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Esperança: jornal litterario, poetico, critico e recreativo

por Maria Ione Caser da Costa
Foi num domingo, dia 10 de julho de 1864 que, no Rio de Janeiro foi publicado pela primeira vez o periódico Esperança: jornal litterario, poetico, critico e recreativo. Era propriedade da Associação União Litteraria e foi impresso pelas máquinas da Typographia Imparcial, que estava situada na rua de Santo Antonio, n. 26 A.

Uma nota logo abaixo do cabeçalho informava aos leitores que “recebe-se qualquer artigo para ser publicado, uma vez approvado pela redacção, publica-se todos os domingos e assigna-se na typographia Imparcial”.

O valor das assinaturas tinha preços diferenciados para a corte e para as províncias. Na corte os valores eram de 3$000, 6$000 e 12$000 para as assinaturas trimestrais, semestrais ou anuais, respectivamente. Já nas províncias as mesmas tinham um acréscimo. Passavam para 3$500, 7$000 e 14$000 nas assinaturas trimestrais, semestrais e anuais. Não apresentou valor para a venda por número avulso.

A publicação original foi composta em papel madeira, medindo 33cm x 25cm. Está em bom estado de conservação, apresentando interferências que o tempo de manuseio e armazenamento provocam.
O texto inicial informa que objetivo da publicação é proteger a literatura. Eis o editorial:

A ESPERANÇA, tímida como a adolescente e meiga avezinha do prado, que ao primeiro agitar de suas azas, procura encetar seu débil vôo; se esta preciza de um tenro galhosinho, ou folha da palmeira, para descansar e recuperar novas forças, que a deixem prosseguir sua carreira: aquella, almeja acolher-se debaixo do manto bem-fazejo e protector do ilustrado publico fluminense, para com sua generosa coadjuvação, reanima-la; até que revestida de forte animosidade, possa emitar altiva águia, elevando-se desse pequeno vôo á amplidão do espaço.
A ESPERANÇA surge ao ilustre povo fluminense, envolta com esmeraldinas e esperançosas vestes; as quaes cooperam para encobrir a sua acanhada modéstia, semelhante á formosa violeta ocultando-se entre os taboleiros de relva: se não faz promessas gigantescas de engrandecimento, GARANTE A SUA PUBLICAÇÃO.
É propriedade de uma sociedade, em cujo estandarte se lê UNIÃO LITTERARIA.
Os associados, são em número de dez; os quaes se não possuem a inteligência, se não teem as suas idéias bem elaboradas, ou não foram inspirados por Deos, como esses gigantescos gênios da literatura, Camões, Byron, Lamartine, Garret, e Chateaubriand; ttem a animosidade, o amor ao estudo, e a dedicação ás sciencias. [...]
Esta sociedade, propõe-se a coadjuvar e proteger a litteratura. Dando este jornal, não é com o fim de especulação ou lucro; porque, se algum membro existisse nesta sociedade que allimenta-se tão baixa e mesquinha idéa, terião os outros que se achão ligados a elle pelos elos da fraternidade, de cora de pejo, em ter-lhe estendido a mão e admitti-lo em seu gremio!. [...]
A UNIÃO LITTERARIA espera, dos que prezam e amam a literatura, a sua coadjuvação e que o ilustrado publico receba benignamente o primeiro numero de seu jornal.

Esperança: jornal litterario, poetico, critico e recreativo foi diagramado com textos em três colunas e seus artigos foram separados por linhas e vinhetas. Cada fascículo foi formado com quatro páginas. Não apresentou ilustrações.

Diferentemente da maioria dos títulos desta época, este não teve uma vida efêmera. Seu último exemplar foi o de número 46 que foi publicado no dia 06 de julho de 1865, portanto, durou um ano, com fascículos semanais. Um luxo, se compararmos aos demais títulos, que em sua maioria conseguiam apenas a produção de 4 ou 5 exemplares.

A Esperança passou por algumas mudanças em sua diagramação e também na direção de seus colaboradores. A partir do número 24, publicado em 18 de dezembro de 1864, além da informação de ser propriedade da Associação União Litteraria, apresenta como redator principal o nome de Alvarenga Netto, cargo que, a partir do número 29, de 31 de janeiro de 1865, passa a dividir com Duarte F. G. Pereira (1847-1901), deixando de mencionar o nome da associação como responsabilidade. É também no número 29 que a publicação muda seu subtítulo passando a jornal político, litterario e critico. A partir do n.34, de 7 de março, o redator e proprietário passa a ser apenas o Duarte F. G. Pereira.

Alguns dos colaboradores: Arnaldo Molarinho e Josephina R. L. Pitanga. E das páginas de Esperança destacamos a poesia “Paquetá!” de T. de Macedo.


Paquetá!
(Recordação)


Linda grinalda de flores dorosas...
De myrthos e rosas de vivida côr;
Noiva ridente do mar bonançoso
Que embala moroso teus carmes d’amor.
Tu és meiga virgem de castos enhelos!...
Com ternos desvelos na quadra infantil:
Jardim variado de infindos primores
Que puros odores evapora subtil.
De fronte altaneira tú fitas o pégo
Que em longo refego se curva ante ti;
Encaras altiva a vaga espumosa,
Na praia arenosa, que leda sorri!
E quando, indômito, o pego revolto
Nas ondas envolto ameaça luctar,
Parece que um gesto por ti despedido
O faz, abatido, a teus pés se curvar!
Eu amo o teu seio, oh! veiga floripa...
Oh! Filha querida do meu Paquetá!
Embora proscripto, de ti a saudade,
Querida deidade, jamais finará!

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