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A Rua: semanário ilustrado

por Maria Ione Caser da Costa
O periódico A Rua: semanário illustrado foi lançado no Recife, capital pernambucana no dia 08 de dezembro de 1903.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional pode ser consultado apenas este exemplar de lançamento. Não existem outros fascículos desta coleção. Mas em nossas pesquisas descobrimos que A Rua circulou até novembro de 1904, perfazendo um total de 47 exemplares.
É do primeiro exemplar que temos as informações relativas ao programa do semanário. O editorial assim se apresentou:

Ninguem procure n’esta folhazinha escriptos doutrinarios, puxados á substancia; também, fiquem tranquilos, n’ella não se encontrarão notas de altos escandalos e de pornografia, agressões e criticas descommedidas e descabeladas.Outra cousa viverão todos livres de topar nas columnas rectas e alinhadas d’esta Rua: elogios exagerados ou de encomenda – o que n’uma palavra de gíria se chama engrossamento.Desejamos oferecer aos que nos procurarem leitura amena e alegre, modestamente instructiva em alguns casos, e gravuras novas, tão artísticas e tão limpas quanto fôr possível no Recife, que em matéria de artes bem devia ter avançado um pouco mais.2

Sem nomear em seu cabeçalho editor responsável, nem assinatura de algum colaborador, segue o editorial discorrendo sobre a proposta que pretendem apresentar nos números do semanário:

A vida corre difícil e tristíssima; é necessário esquecer e rir um pouco. Tentaremos ocupar e divertir, alguns minutos em cada semana, os nossos leitores; elles, porém, que dispensem as indecências crúas e as bisbilhotices sobre o viver privado de qualquer. Ou, senão, escolham outros.
Este nome – A rua – é só por si um programma: nunca devassaremos os lares e o que lhes fôr peculiar.
E... basta de cavaco.
Entrem semanalmente alguns milhares de nickeis para a caixa e Pernambuco terá em breve um magasinezinho que não nos envergonhará lá fora.

E conclui: “Os primeiros numeros d’A Rua vão ser uma experiência; é como se VV. Excs tivessem os pulsos entre os nossos dedos, n’um estudo de vitalidade. Resta confessar que a miséria das pulsações estudadas a nós é que mataria. ”

O número avulso era vendido por cem réis e a assinatura semestral saía por 3$500, mas um aviso no expediente informava que só poderiam ser feitas assinaturas “para fóra da capital”.
Os números avulsos de A Rua poderiam ser encontrados “em mãos dos vendedores, na AGENCIA JORNALISTICA, do Sr. Agostinho Bezerra, e, por especial obsequio, no escriptorio d’A PROVINCIA, para onde deve ser dirigida toda correnpondencia”.

Não apresenta nome de tipografia neste exemplar. Em seus artigos, os editores se identificam como “o pessoal d’A Rua”.

Como apontado em seu subtítulo, apresenta várias ilustrações, dentre elas, o desenho da Nossa Senhora da Conceição sem, contudo, ser acompanhado de algum artigo. Talvez uma homenagem, pois no dia de lançamento do semanário a Igreja Católica comemora o dia da Imaculada Conceição ou N. Sra. da Conceição. Outra ilustração é o do busto do “Conselheiro Ruy Barbosa”, com o título “Jornalistas do Rio”.

Com quatro páginas, editado em três colunas apresentou notas informativas, criticando ou trazendo nelas uma ponta de humor.

Das páginas d”A Rua, destacamos o soneto Mendigos do pernambucano Celso Vieira (1878-1954), que participou da fundação da Academia Pernambucana de Letras, em 1901.


Mendigos

Quantas vezes trilhamos, desgraçados,
Da vida humana os ásperos caminhos:
Vós, em busca de esmolas, fatigados,
Eu, fatigado, em busca de carinhos!

Aos que tiverem sedas e brocados
Invejais a riqueza, ó pobresinhos,
E eu mais invejo ainda os namorados,
- Aves que dormem no frouxel dos ninhos...

Como de porta em porta, sem abrigo,
Noite e dia seguis, - afflicto, sigo
De coração em coração, assim...

E, assim, lastimo as esperanças mortas,
Pois, como para nós fecham-se as portas,
Os corações se fecham para mim!

Celso Vieira

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