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EXTRATO DE UM DICIONÁRIO JESUÍTICO DE 1756 EM LÍNGUA GERAL

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O DICIONÁRIO DE TRIER EM COMPARAÇÃO COM DOIS OUTROS DICIONÁRIOS DE LÍNGUA GERAL AMAZÔNICA

Wolf Dietrich (Universität Münster)


 A análise do Dicionário de Trier levou o grupo de pesquisadores que preparou esta publicação a estudar também o ambiente lexicográfico em que se integra essa obra. Intentou-se identificar os dicionários historicamente mais ou menos paralelos para compará-los com os anteriores que podiam ter servido como modelos ou fontes destes. Tomam-se em consideração aqui o Vocabulário na Língua Brasílica (VLB), o Vocabulario da lingua. Brazil de Eckart e a Prosodia de lingua.

  • A Língua Geral Amazônica era a língua falada pelos colonizadores portugueses e suas famílias dos séculos XVII e XVIII, língua que teve suas origens no tupinambá da costa brasileira. Segundo Rodrigues (1996 e 2010), o fato de os primeiros colonos portugueses chegarem ao Brasil sem mulheres e casarem-se com mulheres indígenas teve como consequência “a rápida formação de populações mestiças cuja língua materna foi a língua das mães e não a língua europeia dos pais.” (Rodrigues 1996: 6). Esta situação deu-se nas partes da costa brasileira que se encontravam afastadas dos centros da colonização portuguesa, Salvador e Rio de Janeiro. É assim que no planalto de Piratininga se formou a chamada Língua Geral Paulista (LGP), mal documentada, e, nos atuais estados brasileiros do Maranhão e do Pará, a Língua Geral Amazônica (LGA). Essa língua foi adotada, como língua veicular, também pelos índios da região amazônica nos seus contatos com os colonizadores e com outras populações indígenas. Por isso, igualmente se empregava na catequese dos missionários jesuítas da região, fato que motivou a compilação de numerosos dicionários de LGA.

  •  Todos esses dicionários são anônimos. Em geral, sequer têm título, ou indicam o lugar e a data da composição. O dicionário de Língua Geral Amazônica mais antigo, que com certeza existiu em muitas cópias e assim serviu como modelo para inúmeros dicionários posteriores, é o VLB, já composto, provavelmente, em 1621. Para os autores que nos interessam aqui, o autor da Prosodia, Eckart, e o autor do dicionário de Trier, o VLB representa a “tradição”. Embora ambos sigam e respeitem a tradição, também a negam e corrigem em muitíssimos casos, substituindo o termo tradicional pela expressão em uso 130 anos depois da confecção do VLB. Este tipo de mudança linguística diacrônica indica-se pelo signo “ł” (latim licet ‘ou seja’) na Prosodia, por “vul.” (latim vulgo, ‘na fala da gente’, ‘habitualmente’) no dicionário de Trier e, finalmente, por “vulgò” (latim vulgo, ‘na fala da gente’) ou “vel” (latim vel ‘ou seja’) de Eckart.

  •  O caráter exemplar do VLB evidencia-se, por exemplo, no caso do verbete ‘cantor’. O VLB oferece Nheẽgaraipara, de nheengára ‘música’ + i-para ‘é variado’, ‘música variada’; a Prosodia tem nheengaçàra ‘cantor, orador’, Eckart nhëengaçára; o dicionário de Trier nheengaçara, agregando “e se he o mestre do canto, nheengaráiba”. O que é importante aqui não é a uniformidade das soluções oferecidas pela Prosodia, Eckart e o Trier, mas o absurdo de adotar um verbete que pertence a um ambiente urbano da costa, mas não tem mais sentido, já que corresponde à realidade numa missão amazônica. Eckart e Trier, ambos anotam ao final do verbete “Não tem uso. Porque nem tem canto, nem mestre”.

  •  Quase todos os dicionários de LGA são dicionários unidirecionais português-LGA. Somente o Diccionario da Lingua Brazilica (ms. 94 da Biblioteca da Universidade de Coimbra) é um dicionário LGA-português. Alem disso, o dicionário de Trier é o único bidirecional: sua segunda parte é um dicionário LGA-português.

