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Alva: jornal litterario

por Maria Ione Caser da Costa
Alva: jornal litterario foi publicado nos anos oitocentos. Na província paraibana, em janeiro de 1850, era lançado o primeiro exemplar pelo maquinário da Typographia de José Rodrigues da Costa. Ele que foi considerado o tipógrafo mais importante no século XIX, na Paraíba. A tipografia estava situada na rua Direita, n. 8 no estado então grafado como Parahyba.

Logo abaixo do título, em letras cursivas está uma epígrafe de (Louis) Bonald (1754-1840), filósofo francês: “A literatura é a expressão da sociedade”.

Em suas páginas são encontrados relatos, anedotas, contos, poesias, críticas políticas, e principalmente romances. Nota-se também que em todos os fascículos existe alguma matéria relacionada à invasão holandesa.

A numeração de suas páginas era sequencial, isto é, não recomeçava a cada novo fascículo. Esse processo indica que ao final de um determinado período os fascículos poderiam ser encadernados, formando um volume.

A literatura era o foco. Produzir literatura, propagar a literatura de seu país já fazia parte do ofício daqueles que desejavam cooperar com a formação de sua sociedade. Era o fazer literário do século XIX, que a partir da imprensa tinha como interesse primário o de ilustrar seus leitores.

As vantagens, que produz o jornalismo litterario, são já hoje tam manifestas, que dispensam longas provas. Reconhecido geralmente como meio mais profícuo, que podia a imprensa offerecer em beneficio da instrucção e moralidade do pôvo, pois que é elle o mais fácil de pôr ao alcance de todos uma variedade de conhecimentos que alíás á poucos chegaria – o jornalismo litterario, representando do caracter, das idéias, do estado d’um paiz, e indicadôr dos passos dados na carreira do Progresso, tem-se tornado um elemento indispensável da civilisação.
Fôra portanto um absurdo intolerável negar a necessidade urgente que d’elle se faz sentir em uma terra como ésta, onde pouco se cultivam as lettras, onde a indústria é nenhuma, o commercio padece tristemente na falta de medidas accertadas e convenientes ao seu incremento, e a agricultura não tem modificado para seu aperfeiçoamento aquella rude trilha que a necessidade fê-la seguir.
Duas vezes porem temos testemunhado aqui a nobre tentativa d’uma publicação periódica respectiva tam somente á sciencia e a litteratura; e duas vezes temos tido o dissabôr de vê-la desfalecer ante os graves obstáculos deparados em o seu andamento. (*)
[...] Não hesitámos pois – comquanto poucos e fracos, mas levados do amôr do estudo, e instigados pelos desejo de ver melhorada um dia a sorte de nossa terra, e desobstruído o caminho que deve de leva-la ao templo da civilisação – não hesitamos em imprehender a presente publicação, com a esperança d’estimular outras penas mais habilmente aparadas, e que com mais destreza e proeito possam ser manejadas – áfim d’hir dispertando o gosto da leitura, adormecido sob a influencia d’habitos máus, que a occiodidade alimenta.
Attento o que lavamos ditto, não s’epere portanto uma obra de grande vulto. São intelligencias que começam á desenvolver-se agora: apresentam apenas um humilde insaio litterario. Outra cousa não indica o titulo do presente jornal.
(*) Fallamos do Tapuya, e do Investigador.

Publicação mensal, se diferenciava das outras de sua época pelo número de páginas. Normalmente, aquelas eram impressas em quatro páginas. Alva alterou esse formato, teve seu primeiro exemplar com 18 páginas, e o segundo com 28. Publicando um total de seis números, todos os outros mantiveram a média de 18 páginas cada.

O valor da assinatura semestral de Alva valia 2$000. Sua diagramação foi em uma única coluna, como nos livros. Dois traços rebuscados, entremeados por pequeninos círculos separavam um artigo de outro.

Não foram atribuídas quaisquer autorias aos textos impressos em suas páginas. De um modo geral assinavam somente com as iniciais de seus nomes. Entretanto pesquisando na web pudemos encontrar os nomes de Adelino Antonio de Luna Freire (1829- ), Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque (1829-1899), João da Costa Ribeiro, José Carlos da Costa Ribeiro, Olinto José Meira (1829-1901) e Salvador Henrique de Albuquerque (1813-1880) como redatores de Alva.

A seguir um excerto do poema “Saudade da infância”, publicado no número 5 em maio de 1850. Seu autor assinou como O. J. Meira.


Saudade da infância

Houve tempo em que passei
Com mais gôsto a minha vida.
- Quando não era minh’alma
De tantos males vencida.

Mal brilhava no horizonte
De manhã o sol doirado,
Tudo em mim era prazer;
A minh’alma n’esse estado
Era alegre e divertida.
Houve tempo em que passei
Com mais gôsto a minha vida.

Pelas arvores saltava,
Qual veloce passarinho,
Aqui apanhando flores,
Tirando ali algum ninho:
Ó doçura já perdida!
Houve tempo em que passei
Com mais gôsto a minha vida.

Si ouvia gemer a rôlla
Pelo campo a volitar,
Penetrado de desejo
Era logo de a pegar
Entre o mato de corrida.
Houve tempo em que passei
Com mais gôsto a minha vida. [...]

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