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O Vadio: orgam popular

por Maria Ione Caser da Costa
Publicado em Penedo, cidade alagoana do Baixo São Francisco, o periódico O Vadio: orgam popular teve Leobino Ferreira como proprietário e diretor. A redação e oficinas estavam localizadas na rua do Rosário nº 2.

Com a coleção do periódico incompleta, não é possível precisar a data de lançamento de O Vadio. A coleção existente na Biblioteca Nacional inicia com o ano 4, número 95, publicado no dia 3 de outubro de 1910. Pode-se supor que o primeiro exemplar tenha sido lançado no ano de 1907. Em nossas pesquisas não foram encontrados quaisquer dados sobre o referido periódico, nem quaisquer informações sobre seu proprietário, Leobino Ferreira. Nas páginas de O Vadio são encontradas várias referências a ele, como editor de outras publicações periódicas, mas as mesmas não foram localizadas na BN.

Publicação semanal, publicada aos domingos. A coleção da BN possui dezoito exemplares, sendo o último o de número 153, que recebeu a designação numérica de ano 6, foi publicado no dia 05 de novembro de 1911. Observou-se alguns erros na ordenação numérica dos fascículos dessa publicação.

Na capa, a direita do título está uma relação com os valores para compra avulsa e assinaturas. O Vadio era vendido por $100 e o número atrasado custava o dobro. A assinatura anual valia 5$000, a semestral custava 3$000 e a trimestral 2$000. O pagamento deveria ser feito adiantado.

A diagramação do título do periódico também merece uma apreciação mais atenta. As letras que o compõe são vazadas e de dentro delas pode-se ver o desenho de um homem com fisionomia brincalhona, deitado de bruços, como se estivesse em um brinquedo de diversão.

O texto inicial do primeiro fascículo existente na coleção da Biblioteca Nacional apresenta um teor motivacional e comemorativo, exortando “os brios da mocidade republicana”, que tornou esta mesma mocidade penedense “cohesa por um mesmo sentir”. O texto relembra também quando a Capitania de Alagoas foi criada, desmembrando-se da Capitania de Pernambuco, fato ocorrido em 16 de setembro de 1817.

Sentimos um arrefecimento doce, perpassar por nossas veias, em tempo de paz, mas cujo sangue se alvorota quando devisamos ao longe vislumbre de destronta aos nossos brios de povo altivo, que sabe repellir o inimigo, ainda com a ferocidade das tribus que outr’ora povoaram este vastíssimo e gigantesco solo, de que somos descendentes.
A mocidade penedense, herdadeira dos rasgos de heroísmo dos caboclos de Alagoas, nunca, mas nunca, se quedará passiva, estática, em posição vergonhosa.[...]
Mocidade patrícia, confiando nos vossos bons sentimentos, outras não são as nossas palavras, senão um estímulo.

Alguns dos colaboradores encontrados nas páginas de O Vadio são Affonso Lyra, Coelho Netto, Job Sá, Osmar Gomes, Salgadinho, Theobran, Zé da Rima, Pé Quebrado e Leobino Ferreira.

A seguir destacamos o poema de Guerra Junqueiro, com o título “Desesperança”, publicado na edição do dia 19 de março de 1911.


Desesperança

A usura rouba a luz e o ar
E o negro pão a gente come,
Inverno vil... Parou o tear...
Quem vem sentar-se no seu lar?
A fome!

Lume apagado e o berço em pranto
Na terra humida, Senhor!
A mãe sem leite... o pae a um canto...!
Quem vem além, torva de espanto?
A dôr!

Doze annos já, e semi núa!
A mãe que é della? O pae no officio...
Corpo em botão de aurora e lua!
Quem canta além n’aquella rua?
O vicio!

A fome e o frio, o calor e a usura,
O vicio e o crime... ignobil sorte!
Oh! vida negra! Oh! vida dura!
Deus! Quem consola a desventura?
A morte!

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