  •  Se o VLB é o dicionário de LGA mais rico (cerca de 9.300 verbetes), o dicionário de Trier é o segundo em riqueza de verbetes (cerca de 6.100 na primeira parte, português-LGA, mais 2.500 na segunda, LGA-português). O dicionário de Eckart contém uns 5.700, a Prosódia, cerca de 5.480 verbetes. Todos estão organizados na ordem alfabética dos verbetes, com exceção da segunda parte do dicionário de Trier, a qual mostra a ordem mais ou menos alfabética das sílabas finais dos verbetes de língua geral, como se fosse um dicionário de rimas. Seguem-se um ao outro grupos de verbetes organizados na ordem -ab, -aé, -aí,-aí/-aú, -am-, -an, -ang, -áo, -ar, -aú, -ba/-aba, etc.

  • 4.1. O dicionário de Trier, manuscrito 1136 da Biblioteca Municipal de Trier (Alemanha), identificado em 2012 como manuscrito de um dicionário de LGA, consta de um caderno, com encadernação de couro, de uns 30 por 21 cm. A numeração das páginas está feita só na parte da frente das páginas, de maneira que uma página numerada inclui o verso da anterior. As páginas assim dobradas, tanto da primeira parte (págs. 1-48) como da segunda (págs. 48-65), estão subdivididas em quatro colunas. Esta disposição explica a grande riqueza de verbetes em aparentemente poucas “páginas”. O dicionário, apesar das numerosas correções, rasuras e aditamentos em letra menor, na mesma linha ou interlineares, parece estar escrito por uma única mão. Logo no primeiro fólio se lê, em letras grandes, a nota “Meirinho” e o ano 1756, isto é, a confirmação de um servidor judiciário que, no momento de confiscar o manuscrito depois das primeiras prisões infligidas a certos jesuítas em 1755 e 1756, “meirinhou” o manuscrito. Isto significa que o dicionário deve ter sido compilado antes de 1756. Porém, se não se tivesse devolvido depois, ele provavelmente não se teria conservado (ver Arenz).

    4.2. O dicionário que leva, na página 1, o título Vocabulario da Lingua. Brazil está conservado na Biblioteca Nacional de Lisboa (cod. 343). Trata-se de um caderno de 172 páginas. Nas margens amplas encontram-se muitos aditamentos, porém, em comparação com o dicionário de Trier, praticamente não há correções e expressões riscadas. Se o dicionário de Trier dá a impressão de obra não acabada, diariamente modificada, o Vocabulario da Lingua aparenta ser uma obra escrita com mais calma e serenidade. Na sua totalidade, o dicionário parece estar escrito por uma única mão. Como pudemos verificar pelo cotejo da letra do dicionário com a de um autógrafo de Anselm Eckart, incluído em Papavero & Porro 2013, Eckart é o autor desse dicionário. Sabemos que Eckart se encontrava nas missões jesuíticas da Amazônia entre 1753 e 1757, praticamente no mesmo período que o autor do dicionário de Trier. Nas págs. 2-166 do Vocabulario da Lingua. Brazil temos um dicionário português-LGA e nas págs. 167-172 aditamentos de verbetes português-LGA antes omitidos.

    4.3. Chamamos de Prosodia um dicionário manuscrito de LGA em cuja introdução, na página 1, o autor anônimo o qualifica como “pequena Prosodia da Lingoa”. Por sua forma exterior, é um caderno de 110 páginas duplas organizadas como as do dicionário de Trier: a numeração é feita por páginas duplas, o número encontrando-se no canto superior da página de frente, incluindo a página anterior, isto é, o verso da folha anterior. Cada página tem duas colunas, de maneira que as 110 páginas duplas totalizam 110 X 4, isto é, 440 colunas. As páginas 1-85 contêm um vocabulário português-LGA. Segue (pp. 85-86) uma lista alfabética português-LGA das partes do corpo. Ficam vazias as pp. 87-88, e nas pp. 89-102 encontramos coplas rimadas em LGA sobre temas vários, profanos, seguidos, nas pp. 102-110, por coplas rimadas em LGA com temática religiosa. Tanto o dicionário como as coplas rimadas dão a impressão de uma obra acabada; há poucos aditamentos interlineares, e praticamente não há correções.

    5.1. O cotejo dos três dicionários mencionados deve-se aos paralelismos observados entre eles. Em primeiro lugar, os verbetes que se seguem em ordem alfabética muitas vezes são os mesmos, mostrando até os mesmos exemplos. No grupo AB, por exemplo, vemos que os verbetes 1 a 7, numerados no dicionário de Trier, são praticamente idênticos aos do de Eckart, inclusive as correspondências em latim; e os da Prosodia são muito similares:

     

    Trier: 1 Aba do vestido. Aóba rembiúba, do chapeo, ala galeri. applica vocem: rembiúba.

