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O Recreador: semanario litterario, noticioso e recreativo

por Maria Ione Caser da Costa
O semanario litterario, noticioso e recreativo, intitulado O Recreador, foi lançado no então Distrito Federal, na segunda metade do século XIX, mais exatamente em 1864, período Imperial. Seu editor e também responsável pela redação foi Luiz Garcia Soares de Bivár[*] (1843-1899), e foi impresso pela Typographia de Domingos Luiz dos Santos, localizada na rua Nova do Ouvidor, nº 20, atual Travessa do Ouvidor.

Não apresentou valor para venda do exemplar avulso. Para as assinaturas anuais era cobrado 8 mil réis, as semestrais e trimestrais valiam 4 mil réis e 2 mil réis, respectivamente. Sempre com pagamento antecipado, as assinaturas poderiam ser efetivadas na tipografia ou na rua Nova do Sabão, nº 59. Rua Nova do Sabão estava localizada na Cidade Nova, região central do Rio de Janeiro. Mudou o nome para rua Visconde de Itaúna, que deixou de existir com a abertura da Avenida Presidente Vargas.

No acervo da Biblioteca Nacional não constam os nove primeiros exemplares deste título. A coleção preservada na Seção de Obras Raras, inicia com o número 10, publicado em 6 de janeiro de 1865. De acordo com nota colocada logo abaixo do título, “publica-se em dias indeterminados, e pelo menos quatro vezes por mez”, pode-se concluir que o lançamento d’O Recreador foi na última semana de outubro de 1864.

Constam no acervo e podem ser consultados pela Hemeroteca Digital, 12 fascículos, sendo o último da coleção, o número 24 de 16 de abril de 1865. Além dos 9 primeiros exemplares, faltam também os números 19, 22 e 23.

Editado por homens, veicula em suas páginas, inseridos nos textos e nos poemas, normas de boa conduta para as leitoras, oferecendo-lhes regras e atitudes úteis ao cumprimento de seus papéis de donas de casa e mãe. Em artigo publicado no número 11, apresenta o seguinte texto:

A graça é enganadora e a formosura é vã: a mulher que teme ao SENHOR é a que será louvada. Sublime é o destino das mães de familia, e importantes os seus deveres! São ellas, que ensinam os primeiros passos de seus filhos para a virtude, que suffocam suas más inclinações; que corrigem os seus desvarios, persuadindo a pratica do bem com docilidade e com fructo. Á ellas deve a patria em grande parte filhos prestantes, mediante as inspirações de todas as virtudes, que a Religião consagra!

Com seis páginas em cada exemplar, O Recreador foi diagramado em duas colunas separadas por um fio simples. Não apresentou ilustração.

De acordo com o editor e responsável pela publicação, em texto publicado no dia 5 de fevereiro de 1865, O Recreador entra no “segundo trimestre de nossa existencia jornalistica, com intima convicção de que temos procurado preencher satisfactoriamente a tarefa que tomámos”. E continua informando que “sem nunca haver entrado nos arraiaes dos partidos e da politica, nem ferido as reputações alheias, tem tratado de assumptos de interesse geral e procurado tornar-se ameno e agradavel aos amadores da litteratura e variedades.”

Publicou contos, romances, notícias diversas, inclusive algumas vindas de Portugal e da Itália, adivinhações, charadas e poesias. Alguns de seus colaboradores foram Pacheco de Sá, J. S. dos Reis Montenegro (Joaquim Silvério), Alvarenga Netto (José Custodio de Alvarenga Netto, [1845]-?), Candido Manoel de Oliveira Dias, A. J. de Souza, Pereira da Cunha, Soares Franco Junior (1829-1867), João de Lemos, João Augusto do Amaral Frazão e Mendes Leal Junior. A seguir o poema Hontem e hoje assinado por Alvarenga Netto.

Hontem e hoje

Hontem a vida no passar ligeira
Cheia de gozos, de perfumes santos;
Hoje um poeta que agonisa triste,
Chorando áo pezo de martyrios tantos.

Hontem a aurora despontando bella,
Sorria ao louco que buscava amores;
Hoje a borrasca tenebrosa e rija
Electrisada lhe ceifou as flores.

Hontem os echos da sonora lyra
Harmonisavão meus singelos hymnos;
Hoje uma harpa recosta á campa,
Funerea e triste não tem sons divinos.

Hontem os sonhos n’um dormir sereno,
Inda embalavão meu pensar de joven;
Hoje experimento pesadellos tristes
Que o meu sentido sem ter dó revolvem.

Hontem as creanças n’um amor primeiro,
Me affagavão este pobre peito;
Hoje a descrença requeimou-me o seio,
No fogo lento do voraz despeito.

Hontem os risos, os gentis folguedos,
Sonhos dourados d’um futuro aéreo;
Hoje um fantasma percorrendo a vida
Busca descanço n’esse chão funéreo.

[*] Luiz Garcia de Bivar, além de trabalhar como censor, era também tradutor de peças teatrais. Conferir https://www.gov.br/bn/pt-br/atuacao/pesquisa-e-editoracao/programa-nacional-de-apoio-a-pesquisa/pnap-2008/marianaamorim.pdf.

 

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