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O Sorriso: jornal de modinhas, recitativos, lundús e poesias diversas

por Maria Ione Caser da Costa
No dia 4 de janeiro de 1872 era lançado no Rio de Janeiro, então capital do império do Brasil, o periódico O Sorriso: jornal de modinhas, recitativos, lundús e poesias diversas. Foi impresso pela Typographia Fluminense, que estava localizada na rua Nova do Ouvidor, número 20, atualmente Travessa do Ouvidor. A partir do número 7, de 16 de março, o semanário passa a ser impresso pela Typographia de J. M. de Aguiar, situada na rua da Ajuda, 106.

Na Biblioteca Nacional estão preservados 13 fascículos, sendo o último, o número 15, de 27 de abril de 1872. Todos os exemplares podem ser consultados pela web, no site da Hemeroteca Digital. Os números 13 e 14 não constam do acervo.

Medindo 21cm x 15cm, cada exemplar foi confeccionado com oito páginas em coluna única, onde estão impressos de forma harmônica, os versos dos recitativos, modinhas e lundus. De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa[*], recitativo é um gênero de canto declamatório, surgido no final do século XVI, que passou a integrar óperas, cantatas e oratórios ou uma poesia a ser recitada com ou sem acompanhamento de música. Modinha é uma variedade de canção tradicional urbana portuguesa e brasileira, surgida no século XVIII com temática inicialmente espirituosa e depois amorosa, com predominância do modo menor. E lundu é a designação de várias canções populares inspiradas em ritmos africanos que foram introduzidas em Portugal e no Brasil a partir do século XVI.

O editorial, ocupando toda primeira página, inicia com letra capitular, ornada por coluna de flores e folhas, com o seguinte texto:

São sempre bellas e agradaveis, essas canções que os poetas e musicos harmonisam para entretenimento nas horas de prazer!
Cada estrophe é um pensamento de amor que o vate dirige áquella que attrahio o seu olhar e cada nota o echo de su’alma que o eleva á dulcissimas regiões!
E, entoar uma canção, dessas cançoes cheias de sentimentos ou alegria, imaginadas por jovens que procuram immortalisar seus nomes no cultivo das musas, é provar que temos nossa harmonia, e que o céo e a natureza desta terra é assaz propicio para fazer de entre nós – germinar o talento e a inspiração.
Assim, pois, não havendo presentemente uma colleção pura dessas harmonias que jazem dispersas, creámos este jornal o qual se dedicará a tão nobre quão agradavel fim, e o offerecemos á sociedade brazileira.
Como se vê, intitula-se o Sorriso, é este o primeiro numero e d’hora avante sahirá todos os Domingos, com oito paginas e nitidamente impresso.

A partir do segundo exemplar, os responsáveis pela publicação, que se mantém no anonimato, iniciam a venda das assinaturas trimestrais, pelos valores de 1$000 para a corte e 1$500 para as províncias.

Colaboraram com recitativos e modinhas L. N. Fagundes Varella (1841-1875), Octaviano Hudson (1837-1886), Oliveira Bastos, Manoel Ferreira e J. S. Marcellino. Os lundus receberam colaboração de Thomaz Ribeiro (1831-1901), Laurindo Rabello, Luiz José Cardoso, Paula Brito (1809-1861), Faustino Xavier de Novaes (1820-1869) e Alvares de Azevedo (1831-1852). Alguns recitativos não receberam assinatura. A seguir o poema “Se eu morresse amanhã”, de Alvares de Azevedo, publicado na seção de “Modinha”.


Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta gloria presinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céo azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me battera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ancia de gloria o dolorido afan...
A dor no peito emmudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

 

[*] HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001.

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