    Eckart: Aba do vestido. Aoba rembiuba.

    Prosodia: Aba do vestido. Aóba rembiúba.

    Trier: 2 Abado ou prelado. Abarè goaçù.

    Eckart: Abade ou Prelado. Abarégoaçú. Paý goaçú.

    Prosodia: Abade ou prelado. Paí goaçù

    Trier: 3. Abafar, cobrir. Aiaçöi

    Eckart: Abafar ou cobrir. Aiaçöí.

    Prosodia: Abafar cobrindo. Aiaçöí

    Trier: 4. Abainhar. Amoybýc v amamán v açambé maman plicare fimbriam

    Eckart: Abainhar, plicare fimbriam. Amöybýc v Amaman _ _ _  Açambémaman. “Einsämen [expressão em alemão da época]

    Prosodia: Abainhar. Amoybýc. ł Amaman

    Trier: 5. Abaixar a cabeça chamando ou assentindo. aieaitýc v acanhagitýc. cum præp. cupé.

    Eckart: Abaixar a cabeça consentindo. Aiëaitýc v Anhacangaitýc. pede çupé

    Prosodia: Abaixar a cabeça chamando ou aconsentindo. Aiëaitýc. ł Anhacangaitýc. pede çupé

    Trier: 6. Abaixar, id est fazer fundo. Amoybyçóc. Act

    Eckart: Abaixar, fazer fundo. Amoybyçóc, ou a cabeça fazendo cortesia.

    Prosodia: Abaixar. Amoybyçóc. A.

    Trier: 7. Abaixar, ex alto demittere. aimogýb. Act

    Eckart: Abaixar, ex alto demittere. Aimogýb. Amogoegŷb, Amojejŷ

    Prosodia: ‒

    Eckart, em geral, está mais conforme com a Prosodia do que o autor do dicionário de Trier. Porém, este e Eckart concordam tão patentemente com a Prosodia que uma dependência comum parece evidente. A razão de presumir esta dependência e não a inversa, a da Prosodia de Eckart ou do Trier, se deve ao fato de o autor da Prosodia mostrar uma segurança incomparável no manejo da LGA. Ele deve ter permanecido no Norte brasileiro por muito mais tempo do que os dois outros missionários. São as coplas rimadas da segunda parte da Prosodia que testemunham o domínio da língua e as múltiplas experiências da vida de um missionário europeu, que conhecia claramente os costumes da sede dos jesuítas de São Luis do Maranhão. Se o Vocabulário da Língua. Brazil de Eckart e o dicionário de Trier são obras contemporâneas dos anos 50 do século XVIII, a Prosodia deve datar de alguns decênios anteriores a estes, talvez do ambiente do padre João Felipe Bettendorff, autor de um famoso catecismo, muitas vezes citado pelos autores dos três dicionários estudados aqui.

    5.2. As três obras, a Prosodia, o Vocabulário da Língua. Brazil e o dicionário de Trier formam um grupo de dicionários de LGA que documenta o estado da língua na última década da presença dos jesuítas na Amazônia. O que sabíamos até agora sobre esta época resultava da documentação inicial, do VLB, do muito lacônico Caderno da Língua, de João de Arronches, de 1739, e do Vocabulario da Lingua Brasilica de certo Frei Onofre, de 1751 (publicado em 1795). Com os três dicionários aqui examinados aumenta, de maneira considerável, o conhecimento sobre a LGA dos anos entre 1750 e 1757. Todos os demais dicionários de cuja existência temos conhecimento datam da época posterior à presença dos jesuítas na Amazônia; alguns deles ainda não foram analisados por linguistas.

    Referências bibliográficas

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    PAPAVERO, Nelson & BARROS, Cândida. O “Vocabulario da lingua Brazil” (Códice 3143 da Biblioteca Nacional de Portugal) e os Zusätze do Pe. Anselm Eckart, S.J. (1785): Obras do mesmo autor. In: Papavero/Porro (orgs.), Apêndice V, p. 335-351, 2013.

    PAPAVERO, Nelson & PORRO, Antônio (orgs.). Anselm Eckart, S. J., e o Estado do Grão-Pará e Maranhão Setecentista (1785). Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2013.

    RODRIGUES, Aryon. “As línguas gerais sul-americanas”, Papia 4,2: 6-18; 1996.

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