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O Heroe: periodico quinzenal consagrado exclusivamente á classe operaria

por Maria Ione Caser da Costa
O ano era o de 1880. No dia 15 de agosto foi lançado no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, um periódico redigido pelo tipógrafo José Miguel de Freitas, com o título O Heroe. Logo abaixo do título aparece grafado a periodicidade: periodico quinzenal, seguido do subtítulo consagrado exclusivamente á classe operaria.

Publicação escrita por tipógrafos, se destinava aos assuntos concernentes à categoria profissional. Buscavam apresentar seus direitos e inseri-los em proveito da arte e da instrução, sem distinção de classe social, mantendo diálogo entre seus pares, e as classes menos favorecidas.

No universo oitocentista, período em que ainda existiam pessoas escravizadas, alguns trabalhadores livres, tinham acesso às informações e às máquinas tipográficas. O responsável por O Heroe pretendia, além de difundir a cultura, lutar pelo fim da escravatura. Os tipógrafos tiveram um papel importante no processo de abolição da escravatura, pois tinham acesso aos meios de impressão. Alguns anos depois puderam se sentir como parte ativa no movimento que deu fim à escravidão. Eis o texto do primeiro editorial do periódico:

 
Este pequeno jornal não se arrojaria de certo á apparecer á tona da publicidade, se não fôra a vontade decidida de alguns typographos, que procuram preencher por meio das letras, que lhes servem de leito ao corpo durante as horas do trabalho de todos os dias, a lacuna intellectual que se nota nas classes menos favorecidas da fortuna, que, como todas as outras, deveria, trilhar uma estrada mais conceituada no espirito publico.

Dizemos – pequeno – porque é o producto de um limitado espaço de tempo que resta ao operário do afam diário.

Mas – grande – porque sómente a vontade de aprender, os desejo immenso de saber, os guiou a este commettimento, a que muitos taxarão de insensato, attendendo ao modo porque a imprensa artística entre nós não vinga, devido talvez a falta de união que sempre reinou entre as classes prolectarias, dignas de melhor sorte.

Consagrando exclusivamente suas columnas aos interesses das classes operarias, o HERÓE, espera merecer a coadjuvação de todos e especialmente o apoio dos operários.

É justo o nosso appello. Oxalá que o indifferentismo não seja a maldicta retribuição do sacrifício empregado, agora que principiamos de ensaiar os primeiros passos na estrada da vida, agora, que precisamos dos impulsos públicos indispensaveis a todos os que vão timidamente impetrar um modesto logar no vasto império das letras, com uma unica aspiração – mas santa, nobre, justa – a de aprender para corrigir.

Da coleção de O Heroe preservada na Biblioteca Nacional, e que pode ser consultada na Hemeroteca Digital, estão os primeiros seis fascículos publicados no ano de 1880 e dois do ano de 1881. Todos do primeiro ano de publicação, apresentam em destaque abaixo do título, o nome do tipógrafo responsável: José Miguel de Freitas. Nos dois fascículos do segundo ano de publicação, isso já não acontece. O periódico passa a ser semanal, mantendo o mesmo programa do ano anterior.

Inicialmente editado pela Typographia d’O Heroe, situada no número 44 da rua de São José. Do número 4, de 29 de setembro de 1880, ao número 6, de 31 de outubro do mesmo ano, a responsabilidade pela edição é da Typographia Cosmopolita, localizada na rua Senhor dos Passos, nº 49.  Os dois exemplares de 1881 são publicados pela Typographia Montenegro, à rua de São José, nº 9. Estes dois últimos fascículos estão com muitas marcas de uso, faltando partes de algumas páginas, dificultando, desta forma, a leitura completa do texto.

Os seis primeiros números de O Heroe apresentam um extenso texto, dividido em capítulos, que conta a “História da Typographia”. Nos dois exemplares do ano de 1881 passam a publicar um folhetim e também alguns classificados, com anúncios de médicos e tipografias. O periódico publicou também poesias, contos, pensamentos e textos favoráveis à abolição da escravatura.

Colaboraram nas páginas de O Heroe, José Palmella (1838-1932), Manoel Germano Brandão, Manoel Francisco da Trindade (1832-1884), Manoel Talinga, Manoel Joaquim da Cunha Telles e João Guilherme Vasques, dentre outros. A seguir o soneto Ella..., assinado por Cunha Telles.

Ella...

Dos preludios de instrumentos sublimados
Tirou Deus a sua voz sonora e pura!...
E dos labios dos archanjos a doçura
Que se nota em seus affectos delicados?

E dos átomos que refulgem prateiados,
De seus olhos formou Deus a luz divina!
Tem um todo tão celeste esta menina,
Que me traz os pensamentos enlevados...

Tem nos labios o sorrir dos cherubins...
E na alma essa fragrancia de pureza
Que se espalha lá nos celicos jardins!

É mais linda do que os proprios seraphins!
Tem dos céos todas as graças e belleza...
E se reclina sobre um leito de jasmins!

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