre alguns dos melhores nomes das letras estadunidenses: Ernest Hemingway, Susan Sontag, Charles Bukowski, Ursula K. Le Guin, Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, Henry Miller, Philip Roth. Vonnegut, porém, o fazia através de coquetéis inusitados: muitas vezes lançando mão de seu alter ego, o também escritor Kilgore Trout, misturava alienígenas e naves espaciais com nazistas, arrivistas do mundo corporativo, entidades com poderes divinos, americanos comuns, viagens no tempo, doses de uísque, religiões lunáticas, a loucura em si, futuros distópicos, beldades femininas de seios volumosos, etc., entre reflexões sobre livre arbítrio, política, idiossincrasias humanas, o caos reinante, paz e guerras (interplanetárias ou não). Tal linguagem foi marcada, certamente, pela experiência do escriba como combatente na Segunda Guerra Mundial, sem a qual Vonnegut não seria Vonnegut: os campos bombardeados de Dresden foram palco de boa parte de Matadouro 5, obra responsável por consagrar mundialmente seu autor – e que merece um parágrafo à parte.

Abandonando os estudos em bioquímica, em sua natal Indianapolis, no estado americano de Indiana, o jovem Kurt, descendente de alemães, se alistou no início dos anos 1940 para combater a súcia magarefe nazista. Tal rompante, corajoso e juvenil, logo fez o futuro autor dar com os burros n’água: na Bélgica, na chamada Batalha do Bulge, ao fim de 1944, Kurt Vonnegut foi aprisionado pela Wehrmacht, acabando num campo de prisioneiros em Dresden, na Alemanha, onde foi obrigado a trabalhar em uma fábrica de xarope de malte. Mal podia esperar que, lá, testemunharia um dos mais horrípilos massacres de civis na história militar: naquela cidade, em meados de fevereiro de 1945, cerca de 25 mil pessoas foram pegas de surpresa por 1.300 bombardeios americanos, com mais de 3.900 toneladas de bombas altamente explosivas. Embora as baixas alemãs tenham sido quase o dobro no bombardeio sofrido em Hamburgo, em 1943, o ocorrido em Dresden se tornou dolorosamente lembrado pelo injustificável: a cidade, até então uma “Florença do Elba”, sustentam especialistas, era um inestimável marco cultural, com pouca ou nenhuma importância militar, apesar do que as autoridades americanas arrazoavam. Resultado: perdas majoritariamente civis, no que dizem ter sido um verdadeiro crime de guerra nunca julgado. E Kurt Vonnegut estava lá. Só sobreviveu porque ele e seus colegas aliados na fábrica de xarope de malte estavam abrigados no subterrâneo, ironicamente, de um matadouro municipal de gado, o de número 5.

Depois de voltar para Indianapolis, ser condecorado, se casar, arrumar um trabalho chato porém decente na General Electric, deixar o bigode crescer e assim por diante, nosso herói decidiu virar escritor de ficção científica. Publicou um livro aqui, outro ali, chegando a quase desistir da carreira, se em 1967 não tivesse conseguido uma bolsa de estudos: a bufunfa possibilitou sua volta a Dresden, para revisitar certos fantasmas. Reviver a experiência o ajudou a narrar a história em livro, mas de uma forma muito particular: permeada por pitadas autobiográficas, sarcasmo, ilustrações, alienígenas quadridimensionais e um tantinho de sexo. Criou a história de Billy Pilgrim, um fictício colega de armas, que futuramente seria abduzido por extraterrestres para ser mantido em cativeiro numa espécie de zoológico intergaláctico e que acaba adquirindo o poder de viajar no tempo, tanto para o futuro quanto para o passado, que afinal coexistem, revivendo seus aterrorizantes dias de Matadouro 5 – uma metáfora para o que não saiu nunca da memória do autor, quem sabe? O sonho americano talvez dependesse de certos pesadelos, quem sabe justamente aqueles em que o horror atinge as raias do bizarro e do tragicômico. Fato é que o livro, publicado originalmente em 1969, na crista da onda de polêmicas quanto à postura dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, virou uma das maiores obras ficcionais pacifistas da literatura ocidental – um verdadeiro marco do ponto de vista social, além de grande sucesso de vendas. Matadouro 5 expressa o horror da Segunda Guerra, claro, mas suas colocações expõem a estupidez de qualquer conflito bélico, afinal. Ainda assim, por sua linguagem ríspida, bombástica quando somada ao seu teor violento, sexual e sarcástico, o livro virou um dos títulos mais banidos em escolas dos Estados Unidos no século 21, de acordo com a Associação Americana de Livrarias – ecos de Vonnegut com ninguém menos que Mark Twain, afinal.

Kurt Vonnegut, todavia, foi muito além de Matadouro 5 – e foi, inclusive, muito além do gênero da ficção científica, ao qual costuma ser rotulado. Sua carreira de cerca de 50 anos como escritor nos rendeu diversos frutos. Antes mesmo do grande sucesso já havia publicado Piano Mecânico (1952), As Sereias de Titã (1959), Mother Night (1962), Cama de Gato (1963) e God Bles You, Mr. Rosewater (1965). Depois de Matadouro 5 vieram ainda Café-da-Manhã dos Campeões (1973), Um Pássaro na Gaiola (1979) e tantos outros romances, num total de 14. Fora nove volumes de contos, sete peças de teatro e outras dez narrativas de não-ficção. Seus desenhos, aliás, em 2014 foram organizados em um volume. E quanto aos prêmios? Ironicamente, o Hugo Award, em miúdos o Oscar da ficção científica promovido pela World Science Fiction Society, teve Kurt Vonnegut como finalista na categoria “melhor romance” em várias oportunidades, sendo encaçapado pelo autor apenas quando Matadouro 5, livro que, em si, não ganhou o prêmio, virou filme. Tudo bem, posto que o autor costumava dizer que o real intuito do livro era o de enriquecê-lo, ao vender seus direitos para adaptação hollywoodiana. Seja como for, Vonnegut ainda faturou os prêmios Writers Guild of America, Drama Desk, Seiun, Audie... Em 2015 entrou para o Science Fiction and Fantasy Hall of Fame do Science Fiction Museum e, em 2019, também no da Libertarian Futurist Society. De fato, o homem foi um meteoro.

