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A Nebulosa: periodico instructivo, litterario e noticioso

por Maria Ione Caser da Costa
Vindo a lume no dia 05 de maio do ano de 1879, no Rio de Janeiro, capital do Império brasileiro, A Nebulosa, apareceu com o subtítulo informando seu fio condutor para as matérias que pretendia publicar: periódico instructivo, litterário e noticioso.

Publicação quinzenal teve como redatores e proprietários P. A. Nabuco de Araujo e J. Simpliciano M. Braga, e foi impressa na Typographia Cosmopolita que estava situada na rua do Regente, 31.

O cabeçalho, além do título e nomes dos responsáveis, imprimiu a frase: “Toda a correspondencia deve ser dirigida á rua S. José, n. 61, Pharmacia”. Possivelmente local de trabalho de algum dos redatores, pois pesquisando nos periódicos daquela década encontramos informações sobre o acadêmico de medicina P. A. Nabuco de Araujo.

A maioria das matérias publicadas nas páginas de A Nebulosa são de médicos e versam sobre estudos científicos voltados para a área médica. A primeira notícia corrobora com a ideia de serem estudantes de medicina ou médicos. Diz respeito à reforma ocorrida nas “nossas faculdades de Medicina”.

As assinaturas d’A Nebulosa valiam, 1$500 a trimestral e a semestral era vendida pelo valor de 3$000, sempre com pagamento adiantado. Em São Paulo as assinaturas podiam ser feitas na Livraria, Papelaria, Typographia de A. L. Garraus & Comp., localizada na rua da Imperatriz nºs 36/38, como pode ser confirmado em anúncio publicado na página 4 do Correio paulistano do dia 7 de setembro de 1879.

Na Hemeroteca Digital podem ser consultados seis fascículos de A Nebulosa. O último, publicado em 5 de setembro daquele ano. Medindo 52 cm x 46,5cm, todos os exemplares possuem quatro páginas e foram diagramados em quatro colunas. Não apresenta ilustrações.

Em extenso editorial, os editores traçam o programa que pretendem seguir e se apresentam para o público leitor.

É muito natural ao espírito da mocidade, idolatra do bem, do justo, da verdade e do bello, o deixar-se impressionar por todas as idéias nobres e elevadas que traduzem seus enthusiastas anhelos ao bem estar commum e geral – o progresso da pátria -; e aspirando sempre o engrandecimento physico, moral e intellectual da humanidade Ella trabalha muito, o trabalha sempre create e esperançosa para realisar esse desideratum.
Berço fecundo de pensamentos grandes e uteis, a mocidade acalenta-os ao ardôr dos annos elevando-os á meta de suas aspirações, e o meio que mais efficaz e seguro se lhe antôlha para melhor dirigir os seus esforços ao alvo ambicionado de seus desejos é a imprensa, esse pharol luminoso que se levanta soberbo em face dos esplendores do presente e do futuro sobre o pélago revolto á ignorância, que é a confusão e o erro, indicando á intelligencia o porto sempre plácido, égide poderosa da harmonia e da verdade, a instrucção – a synthese do progresso. [...]
Eis porque surge A Nebusosa no céo já tão constelado da imprensa fluminense.
Pequenino e insignificante o novo astro, que apenas desponta no oriente formoso de um firmamento por tantos luzeiros recamado, procurará brilhar e sua luz terá ora os esplendores dos soes, ora os lampejos indecisos dos lumes da noite ao alvorecer daquelles...

Continua o texto discorrendo sobre a vontade de encontrar um local onde possam ver no horizonte “o bem, o justo, a verdade e o bello”. Explicam que não pretendem se filiar a nenhum grupo em especial, mantendo-se independentes e livres. E encerram afirmando que “intelligencias pobres de illustração, de algum medo alheios ás lides da imprensa, os redactores da Nebulosa confiam muito de seu zelo e dedicação e da benevolência da mocidade, cuja colaboração aguarda, e impetram com instancia para completa e utilmente realisarem o seu programma.”

Pelo lançamento de A Nebulosa muitas foram as manifestações e felicitações encontradas nas páginas dos periódicos que circulavam naquele ano de 1879. Como exemplo, destacamos a nota publicada na página 4 do dia 11 de maio daquele ano em O Echo social: publicação semanal critica, humorística e litteraria.

Recebemos o nº 1 de um novo periodico quinzenal que começou a publicar-se n’esta capital em 5 do corrente redigido pelos Snrs. P. A. Nabuco de Araujo e J. Simpliciano Braga sob a denominação de – A Nebulosa –
N’este 1º nº em que já ostenta formato grande, traz um bem elaborado artigo sobre a “Reforma das Faculdades de Medicina”, variada e interessante “Secção Litteraria”, importante “Parte Scientifica” na qual são desenvolvidos artigos de grande interesse pelos Srs. Drs. José Góes, Domingos Freire, M. J. Montenegro e pelos Srs. Sipliciano Braga e Nabuco de Araujo, concluindo pela “Secção Artistica”.
Alem d’estes magníficos escriptos da “Variedades e Noticias”
No seu “programma” diz que – terá por horisontes o bem, o justo, a verdade e o bello -.
Com tal divisa a “Nebulosa” vencerá, por certo, os maiores obstáculos, merecerá a protecção do publico e a veneração das co-irmãs.
Temos certeza de que não deixará de cumprir a promessa e, pois, felicitamos ao paiz por haver recebido mais este batalhador com quem nos confraternizamos.


Vários foram os seus colaboradores, dentre os quais destacamos Dr. Domingos Freire, Dr. Miguel Jorge Montenegro, F. Cantarino, J. de Azevedo, J. A. Pedreira Franco, J. G. Paula Barbosa, J. L. de Almeida, J. Simpliciano M. Braga, Joaquim Bagueira do Carmo Leal, Dr. Mello Moraes Filho, P. A. Nabuco de Araujo e Soares de Meirelles.

Das páginas de A Nebulosa selecionamos um poema de Mello Moraes Filho, que foi publicado na terceira edição.


Bôas noites

As boas-noites da varzea
São filhas da luz, de Deus;
Flores silvestres nascidas
Á livre aragem dos ceos...
Quando Maria, criança,
Tinha na sorte matizes
As boas noites amava,
Eram-lhe as noites felizes!

Bôas noites! Lindas noites
Foram-lhe aquellas de então!
No seio infante a innocencia,
Luz, perfumes no sertão!
Porem, Maria, cresceo,
E do mundo no festim
Não mais achou boas-noites...
As noites de seu jardim!

Ai! Não te lembras, Maria,
Quando no rio da aldeia
Suppunhas vulto de fada
Os raios da lua cheia?...
Eras candura, esperança,
Eras affecto, - eu, carinhos,
Perdeste as azas, chiste,
Sangram-te os pés nos espinhos.

Mas eu, proscripto, estrangeiro
N’este paiz de tristeza,
Te vejo fria de vícios
No tacto da natureza
Choremos, sim, tantos sonhos
Que cedo se esvaeceram,
Com as boas-noites da varzea
As nossas noites morreram!

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