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Rastros do Cisne Preto: Lino Guedes, um escritor negro pelos jornais (1913-1969)

21 nov 2023

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Trecho da Introdução de artigo publicado na revista Estudos Históricos, vol.30, n.62, set./dez. 2017.


"Introdução
Quase tudo o que é sabido sobre Lino Pinto Guedes (1896-1951) tateia as relações entre o contexto e as condições sociais da produção de sua obra. A data de seu aniversário é alvo de disputas; há poucos dados sobre sua vida familiar em Socorro (SP), como descendente de escravizados, ou sobre seus trajetos pelo interior paulista até chegar à capital. Por quê?

A) Seus livros, encontrados em sebos, custam centenas de reais;

B) A divulgação das obras foi feita por uma militância cultural negra paulistana, a exemplo de Correia Leite (Cuti e Leite, 1992), Colina (1982), Quilombhoje (1985) ou Camargo (1986, 1987, 2016), que o inseriu em antologias e estudos de literatura negra brasileira. Houve interesse de poucos pesquisadores pelo autor e suas ações, como foi o caso de Bastide (1973), Brookshaw (1983) e Bernd (1987), Duarte (2011), Gomes (2011: 349-363), Miranda (2005), Domingues (2010) e Gonçalves (2012). Acrescente-se que:

C) Parentes ou descendentes são falecidos, como sua filha Hendi Guedes Queiroz;

D) Seus livros podem ser encontrados em bibliotecas públicas, mas são preservados como obras raras na Biblioteca Nacional, na Coleção Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e na Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Por fim:

E) Pesquisadores que foram seus contemporâneos ou de seus descendentes não produziram, salvo engano, entrevistas com o autor.

Trata-se de um autor negro militante que entre os anos 1920 e 1950 publicou livros autoeditados em gráficas e tipografias, trazendo ao público uma poesia em que os negros, no passado e no presente, e seus modos de vida são os personagens centrais, e narrando uma história coletiva desse grupo. Guedes foi também um dos fundadores de um jornal voltado para os “homens de cor” no interior de São Paulo, O Getulino. E após 40 anos da Abolição da escravatura já era revisor em periódicos importantes da capital, mas também mencionado em notas de jornais como poeta preto, poeta da raça negra.

Discuto aspectos desse percurso com base em fontes encontradas na imprensa periódica paulista. E, com isto, avento que Guedes e sua trajetória (e as lacunas sobre ela) são indícios do quanto se desconhece sobre o protagonismo de intelectuais e escritores negros brasileiros no começo do século XX em São Paulo, afrontando os alcances e limites da liberdade.”

Leia aqui o artigo completo.

[*] Mário Augusto Medeiros da Silva é mestre e doutor em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor do Departamento de Sociologia da mesma instituição. Este artigo recebeu apoio da Fundação Biblioteca Nacional por meio do Edital de Apoio a Pesquisadores Negros (2013) ([email protected]).

Figura 1 - Capa do livro Negro Preto Cor da Noite.

Fonte: Guedes (1937). Acervo Particular Mário A. M. da Silva.

REFERÊNCIA:
GUEDES, Lino. Negro Preto Cor da Noite, 1937. Capa de Rosasco. São Paulo: Estabelecimento Gráfico Cruzeiro do Sul, 1937. (Coleção Hendi). Acervo Particular de Mário A. M. da Silva.