BNDigital

Literatura Mundial | Quem escreveu "O Fluminense"?

25 out 2023

Artigo arquivado em Literatura
e marcado com as tags Autoria, Clássicos, Literatura Anglófona, Melville, Obras Raras, Pesquisa, Secult, Strangford, Tradução, Universidade

"A natureza quis que eu fosse um comerciante - as circunstâncias fizeram de mim um poeta."
(Prefácio, "O Fluminense")


Os clássicos nunca morrem. São sempre louvados por quem os ama e criticados por quem não os conhece bem. São matéria para pesquisa, deleite, paródia, reescrituras em todas as formas e transcriações das mais variadas. De vez em quando aparece alguma obra que nos desafia a pensar os clássicos mais uma vez - e assim eles nunca morrem.

No início de 2023, iniciamos uma pesquisa, cadastrada no Programa de Iniciação Científica Voluntária da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (PIVIC/UFMS), sobre o poema “O Fluminense — a poem, suggested by scenes in the Brazils”. O cenário do poema é o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro. Foi escrito numa aparente tentativa de seguir a tradição dos poemas épicos clássicos, tendo como principal modelo a épica de Camões. A divisão do poema em cantos, a presença de invocação à musa da poesia épica e da figura de um herói são alguns dos aspectos da epopeia clássica encontrados no poema.

Os principais objetivos da pesquisa, ainda em andamento, são identificar e discutir elementos inerentes à herança clássica verificados no poema e pesquisar informações sobre a obra que auxiliem na identificação do autor e na compreensão do contexto em que a obra foi escrita. Dada a limitação temporal — a pesquisa precisa ser executada em um ano — propusemos fazer a tradução do inglês para o português apenas do Canto First.


Frontispício de “O Fluminense” - Divisão de Obras Raras, FBN

Ao estudarmos uma obra como “O Fluminense”, a questão da autoria acompanha o trabalho de tradução. Todo pesquisador e tradutor é também uma espécie de “detetive”, que vai buscando pistas até encontrar as respostas. Ainda que não seja possível “solucionar o caso”, é possível oferecer hipóteses. O que diz o próprio livro? O autor se autodefine como a utilitarian, e se apresenta como um comerciante que se tornou poeta. Sabemos que foi publicado em 1834 em Londres, em impressão feita para Orr & Smith (editores localizados na Paternoster Row, uma rua conhecida pelo seu grande número de livrarias que a tornaram célebre no mercado editorial da época) e Robert Robinson (Manchester).

No mesmo volume de “O Fluminense” há um poema intitulado “Camoens in the hospital”. Isto não causa tanto estranhamento, uma vez que “Os Lusíadas”, a grande epopeia portuguesa, é claramente a referência utilizada pelo autor de “O Fluminense”. Foram inclusive registradas informações sobre a obra nos Anais da Biblioteca Nacional, nos registros da Collecção Camoneana — ou seja, entre as obras do acervo que de alguma forma estavam relacionadas a Camões. Ao procurar informações na rede internacional de computadores sobre “Camoens in the hospital”, uma surpresa: o escritor norte-americano Herman Melville, mais conhecido pela sua prosa do que pela sua poesia, tinha escrito um poema com o mesmo título!
(Para saber mais sobre a obra-prima de Melville, o romance “Moby Dick”, leia o artigo da pesquisadora Ana Lúcia Merege na BNDigital aqui.)

O título é o mesmo, mas os poemas são diferentes. Melville escreveu dois poemas concatenados: “Camoens: I (Before)” e “Camoens in the hospital (After)”, ambos publicados por Vincent Howard em “Collected Poems Of Herman Melville” (1947). O “Camoens in the hospital” que acompanha “O Fluminense” é um poema de 18 estrofes, cada uma contendo 8 versos, obedecendo ao esquema de rimas ABABCDCD (com exceção da segunda estrofe). É outro poema, sem dúvida, mas o que mais nos intriga é que o de Melville não tem data, e seu primeiro livro publicado, “Typee: A Peep at Polynesian Life”, é de 1846, sendo posterior à data de publicação do “Camoens in the hospital” que acompanha  “O Fluminense”, datado de 1834. Seria o caso de Herman Melville ter se aventurado pela poesia antes de se dedicar à prosa?

