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Personalidades | Laurinda Santos Lobo, a “Marechala da Elegância”

05 jun 2021

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Laurinda Murtinho Mangine ou Laurinda Santos Lobo, nome adotado após casamento com o empresário Hermenegildo Santos Lobo teve sua biografia construída por feitos notáveis. Admirada e muito influente na cena política e cultural da capital federal, Laurinda ultrapassou as expectativas mesmo para uma dama da “boa sociedade fluminense”.

Sobrinha do político e estadista Joaquim Murtinho, Laurinda herdara vultosa fortuna estimada em 20.000 contos, conforme noticiou o jornal A Notícia (RJ) em 1921. Entre os bens, o palacete Murtinho, residência localizada próximo ao largo do Curvelo na rua Marinho em Santa Tereza, área onde concentrava as famílias mais importantes do Rio de Janeiro.

O palacete, renomeado palacete Santos Lobo, também conhecido como o “palácio de fadas”, era o reduto da elite carioca, espaço muito disputado por aqueles que almejavam conquistar maior visibilidade social. Laurinda era uma verdadeira anfitriã, realizava periodicamente reuniões, desde “petit-comité” e saraus até grandes “soirées”. Recepções mensais e bailes agregavam políticos, poetas, literatos, diplomatas, damas da sociedade, jornalistas, intelectuais brasileiros e estrangeiros corriqueiramente celebrados nas seções mundanas dos principais jornais da belle époque carioca. Presidente Epitácio Pessoa, Senador Luís Adolpho, Coronel Pedro Celestino, Arquiteto Eduardo Vasconcelos Pederneiras, o poeta francês Paul Fort, os imortais Gustavo Barroso e Luiz Murat, o músico Villa-Lobos, a cantora polonesa Rosa Raisa ,Violeta Lima de Castro, a famosa Bebé, entre tantos.

O palacete de Laurinda funcionava como extensão da vida pública ocorrida nos Palácios da República e do Itamaraty, conferindo à “Marechala da Elegância” grandes homenagens com destaque a honra ao mérito pelo embaixador Morgan, ministro em Cuba, prêmio amplamente noticiado.

A atmosfera dos salões, ainda herança das sociabilidades do XIX, reuniam outros nomes de grande prestígio, muitos apoiados financeiramente por Laurinda, que mantinha com a direção do Teatro Municipal e demais instâncias culturais grande poder de decisão, auxiliando inclusive na decoração do Municipal. A “patronesse dos artistas” recebia o corpo de baile do Municipal, dançarinas, cantoras, musicistas como Bidú Sayão, Magdalena Tagliaferro e a admirável bailarina e coreógrafa Isadora Duncan. Habituées como o casal Eugenia e Alvaro Moreyra e o celebrado João do Rio eram algumas das visitas ilustres de Laurinda.

Anos mais tarde eram os modernistas que dominavam o circuito elegante do palacete. Laurinda, que mantinha um apartamento em Paris onde passava anualmente temporadas, transitava entre os principais polos de produção artísticos do momento. Colecionista, adquiria obras futuristas, cubistas, sempre atenta as novidades, o que lhe conferia um grande espírito de vanguarda.

Mas não era só de festas galantes que Laurinda vivia. Embora muito do que ocorria na política brasileira fosse debatido nas dependências do palacete, a articulação de homens, e, em particular de mulheres, por aqueles salões fortalecia bandeiras políticas defendidas pelas primeiras feministas do Brasil. A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a Legião da Mulher Brasileira e outras associações serviram de base para o engajamento de mulheres cultas e letradas, a exemplo de Laurinda, sempre a frente das organizações como diretora ou colaboradora dos movimentos.

Laurinda tinha consciência sobre a importância do voto feminino, especialmente sobre as mudanças que representariam para as mulheres menos afortunadas, como marco de independência. Para aquelas que não poderiam contar com o apoio dos homens para a emancipação da mulher Laurinda alertava: “[...]as que luctam [sic], as que sofrem, as que veem nos homens, rivaes [sic], essas devem ter o direito ao voto. Mas...já será tempo de pensar nisso no Brasil, onde somos tanto ou bem consideradas bonequinhas de luxo que apenas pensam!?” Com seu ar altivo e ao mesmo tempo prudente, Laurinda junto a Bertha Lutz, Júlia Lopes de Almeida, Cacilda Martins, Stela Duval, Jeronyma Mesquita, entre outras, encabeçavam “as legítimas aspirações do nosso sexo”.

Laurinda, “figura primacial das altas rodas sociaes” deixa como legado seu papel como agitadora política e cultural. Hoje o palacete é ocupado pelo Parque da Ruínas inaugurado pelo governo do estado do Rio de Janeiro em 1997, a partir do que sobrou da residência. Já o Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, criado em 1979, é um espaço voltado a atividades culturais, exposições, recitais, oficinas infantis etc. Centro voltado em preservar igualmente a memória do bairro histórico de Santa Teresa.

(Seção de Iconografia)



A Ilustração Brasileira (FRA) 1924.