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A Esperança: órgão litterario, recreativo e noticioso

por Maria Ione Caser da Costa
Lançado no dia 7 de outubro de 1907, em Florianópolis, capital catarinense, A Esperança: órgão litterario, recreativo e noticioso foi um periódico que teve a pretensão de ser quinzenal. Seu redator chefe foi Gentil Montenegro e o redator secretário, Claudiano Cavalcante.
A publicação aceitava compra de assinaturas. As assinaturas de moradores da capital poderiam ser mensais, pelo valor de 1$000 e para os residentes no interior deveriam ser semestrais e valiam 7$000.

Uma nota assinada por “a redação” informava que:

Satisfeitas todas as despesas deste periódico, o excedente das assignaturas e vendas reverterá em favor da Associação de Caridade além de esmolas que serão entregues aos presidentes das Conferencias de N. S. do Desterro e S. Vicente de Paulo, para ser destribuídas com as famílias por ellas socorridas, motivo pelo qual esperamos o auxilio do caridoso povo catharinense para tão sublime missão.

Logo a seguir, um editorial que apresenta aos leitores o novo periódico. Seus editores se colocam como lutadores na batalha da vida, mas transparecem um pouco da insegurança que sentem nesta tarefa árdua de lançar uma publicação. E apontam também para o mais difícil, a tarefa de manter essa publicação circulando por um grande período de tempo.

Em nossa terra sempre que aparece um jornalzinho seja para esposar a santa causa de defender os interesses do povo, ou seja para dedicar-se ao ingrato ramo da literatura, - depara logo estas palavras, que são uma imitação da tragica legenda que tinha à porta, o inferno de Dante: “a tua duração será efêmera, não conseguirás sahir do embryão”!
E a mór parte das vezes isto sucede.
Há um proloquio que assegura “Luctar é vencer”, porem os homens mais empíricos têm conseguido demonstrar que nem sempre o resultado da lucta é vitoriosa. Quantos há por aí que trabalham incessantemente e no final da lucta quando deveriam receber o premio de seu esforço, - emaranham-se nos meandros da adversidade, vencidos, aniquilados. [...]
É por querermos progredir que fundamos A Esperança. Não alimentamos vaidade alguma, apenas desejamos não ser estéreis desejamos ensaiar os primeiros vôos para a lucta da imprensa; lucta esta que parece amena, mas que é cheia de responsabilidades.[...]
Apresentando nosso publico, rogamos-lhe que seja complacente para conosco, relevando as faltas que por acaso cometermos na dura missão á que nos impusemos.
Aos nossos colegas de imprensa pedimos permissão para ao seu lado luctar tambem.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional podem ser consultados apenas dois exemplares de A Esperança. O primeiro e o segundo números publicados. Seus originais não se encontram no acervo da BN. Apenas o microfilme que foi feito pela equipe da BN no final da década de setenta, a partir de um convênio com o Plano Nacional de Microfilmagem de Periódicos Brasileiros – PLANO. Este convênio em parceria com a Fundação Casa de Ruy Barbosa tinha o objetivo de identificar, localizar, organizar, recuperar e preservar, através da microfilmagem, o acervo hemerográfico brasileiro.

Vários foram os colaboradores d’A Esperança. Em suas páginas podem ser encontradas crônicas, poemas, charadas, concursos, notícias variadas e classificados. A parte literária se sobressai aos demais temas.

Dos poemas que podem ser consultados nas páginas de A Esperança, selecionamos um soneto de Claudiano Cavalcanti, intitulado “Lamentação”.


Lamentação

Hontem ditoso juncto aos meus cantava
Ouvindo a vóz divina dulçurosa
De minha mãe que bella derramava
Por sobre mim mil pétalas de rosa.

Tudo sorria em torno a m’m outr’ora;
N’esse viver angelico e profundo,
A ingratidão não via e como agora,
Eu não tinha só no ignóbil mundo.

Do velho pae amante da verdade
De minha irmã formosa e pequenina
Beijos eu tinha sempre de bondade.

Mas foi se tudo emfim e nesta sina
Revejo o lar paterno com saudade,
Na falda escura de fatal colina.

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