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O Kaleidoscopio: publicação semanal do Instituto Academico Paulistano

por Maria Ione Caser da Costa
O Kaleidoscopio: publicação semanal do Instituto Academico Paulistano veio a público pela primeira vez em 7 de abril de 1860. Foi impresso na cidade de São Paulo pela Typographia Imparcial de J.[oaquim] R.[oberto] de Azevedo Marques.

Naquele período dos oitocentos, diversas folhas foram lançadas, não só folhas políticas como também literárias. Esta é mais uma delas, que tinha por objetivo propagar as ideias, disseminando a instrução e despertando a inteligência, “por se propôr a um fim tão útil, como o de ajudar os estudos scientificos dos Academicos”.

Tendo como redatores Tavares Bastos, Marques Rodrigues, Francisco de Paula Belfort Duarte e Carlos Mariano Galvao Bueno, o Kaleidoscopio explicou aos leitores, no prólogo, texto que antecede ao editorial, que seus editores são “neophytos do Direito, e que estão se preparando nesta sapiente Faculdade”, o Instituto Academico Paulistano. A seguir o editorial:

Na edade em que os mancebos romanos revestiam a toga viril e deixavam os másculos exercícios do campo de Marte pelas fadigas mais serias e mais fecundas da guerra, os filhos das gerações modernas, deixando os descuidados da infância, vão esgrimir-se na arena talvez mais fértil, mais civilisadoraé certo, da sciencia.
Longe, bem longe se affastam esses tempos em que despendia-se a energia intellectual da juventude nos archeologicos exercícios das línguas mortas, cujo gênio, por mais sagazes que forem os seus interpretes, já mais poderá ser restaurado, nem siquer lobrigado atravez do mysterioso véu em que as envolveram os séculos quase mythicos da edade media.
Como é mais illustrada a educação, é também mais liberal a instrucção hoje. A aquelle ar pesado, á aquela sisudez acanhada, ao espírito portuguez de outr’ora, succede o espírito brasileiro, graciosa mistura da seriedade britannica com a jovialidade que distingue os francezes e a imaginação ardente e devaneiadora dos filhos da Iberia.
É notável a transformação que tem soffrido no Brazil os diversos elementos da civilisação que legou-nos Portugal. [...]
Eis ahi a idéa capital, o motivo transcendente que explica a apparição do KALEIDOSCOPIO.
Nada de infezadas dissertações, nada de indigestos calhamaços, nada de nada que em vez de aguçar o espírito oi fazer bater o coração, obrigue a cerrar as pálpebras ou franzir o nariz. Nada disto terá a impertinência de intrar as paginas desta publicação hebdomadária.

Kaleidoscopio foi diagramado em duas colunas divididas por um fio simples. Cada exemplar apresentou oito páginas, sendo sua numeração continuada nos fascículos de cada ano de publicação. Não apresentou ilustrações.

Vários foram os seus colaboradores. Acadêmicos que de dedicavam às letras e partilhavam seus poemas ou estudos.

Destacamos, a título de ilustração um poema de Z. A. Pamplona com o título Tristeza!, publicado no número sete, editado no dia 19 de maio de 1860.


Tristeza!

Há momentos na vida em que minha alma
Se imbebe de uma scisma, de um langor,
Como as ondas do mar à noite a lua
Banha de frouxo tremulo pallor.

Gozos de outr’ora, dos passados tempos
Me surgem na memória, tão tristonhos!
Como imagens saudosas, desbotadas,
Qua à noite vimos entre meigos sonhos.

E a sombra santa d’essa virgem meiga
A quem outr’ora consagrei meus dias,
Ella, coitada! me apparece envolta
Em nuvens vagas, pallidas, sombrias.

Adeus, meu anjo dos passados sonhos,
Em soffri tanto!...me perdoa ainda.
Occulta-te, visão triste, e suave
Na noite do meu peito, muda, infinda.

Ah! merencorios, descorados echos
De venturas longínquas, como passam
Em turba immensa, lamentosa, errante
Sobre meu seio, e suspirando o abraçam!

Adeus, meus sonhos de mancebo ardente,
Que tanto me sorristes, hoje adeus!
Por entre as nevoas de um passado extincto
Por vós eu choro entre os pezares meus.

Ah! Que vago pensar, que imagens doces
Se vem no rio d’alma debruçar!
São como aves que após a tempestade
Se agrupam n’um rochedo em meio ao mar.

Ide, coitadas!... Que deserto immenso,
Que ermo profundo na minha alma agora
Ai! Vida, foste, e a solidão do espírito
Muda, impassível no meu seio mora.

Momento de tristeza é doce, e peza
Como o grito das ondas no rochedo,
Como o vento a gemer no mato á noite
Como o canto da pomba no arvoredo.

É doce, embora... Pallidos pensares,
Sentimentos equívocos de amor!...
Sombras errantes n’um silencio triste
Enchendo o coração de vaga dôr!...

Adeus, tudo que amei! Oh gratas hora
De enlevos de paixão, oh noite pura,
Asylo de meus prantos, oh florestas
Meu leito de perfume e de frescura.

Solidão das campinas, vento errante
Que levaste meus ais, oh praias nuas
Do oceano gemente, onde nos ermos
Vaguei á noite nas areias tuas.

Oh Inares tão brancos, tão tristonhos,
Oh rochas do silencio La nos mares,
Oh montanhas azues, oh astros doces
Que nos surrides nos desertos ares,

E vós, imagens de formosos anjos,
Que povoáveis isso tudo, adeus!
Adeus! Deixae que na minha alma pobre
Lastime as sombras desses sonhos meus!

Adeus!...que solidão, que véu sombrio
Vem cobrindo meu seio! Pende, chora,
Oh fronte triste, neste pranto ao menos
Terás allivio da tristeza á hora.

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