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O Sorriso: periodico litterario e noticioso

por Maria Ione Caser da Costa
O Sorriso: periodico litterario e noticioso foi lançado no nordeste do Brasil, na década de 1880, no estado da Parahyba, respeitando a grafia da grafia da época. Os responsáveis pelo periódico, partilhavam com seus leitores na Paraíba oitocentista, além das notícias locais, matérias sobre a arte literária, para que pudessem acompanhar o que estava sendo publicado nos grandes centros, enriquecendo o sistema literário local e ajudando na construção de valores.

Impresso pela Typographia do Liberal Parahybano, o escritório da publicação estava situado na rua Duque de Caxias, nº 68, local para onde os interessados deveriam enviar todas as correspondências relativas ao periódico, pois funcionava também como redação. O Sorriso tinha correspondentes em Paris, no Rio Grande do Norte e no Rio de Janeiro.

O número avulso foi vendido por 160 réis. As assinaturas mensal, semestral e anuam valiam respectivamente 500 réis, 3$000 e 6$000 para a capital, enquanto que para outros estados os valores cobrados recebiam um pequeno acréscimo. Os leitores que conseguissem 10 assinantes para O Sorriso, teriam direito a uma assinatura grátis. Aos assinantes era franqueada uma coluna, mas somente para publicações literárias.

Logo abaixo do título, está grafada, como epígrafe, a frase de William Shakespeare: Ignorance is the curse of God, Knowledge the wing wherewith we fly to heaven. Retirada de uma de suas mais importantes obras, “Rei Lear”, pode ser traduzida como: “A ignorância é a maldição de Deus, e o conhecimento é a asa com que voamos para o céu”.

A publicação possui quatro páginas, e cada uma delas diagramada em quatro colunas separadas por um fio simples. Não apresentou qualquer ilustração.

No acervo da Biblioteca Nacional não constam exemplares deste título. Os três números que podem ser consultados na Hemeroteca Digital, foram digitalizados a partir do microfilme negativo. São eles: os números 11, 13 e 28, do segundo ano de publicação, editados nos dias 20 de março, 13 de abril e 14 de agosto de 1887, respectivamente. Os originais pertencem à Fundação Joaquim Nabuco e foram microfilmados a partir do projeto do Plano Nacional de Microfilmagem de Periódicos Brasileiros – PLANO. O PLANO, criado em 1978, numa parceria entre a Biblioteca Nacional e a Fundação Casa de Rui Barbosa, objetiva identificar, localizar, recuperar e preservar, através da microfilmagem, o acervo hemerográfico brasileiro. Em nossas pesquisas não foram encontrados outros exemplares.

Não é possível fazer a leitura da íntegra dos textos publicados em O Sorriso, pois algumas páginas não estão legíveis, muito provavelmente devido ao estado físico do original, causado pelo manuseio excessivo.

O Sorriso publicou folhetim, crônicas, acrósticos, notícias sobre o cotidiano da província, anúncios e poesias. Colaboraram em suas páginas Sebastião Siqueira, Antonio Elias Pessoa (?-1875), M. Machado, P. S., P. F., F. Varella, dentre outros. A seguir o poema “O Voo do Pensamento” assinado pelo poeta paraibano Antonio Elias Pessoa, com data de 31 de Março de 1887, no estado da “Parahyba”.

O Voo do Pensamento

Ás vezes quando á tarde inconscientemente
Eu volvo um olhar vago p’r’as bandas do poente,
E o quadro grandioso, sublime, encantador
Do sol que envia á terra seu ultimo fulgor,
Contemplo extasiado, eu sinto que minh’alma
Repleta de alegria suave, estranha e calma,
Rompendo uma barreira de lôdo e de materia,
Que a prende ao mundo physico, ao mundo da miseria,
Eleva-se n’um vôo sereno, harmonioso,
A’s regiões ignotas do puro e santo goso.
Qual aguia que se altêa da rocha de granito,
E vôa... sobe... e perde-se nas dobras do infinito!

Então ella contempla de lá campadecida
As scenas lutuosas da vil terrena vida:
E vê por toda parte o crime altivo erguer-se,
E campear impune, sem já mesmo esconder-se;
O vicio se ostentando nas praças, nos salões,
E o virus seus pestifero nos puros corações
Inoculando; a virgem p’los meios mais crueis:
Tirada ao lar paterno e lançada nos bordeis;
Os principios eternos da honra e da justiça
Ao jugo succumbindo do orgulho e da cobiça;
Emfim ella vê tudo o que ha de mais sagrado,
O velho sem arrimo, o orphão desgraçado,
A infeliz viuva, o militar tão bravo,
E o homem reduzido ao estado vil de escravo,
Na sombra perecendo de dor e privação,
Sem ter quem os console, nem dê-lhes proteccão!

Mas, oh! contraste immenso! Ao passo que com magoa
Na terra só descobre miseria, dor e fragôa,
Minh’alma [ilegível] p’ra o sabio Creador
Do homem, do insecto, da fera, ave e flor,
Divisa n’Elle o typo do bem incomparavel,
Justiça absoluta, suprema, veneravel,
A fonte inesgotavel [ilegível]
O poder infinito, a eterna omniciencia!

Mas ai! curtos momentos de placido scismar,
Indefinivel, mago, suave, salutar!
Seismar que dá-nos forças p’ras luctas do viver,
Mistura admiravel de dor e de prazer!
Depois que toda some-se do dia a claridade,
E a noite com seu manto de crepe a terra invade,
E a brisa que perpassa, sussurra tristemente,
E a onda beija a praia n’um murmurar plangente,
Minh’alma abaixa o vôo, deixando pezarosa
O mundo a que se erguera tão calma e tão ditosa!
E desce... e desce mais... e volta a realidade
Ao mundo dos tormentos do vicio e da maldade!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Embora! Ao menos fica gratissima lembrança,
No peito novo alento, mais crença e mais esp’rança

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