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Pequeno Atlas do Maranhão e Grão-Pará

22 maio 2015

Artigo arquivado em Análise documental

Este Atlas foi feito por João Teixeira Albernaz I por volta de 1630, recebeu o título de [Pequeno Atlas do Maranhão e Grão-Pará]. Ele está dividido em três (3) seções, mostrando os atuais Estados do Ceará, Piauí, Maranhão e Pará; como também, parte da Amazônia. Além disso, o Atlas descreve aldeias, províncias indígenas e fortes.

A primeira seção do Atlas – “Maranhão Taboa Primeira” – descreve o rio Jaguaribe “donde começa o governo do Maranhão” e “deste rio ao Rio Grande que a 270 léguas”; a ponta do Macuripe; aldeia de índios; o rio Ceará, “terra de fumos”; o rio Mandoituba; o rio Cururuibe; o Buraco das Tartarugas; aldeia de índios; o rio da Cruz; a Província dos Taramembez; os rios Pará mirim, Parauaçu e das Preguiças; o Forte São Jerônimo; a aldeia de índios; a cidade de São Luís; os rios Pereya e Many; a aldeia de brancos; Nossa Senhora da Conceição; os rios Tapocuru, Meari e Pinave; e a província dos Guajajaras.

A segunda seção do Atlas – “Maranhão Taboa Segunda” – mostra a província dos Guajajaras; os rios Pinave, Meari, Tapocuru e Many; a lagoa Mavacu onde começa o “caminho do Maranhão para o Grão Pará”; aldeia de índios; Nossa Senhora da Conceição; a cidade de São Luís; salinas, aldeia de brancos; a “aldeia Tapuitapera dos índios”; o rio Cuma; a Ilha de São João; o rio Tury que “não se navega”; os rios Pindatuba e Caravata; a Província dos Tupinambás; o rio Guaropi; o rio Caeté; a aldeia de Caeté “de 40 portugueses”; os rios Maracanã e Guama; a aldeia de índios; a cidade de Belém; os rios Capy e Ocara; a província dos Tocantins; o lago Dourado; o braço do Pará; o rio Pará, onde “no inverno podem passar lanchas”; a Ilha dos Iones e a Ilha das rãs.

A terceira seção do Atlas – “Maranhão Taboa Terceira” – mostra a cidade de Belém “dos portugueses”; o rio Pará; a Ilha do Sol, a Ilha de Santana e a Ilha das Pacas; “ todas estas ilhas estão em água doce e por isso são doentias e ainda que a maré entre não faz água salgada e posto que carece sempre correr para o mar” os rios Capary, Ocara e Mogu; a província dos Tocantins; o braço do Pará; a Província dos Pirapes; o rio Iguape; o braço do Pacajar; a província dos Iurunas; Caraguatá; a Província dos Pacaiares e Mapuazes; Guanapus; o Forte “que tomamos aos ingleses, derrubado”; a província dos e ilhas Daruans; o braço do Parnaíba; a província dos Iacares; o “gran canal das Amazonas”; o rio Grande Pará “este rio baxouo capitão Arelhana em tempo de Carlos II fugindo a instica no levantamento de Pissarro no Peru”; lago Dourado; o rio Amazonas, a província dos Tapuyossus; o rio Jenipapo “e na boca pode e está navios”; a província dos Tucuius; casas; fortes; o Forte “que tomamos aos holandeses, derrubado”; a província dos Moriguis; o cabo do Norte; o rio de Vicente Pisón “aqui se acaba a conquista de Portugal e começa a de Castela”.

A priori devemos dar uma relevância a descrição indígena que aparece nos mapas, lembrando que no início da colonização os portugueses não atentavam para as variações entre os nativos e adotaram a distinção entre tupi e tapuia; estes recebiam o nome dos próprios tupis, por não falarem a sua língua. É mister que o grupo lingüístico tupi possuía inúmeras etnias que se localizavam em pontos do litoral e do interior do Brasil, tais como: tupiniquim, tupinambá, tamoio, caeté, potiguar, temiminó, entre outros. O termo tapuia aludia a grupos lingüísticos diversos: jê, karib, arawak e famílias lingüísticas menores.

Os europeus empregavam esses termos genéricos e identificavam os grupos específicos como “nações” que nem sempre se referiam a culturas étnicas. Da mesma forma que ao utilizarem também o vocabulário genérico de gentio para aludirem aos índios, os colonizadores os inseriam no imaginário cristão, classificando-os a partir do ponto de vista europeu, e não da tradição indígena.

É importante salientar que antes mesmo da ocupação da América, o domínio legítimo das regiões descobertas ao rastro da expansão marítima de Portugal e Espanha tornou-se objeto de disputas envolvendo ambas as Coroas. Após a primeira viagem de Cristóvão Colombo, insatisfeitos com a arbitragem da Santa Sé por meio das bulas de 1493, os reis de Portugal e Espanha celebraram em 1494 o Tratado de Tordesilhas, realizado diretamente entre dois soberanos temporais, prescindiu da mediação do papa como representante de Deus na Terra. Ele partilhava as conquistas espanholas e lusas entre os dois hemisférios, a ocidente e a oriente, respectivamente, de um meridiano situado a 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde.

Entretanto, a sua aplicação foi minada desde o início pela imprecisão das medidas adotadas, pela ausência de indicação de qual das ilhas do mencionado arquipélago serviria de referência e pela magnitude dos obstáculos para delimitar, no terreno americano, o meridiano traçado nos mapas ainda precários da época. Na América, à sombra das cláusulas de Tordesilhas assistiu-se, nos cerca de dois séculos e meio seguintes, a um duplo movimento de expansão territorial, no qual sobressaíam, do lado luso-brasileiro, em virtude das condições geográficas e da União Ibérica (1580-1640), as bandeiras paulistas e amazônicas, responsáveis pela obtenção de novas fontes de riqueza e pelo desenho dos limites da Colônia.

Deve-se ressaltar que um dos embates entre as duas frentes de colonização surgiu na região platina, em lugares cuja localização já não guardava qualquer vínculo com os parâmetros fixados anteriormente. Assim, eles acabaram por dar origem em 1750, ao Tratado de Madri, que teve como negociadores Alexandre de Gusmão e José de Carajal y Lancaster. Através deste Tratado, Portugal adquiriu a posse legal do Rio Grande do Sul, do Mato Grosso e da Amazônia, regiões situadas a oeste da linha de Tordesilhas. Por outro lado, em troca da área dos Sete Povos das Missões, reconhecia a soberania espanhola sobre a Colônia de Sacramento, povoação fundada em 1680, na margem norte do estuário platino.

Esta região foi foco de conflitos político-militares, para os quais concorriam as ambições portuguesas de estender o território do Brasil até o mencionado rio e o papel daquela localidade como importante veículo de contrabando com a praça de Buenos Aires para a obtenção da peata andina, a Colônia do Sacramento seria ainda tomada e restituída várias vezes nos anos posteriores.

REFERÊNCIAS

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PINTO, Alfredo Moreira. Apontamentos para o Diccionario Geographico do Brazil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1899.
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VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.