“Todas as linhas das grandes histórias são brincadeiras úteis pelas quais as pessoas se apaixonam para sempre”, dizia Kurt. Para sempre. Vonnegut se manteve na ativa como escritor até 2007, quando morreu em decorrência de uma queda. Antes que os engraçadinhos o digam, não, ele não caiu de nenhum disco voador, muito menos abatido por engravatados a serviço da CIA: caiu como qualquer um cai, do jeito mais banal possível, em sua casa, em Nova York. Morreu como muitos já morreram. E assim por diante. As quatro palavras desta última frase acabam sendo uma piscada de olhos, ou uma piada interna para os já iniciados no autor: “So it goes”, no original, aparece várias vezes em Matadouro 5, toda vez que a morte de algum personagem irrompe no enredo. Por que usá-las, afinal? Porque são o toque vonnegutiano perfeito para qualquer texto falando sobre o aniversário de morte de alguém: representam com humor a inexorabilidade da condição humana. O fim inevitável. Nosso fim inevitável. Ad nauseam.

Um tanto deprês os pensamentos acima, não? Pois nem tudo foi divertido na vida do escritor, que tanto teve de intensa quanto de absurda – exatamente como ocorre a miúdo com seus personagens. Pelo sim pelo não, Vonnegut sempre foi um bom personagem de Vonnegut. Antes mesmo de viver um dos maiores perrengues de sua vida em Dresden, de onde escapou mais por sorte do que por astúcia, o autor, quando jovem alistado, ao visitar a mãe pela última vez antes de embarcar para a Europa, no Dia das Mães, se deparou com ela morta. Suicídio: um frasco inteiro de comprimidos para dormir e assim por diante. Anos depois, já nos anos 1980, passando por problemas familiares, Kurt resolveu tentar repetir o destino da mãe, exatamente da mesma forma, mas fracassou. O suicídio é assunto tabu? Não para Vonnegut, que graceja com a própria cara no livro de ensaios Destinos piores que a morte. O episódio, aliás, fez com que o autor assumisse importante papel nas questões públicas quanto a transtornos mentais, colaborando para a conscientização a respeito do autocídio.

Mas não encerremos este texto tristonhos. Saibam que Kurt Vonnegut, hoje em dia, está despertando a atenção de jovens leitores: millennials chorões hiperconectados com intolerância a pelo menos dois tipos de comida, que mesmo antes da pandemia de Covid-19 já não se animavam de sair de casa, principalmente. Talvez por conta de sua linguagem clara, simples e engraçada. Talvez por suas distopias. E talvez também um pouco por causa da existência de um serelepe e mordaz perfil falso de Vonnegut no Twitter, sem qualquer ligação com editoras e com familiares do escritor. E, supõe-se, sem qualquer ligação com o próprio, posto que morto. Se bem que... Bom, deixemos teorias conspiratórias de vida após a morte de lado. As tiradas deste perfil não são do próprio Vonnegut, mas todas são, de fato, vonnegutianas. Como: “O humor é quase uma resposta fisiológica ao medo”. Ou: “Me ensinaram que o cérebro humano era a maior glória da evolução até hoje, mas acho que é um truque bem tosco para a sobrevivência”. De certa forma, é como se o fantasma do autor estivesse à ativa, em outro planeta ou dimensão, em posse do devido wi-fi, ou como se seu espírito pudesse ser psicografado por quem quer que seja, ou como se, na verdade, o próprio Vonnegut tenha conseguido, como Billy Pilgrim, romper a enfadonha cadência cronológica e catapultar seu pensamento para o futuro – com certeza, é essa terceira conjectura a mais plausível. Como dizia Antônio Xerxenesky, tradutor, escritor e doutor em Teoria Literária responsável pelo texto de apresentação da mais recente edição brasileira de Matadouro 5, da Intrínseca, em entrevista ao jornal literário Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná: “Vonnegut se recusava a escrever de modo empolado, buscando uma voz muito própria de um cidadão ordinário. Esse estilo envelhece melhor, talvez, e por isso soa contemporâneo até hoje”. Sem contar que, no fim das contas, “Podemos especular que o mundo está cada vez mais absurdo, e que autores como Vonnegut se encaixam mais do que nunca ao espírito de nosso tempo”. E assim por diante.

Explore os documentos:

Crítica de “Um homem sem pátria”, de Kurt Vonnegut, escrita por Duílio Gomes e publicada no Jornal do Brasil em 2006.

A Tribuna da Imprensa, em 13 de abril de 2007, lembrava Kurt Vonnegut como “heroi cult” dos anos 1960 e 1970.

Em 13 de abril de 2007, o Correio Braziliense lançava o obituário de Kurt Vonnegut.



A Tribuna da Imprensa, em 13 de abril de 2007, lembrava Kurt Vonnegut como “heroi cult” dos anos 1960 e 1970.