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A Ideia: revista critica, noticiosa e litteraria

por Maria Ione Caser da Costa
A Ideia: revista critica, noticiosa e litteraria foi mais uma revista literária que circulou no Brasil no ultimo quartel do século XIX. Lançada na Paraíba do Norte, antiga denominação da atual capital paraibana João Pessoa, no dia 5 de outubro de 1879, A Ideia pode ser considerada como fonte informativa de parte da história da literatura local.

Publicação quinzenal, foi impressa na Typographia da “Ideia”, situada na rua da Viração, n. 15 e disponibilizada pela Livraria Economica de Manoel E. Pompeo d’Oliveira, que estava localizada na rua Conde d’Eu, n. 56. Local que deveriam se dirigir os interessados em solicitar assinaturas ou solucionar os problemas relativos ao periódico.

Não foi possível saber os nomes dos redatores ou proprietários de A Ideia. Sabe-se apenas que era “redigido por uma pleiade de moços estudiosos, que sempre anhelantes de instrucção, - nas horas de lazares - procurão assim melhor cultivo às lettras de que se fazem dignos representantes e extrenuos deffensores”.

Os valores das assinaturas variavam. Para a capital e interior da província cobrava-se 5$000 nas assinaturas anuais, 3$000 nas semestrais e 2$000 nas trimestrais. Já para aquelas fora da província os valores mudavam para 6$000, 4$000 e 3$000 respectivamente para a anual, semestral e trimestral.

Os textos encontrados em A Ideia foram considerados os precursores do processo de produção da prosa e da ficção da Paraíba. Os folhetins estão presentes em suas páginas. Publicou também várias notas fazendo referência a alguns periódicos publicados na Corte, o que demonstra um interesse dos editores em seguir os caminhos traçados por seus iguais.
A Ideia iniciou a publicação se apresentando em um extenso editorial, colocamos abaixo um excerto. A íntegra você encontra na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. O texto não é assinado.

Pede o estylo que se faça um programma.
Donde vindes, o que pretendeis, qual o nosso norte?
Todos quereis saber.
Nós vos poderíamos dizer:
Escutae-nos; de que valem promessas que podem mentir? Mas, não queremos quebrar o estylo, vamos apontar-vos a estrella que brilha em nosso ramo, se já não a descobristes nos horizontes da patria.
D’onde vimos, o que pretendemos, qual o nosso norte? Questões difíceis de responder.
Que o homem é obrigado a pensar, quem o nega? É uma lei natural, desde que elle nasce escravizado pela materia e o seu destino é a liberdade; mas poderão todos os homens pensar igualmente?

Com alguns pequenos trechos ilegíveis, pode-se ler que os editores expuseram os motivos que os levaram a produção de mais um título de periódico. “Teremos uma secção edictorial. Ella será o resumo de todos os nossos pensamentos; n’ella discutiremos as artes, as sciencias, as lettras, a educação, as questões de interesse publico e a política. ” Além da seção editorial, mencionam a existência de seção noticiosa, seção crítica, e seção literária observando que “a literatura é uma das mais belas fazes do progresso da humanidade. Ella é por si suficiente para fazer a gloria de um povo e levar aos mais remotos continentes a reputação de uma nação.”

Na Hemeroteca Digital podem ser consultados cinco exemplares de A Ideia. O número 5 foi publicado no dia 28 de janeiro de 1880. Os fascículos foram diagramados em duas colunas separadas por um fio simples, não apresentando ilustrações em suas páginas. Algumas páginas foram diagramadas em uma única coluna.

O poema abaixo foi publicado no terceiro exemplar e é assinado por Dr. C. Filgueiras com data de novembro de 1879.


Vox Dei

Ao longe, - bem longe, na fimbia celeste,
que banham, constantes, as ondas do mar,
perdidas de vista as terras de oesta,
no êrmo das aguas... – não ouves falar?

Das virgens florestas no ádyto imenso,
por plantas humanas jamais profanado,
si acaso penetras... um frémito intenso
de vozes ignotas – não tens escutado?

Isola-te embhora no ápice erguido
de alpestre rochedo. Na mesta soidão,
não sentes no espaço cruzar-se o zumbido
de notas extranhas que vem e que vão?

Nos proprios colóquios das noutes veladas,
Si em busca de norte perscrutas o eu,
Não ves que das aras ao crime vedadas
Sybilla incruenta te – falla sem véu?

Pois bem, não te illudas! As notas da brisa,
Os vagos rumores dos ermos do mar,
A voz das florestas que freme e deslisa,
O intimo orac’lo que foste evocar,

são leis que ainda cumprem do “fiat” o grito
na faina perene da terra e dos céos.
São echos, apenas, da voz do infinito,
A lenda dos orbes, o verbo de Deus!

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