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Música | Cem anos de nascimento de Antônio Maria Araújo de Morais: o Bom Maria

17 mar 2021

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“Vento do mar e o meu rosto no sol a queimar, queimar
Calçada cheia de gente a passar e a me ver passar
Rio de Janeiro, gosto de você
Gosto de quem gosta
Deste céu, deste mar, desta gente feliz

Bem que eu quis escrever um poema de amor
E o amor estava em tudo o que vi
Em tudo quanto eu amei
E no poema que eu fiz
Tinha alguém mais feliz que eu
O meu amor
Que não me quis”


(Valsa de uma Cidade. Composição Antônio Maria e Ismael Netto.)

O pernambucano Antônio Maria Araújo de Morais (1921-1964), Zé Maria, Bom Maria (Revista do IPHAN), ou simplesmente Maria, cronista, produtor de programas de rádio e TV, compositor, comentarista esportivo, completaria, nesse dia 17 de março de 2021, 100 anos de idade.

Iniciou, em 1939, sua carreira na Rádio Cube de Pernambuco (Radiolândia). Com seu talento, no ano seguinte veio ao Rio de Janeiro para tentar colocação no mercado das rádios cariocas. Frequentava a boemia da Lapa e adjacências. Não foi, infelizmente, um bom começo, como explica na crônica Retratos Antigos (O Jornal):

Eis a história: esse cronista e Fernando Lobo moravam num apartamento na Cinelândia. Chegávamos do Norte, fazia pouco tempo, e víamos tudo com olhar espantado, com deslumbramento, sem um mínimo de serenidade que nos permitisse ambição, e ouvíamos rádio. Tomávamos parte em concursos telefônicos, fazíamos molecagem nos rádio-bailes (Aurelio de Andrade já leu centenas de notas, fornecidas por nós, de pessoas que nunca existiram ou que só existiram no Recife) e ficamos ali, rindo dos outros, mandando subir mil laranjadas do "Mestre-Valentin", mas sem emprego.

A primeira tentativa não deu certo. Uma das festas acabou em polícia, fazendo com que retornasse a Pernambuco (Sport Ilustrado). Entre 1945 e 1947, fixou-se na Bahia aonde recomeçou sua carreira de comentarista esportivo.

Pelas mãos do jornalista e empresário Assis Chateaubriand (A Cigarra), dono e diretor dos Diários Associados que o convidou a ser diretor da primeira TV brasileira, a TV Tupi, Maria firmou-se definitivamente no cenário carioca, pelo qual desenvolveria, ano após ano, grande afeto. Tal como um boêmio que se preze, não largaria as noites cariocas, só que, agora, seriam as boates e ruas de Copacabana os seus principais destinos. Andarilho das noites e das casas de show, como a Vogue - na qual trabalharia como diretor artístico -, dali retirava as matérias primas para suas composições, produções artísticas e crônicas. Simultâneamente, circulou em várias empresas de comunicações. Como produtor de TV, contribuiu para o crescimento desse veículo de comunicação, em seus primórdios no Brasil (A Scena Muda). Atuou na Rádio Mayrink Veiga, local em que também fez sucesso (O Cruzeiro e Radiolândia), impulsionando vários dos programas da emissora aos primeiros lugares na pesquisa IBOPE, para o ano de 1953 (Mundo Illustrado)

Escreveria, ao longo de sua carreira, crônicas diárias para O Jornal, O Globo, Última Hora, além de textos semanais para a Revista da Semana. Compôs milhares de crônicas que versavam desde assuntos sobre programas de rádio, celebridades, músicas, eventos da TV, esportes, até questões mais sociais, como furtos na área de Copacabana, comportamentos humanos na cidade, Carnaval, etc. Seria, nas palavras de Rachel de Queiroz (O Cruzeiro), o mais lírico dos cronistas fazendo, da difícil tarefa de "escrever sobre o nada", um ofício cheio de história, arte, poesia (Careta).

Dono de um humor afinado e, por vezes, contundente, não raro envolvia-se em querelas e arrumava desafetos. De opiniões fortes, certa vez, em uma crítica à "burrice" de pessoas com mais de 40 anos, teria dito que os seus espirros tinham "sotaque de relincho" (Alterosa). Sobre cantores brasileiros, de seu tempo, disparou que menos de 15 seriam dignos de uma gravação em disco (Revista do Disco). Um dos seus desafetos, talvez o mais emblemático, foi Fernando Lobo: inicialmente amigos, compuseram juntos o samba Ninguém me Ama que, anos depois, dentre outras questões, viraria alvo de disputas violentas entre a dupla (Radiolândia, http://memoria.bn.br/DocReader/128848/447 e http://memoria.bn.br/DocReader/128848/464).

Considerado pela crítica como um letrista completo (A Cigarra, http://memoria.bn.br/DocReader/003085/51869 e http://memoria.bn.br/DocReader/003085/54806), Antônio Maria compôs, dentre outros sucessos, Valsa de uma cidade (A Cigarra) – letra que abre nosso artigo -; Canção da volta (Radiolândia); Se eu morresse amanhã (Revista do Disco); Recife (A Scena Muda); Menino grande (Diário do Nordeste); Madrugada três e cinco (Revista do Disco), além de ter sido um dos compositores do samba Orfeu do Carnaval, para a trilha sonora do consagrado filme Orfeu Negro (1959), de Marcel Camus e baseado na obra de Vinícius de Moraes (Leitura). Algumas das intérpretes que se destacaram, através da gravação de suas composições, foram Nora Ney (A Época) e Aracy de Almeida (Leitura e Mundo Esportivo), duas importantes vozes do rádio brasileiro, na década de 1950.

O mundo dos esportes contou, igualmente, com a participação de Antônio Maria. Começou irradiando jogos em Pernambuco, assinando apenas com seu sobrenome Araújo de Morais. Depois, na TV Tupi, chegou a narrar transmissões de jogos (O Cruzeiro). Tomou parte em enquetes e comissões de jurados, para avaliar times e jogadores (Mundo Esportivo e Manchete Esportiva). Um dia do caçador, outro da caça, também foi alvo de críticas aos seus comentários esportivos (A Scena Muda).

Não são raros os rolos em que se envolveu ao longo da vida. Joaquim Ferreira dos Santos, seu principal biógrafo (Jornal do Brasil), conta vários deles em suas obras, como uma vez em que Maria se fez passar por Carlos Heitor Cony, para seduzir uma fã (Jornal do Brasil). Um outro evento, narrado pelo Mundo Illustrado, foi a sua sorte: teve sua carteira perdida, ou furtada, no dia em que recebeu o pagamento e, por sorte, conseguiu sustar o cheque e evitar prejuízo que teria com o objeto desaparecido (Mundo Illustrado).

Seu falecimento provocou uma grande lacuna, sentida e comentada com tristeza no mundo artístico (Leitura e Entre-Rios).Reconhecia o efeito dos excessos de sua rotina de vida sobre seu corpo - ele mesmo dizia-se "cardisplicente", em alusão aos descuidos que tinha com a saúde. A consequência, infelizmente, logo viria... Faleceu devido a um infarto, ao sair de uma das boates que frequentava em Copacabana, aos 43 anos, deixando todos ao seu redor consternados pela sua precoce partida.

Partiu jovem, aquele menino grande, como intitulou uma de suas composições (A Scena Muda), mas não deixou de vivenciar e participar de tudo profundamente, com a mesma expectativa e paixão de quando aguardava seu cavalinho de presente (Revista da Semana).


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