No romance de aventuras “White-Jacket”, publicado em Londres em 1950, Melville escreve sobre as belezas do Rio de Janeiro, mencionando detalhes que só mesmo um bom observador poderia registrar. De agosto de 1843 até outubro de 1844, Herman Melville tinha embarcado como marinheiro em Honolulu rumo a Boston e passou pela costa brasileira, onde a embarcação atracou na baía de Guanabara e recebeu até visita do imperador Dom Pedro II e de seus acompanhantes. O capítulo LVI inteiro é dedicado à narrativa desta visita. O capítulo XXXIX, por sua vez, menciona locais que deixam qualquer carioca estupefato: o Pão de Açúcar, a Ilha das Cobras, a Praia do Flamengo (que ele escreve “Flamingo”), a Baía de Botofogo, o Morro da Glória, o Passeio Público, o Palácio imperial e até a Igreja da Candelária, para citar alguns.


Desenho com a vista das duas pirâmides triangulares de granito esculpidas pelo Mestre Valentim para o Passeio Público, com destaque para a que tem a placa com a inscrição "À Saudade do Rio" (Acervo Iconográfico)

Melville esteve no Rio — mas não pode ter escrito “O Fluminese”, porque ele foi publicado em 1834, bem antes de sua parada na baía da Guanabara. A menos que a data de publicação esteja equivocada… O que não é provável. O autor de “O Fluminense” se declara um tradesman, um comerciante. Seria uma mera persona, ou de fato era um comerciante, um homem de negócios?

Mas “White-Jacket” tem mais a declarar para esta investigação. O personagem Jack Chase é claramente inspirado em John J. Chase, amigo de Melville que lhe apresentou a poesia de Camões, mais especificamente a tradução dos sonetos feita por Percy Smythe, 6.º Visconde de Strangford. E o que tem Strangford a ver com o Brasil? Muita coisa! Ele foi embaixador do Reino Unido em Lisboa, Portugal, na época da invasão napoleônica e acompanhou parte da família real e da corte portuguesa na sua mudança para o Brasil. O Setor de Manuscritos da Biblioteca Nacional tem alguns documentos relacionados a ele, tais como um abaixo-assinado rebatendo acusações referentes à quebra do tratado entre Portugal e Inglaterra (sobre o tráfico de escravos) e uma carta  sobre sua chegada ao Rio de Janeiro e sua audiência em particular com o príncipe regente D. João.

Será que o Visconde de Strangford, tão bom conhecedor do Rio de Janeiro e admirador de Luís de Camões, escreveu “O Fluminense”? Será preciso uma investigação mais aprofundada a respeito, mas o nome dele é claramente uma hipótese a ser considerada. Quem sabe o texto não nos dará mais alguma pista?

 

Em tempo: em dezembro de 2023, recebemos a mensagem da professora Flávia Varella (UFSC) informando que outras fontes indicam que o autor do poema O Fluminense é o inglês John Armitage, que residiu na cidade do Rio de Janeiro entre 1828 e 1835 e publicou o livro History of Brazil em 1836.  Segundo a professora, "A identificação da autoria está no obituário de Emma M. Armitage, nora de John Armitage, Cf. J. Penry Lewis. List of inscriptions on tombstones and monuments in Ceylon, of historical or local interest, with an obituary of persons uncommemorated. Colombo: H. C. Cottle, 1913, p. 350. A informação foi confirmada, pois no obituário de John Armitage, publicado no Christian Reformer (1856, v. II, p. 318), indicava que Armitage havia escrito um poema e citava alguns trechos. Esses trechos estão presentes no O Fluminense. As informações biográficas presentes no Prefácio do O Fluminense e as interpretações históricas realizadas ao longo da obra também estão alinhadas com a vida e perspectiva de Armitage". Futuros contatos com a professora podem ser feitos pelo e-mail [email protected].