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O Amador: periodico litterario do Club Dramatico Gonçalves Leite

por Maria Ione Caser da Costa
O primeiro exemplar, e único existente no acervo da Biblioteca Nacional de O Amador: periodico litterario do Club Dramatico Gonçalves Leite, veio a lume num sábado, dia 8 de setembro de 1888, no então bairro imperial de São Cristóvão, Estado do Rio de Janeiro. As pesquisas apontam para a existência somente deste exemplar.

Publicação mensal, teve A. Rosario como redator. Em seu cabeçalho não são nomeados os colaboradores, mantendo a opção de “Collaboradores diversos”.
A primeira informação do expediente é que, a título de colaboração para o periódico, só “se aceitam artigos dos sócios deste Club”. O Club Dramatico Gonçalves Leite já existia no bairro de São Cristóvão há 26 anos e tinha Antonio Gonçalves Leite como presidente naquele ano de 1888.

O expediente informava também que os “originaes enviados a redacção, não serão restituídos ainda que não sejam publicados”; e o endereço da redação: Travessa das Flores, n. 16.
Com o título O Amador, assim inicia o editorial:

Semelhante ao inocente que nasce, é o nosso periódico litterario que hoje lançamos á luz da publicidade, filho dos nossos esforços, aureleado com as nossas esperanças e que dá o primeiro passo no campo flóreo e às vezes bem arido, dasn letras.
Quem poderá com certeza prophetisar o futuro daquele? assim também nós vacilantes sobre os largos destinos do nosso órgão em nada podíamos confiar a não ser no apoio e benevolencia do publico.
É o que vos pede, publico benevolo, a mocidade que sente lhe correr no sangue o vigor da força e na alma os raios do talento.

Segue o texto explicando a fragilidade que pode existir no que se refere à continuidade de um periódico. O Amador inicia sua vida convivendo com a incerteza de chegar a um futuro distante, principalmente em se tratando de escritores sem a experiência que o tempo e a prática oferecem.

Sabemos que nos sentimos fracos para chegarmos gloriosos ao fim d’essa espinhosa jornada porque nos falta a ilustração e a pratica dos grandes escriptores, mesmo porque o Theatro é uma escola elevada, cuja missão é moralizar a sociedade ensinando-lhe como se desafronta graves ofensas, qual o fim sinistro de uma paixão ou vida desregrada, as flores que recebem os heróes do bem e os grilhões que oprimem os heróes do mal.
Nascido o nosso periódico do Club Dramatico Gonçalves Leite que conta com 26 annos de existência procuraremos sacrificar-nos afim levar avante a nossa empresa; e se a adversidade nos lançar no abysmo da obscuridade e da indifferença ao menos ha de consolar-nos a idéa de que os grandes tem tido seu Wateloo.

Todas as notícias publicadas em O Amador giram em torno do Clube e das récitas lá apresentadas. Alem das notícias encontramos um poema, charadas, classificados e algumas crônicas.
A publicação foi diagramada em três colunas, não apresentando ilustrações. A última página é um convite para a récita a ser apresentada em homenagem aos 26 anos do Club Dramatico Gonçalves Leite.
Os colaboradores de O Amador são os próprios sócios do clube, que também assinam por pseudônimos: A. Jackson, A. Rosario, Bicho Feroz, P. Barroso e Tubinha.
Para ilustrar, acrescentamos o poema de A. Rosario apresentado na página três de O Amador.


Amo-te

Amo-te muito, é ventura minha,
Quero p’ra sempre este amor gozar;
Bemdita hora em que fitei teus olhos,
Bemdito dia em que senti te amar!

Dormindo um dia, vi-te bella em sonhos,
Tornou-se meu esse ideal sonhado;
Nenhuma deusa se igualando a ti,
A ti sómente me hei devotado.

Quero adorar-te, só desejo ver-te
A todo instante repetir – sou teu! –
Desprezo o mundo e só almejo a dita,
De compr’hender qu’o teu sentir é o meu!

E assim te amando, eu só sinto glorias,
Se amar é crime, criminoso eu sou,
A Deus me prostro reverente e terno,
Mas a ti sómente meu amor eu dou!

Se amar é culpa, eu perdão te peço,
Mas oh! confesso nunca amei assim;
Juro-te sempre consagrar-me a ti
N’uma sincera affeição sem fim.

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