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A Cruzada: critica, litteraria e chistosa

por Maria Ione Caser da Costa
Lançado na Bahia em 6 de junho de 1889, A Cruzada: critica, litteraria e chistosa foi um semanário que teve como redatores Santos Junior, Pinho Paraizo e Evangelista Pereira. O proprietário era José Bonifacio.

O valor para venda do número avulso do periódico era de 60 réis, e a assinatura mensal valia 500 réis.

A redação de A Cruzada funcionava na Ladeira da Conceição, para onde os interessados deveriam encaminhar “todo e qualquer negocio tendente a esta folha”.

Com um editorial intitulado Nós, colocado logo na primeira página, os jovens editores sintetizam suas melhores intenções para com a Pátria e os que nela residem.

Enquanto os respeitaveis anciãos, heroes encanecidos e já exhaustos da lucta pela Patria vêem que o tempo, esse viajor incansável de uma estrada sem fim, aponta-lhes os solares do occaso, a juventude não se deve conservar ociosa no berço do indifferentismo. Eis porque, muito pequeno que somos, ousamos sahir da orbita de nosso valor negativo e entrar na peleja que ennobrece – a da imprensa, e no combate que honra – o jornalismo
A Patria tem uma esperança, e esta esperança somos nós, os filhos da nova idade que admirando as pegadas brilhantes de nossos antepassados, procuramos honral-os, glorificando a Patria.
Iremos avante.
Á mocidade não deve faltar ardor, nem força; é, pois, necessário que colhamos flores que ornem a fronte laureolecida da Patria, ainda que para isto tenhamos de atravessar oceanos e abysmos de espinhos e duros cardos. [...]
Agora dir-nos-hão, talvez: “Tanto pela Patria e nada pelo povo?!”
Não, senhores, a Penna que defende a Patria é arma que protege o povo.
O que nos inspirará mais cuidado senão a grandeza do povo?
E o que é a grandeza do povo senão a elevação da pátria?
Então seja dito uma vez para sempre que nascemos do povo, e viveremos para o povo, por quem luctamos.
Instruir o povo – eis nossa gloria; defender os fracos e os opprimidos, eis nossa missão; accusar os criminosos e distinguir o mérito eis nosso dever.

Na Biblioteca Nacional só existe este exemplar, o número um. Nossas pesquisas em outras fontes não conseguiram localizar nenhum outro número.

Medindo 24cm x 16cm, com oito páginas, A Cruzada foi diagramada em duas colunas divididas por um fio simples. Não apresenta qualquer ilustração.

Na página dois, sem autoria, está também um texto de apresentação, este com o título A’s leitoras. São palavras ternas e amáveis, voltadas para o publico feminino.

Com muito prazer vimos doce e respeitosamente depor a interessante Cruzada em vossas pequeninas e assetinadas mãos.
Eil-a ahi, não a desprezeis, é a mocidade cheia de calor, que á par da linguagem forte, viril e vehemente para os grandes assumptos de interesse da Patria, tem phrases doces, leves e delicadas para vós, a quem se curva nobremente para render um culto fervoroso e santo o culto do amor.
É pois com a Cruzada em punho que nos dirigimos a vós, - é a juventude que representamos, promptos sempre para dar-vos uma palavra de adoração, esperando sempre um riso doce, fagueiro e divino para mitigar-nos um momento as durezas da liça.

E continuam explicando o verdadeiro caos que seria a vida deles, os escritores e os jornalista, sem a existência das ilustres leitoras. O mundo das letras não teria nenhum significado. Finalizam os afirmando que somente “vós sabeis repartir doçuras que suavisam os agrores que supportamos aqui n’este hospital a que se chama mundo; por isso esperando de vós um voto sincero e ardente de animação, repetimos, vimos depor em vossas mãos o nosso humilde periódico. ”

Colaboraram em A cruzada Evangelista Pereira, José Bonifácio e Pinho Paraizo. Nas páginas da publicação estão charadas, enigmas, crônicas e poemas.

A título de ilustração, o excerto de um poema de Evangelista Pereira publicado na página sete.


Saudação

É brilhante a gloria immensa
Que vindes de conquistar!
Que traduz viril sentença
Que diz-vos: - Povo marchar!
- Ide subindo altaneiros,
- Á gloria com heroicidade,
- Lançae por terra os ergástulos
- Que vos roubam a magestade –
Eia! ouvi: - mas agora,
De jubilo, cantae. É hora!

É hora em que os fastos nobres
Mais prenhes de novos feitos,
Apontando um povo grande,
Apontam de glorias eitos!...
É que após uma honra
Se erguem filas de glorias
E depois de uma memória
Nos vem dos céos as victorias!...
- Aqui há datas de soes
- N’um mundo eterno d’heróes.

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