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Revista mensal da Sociedade Ensaios litteraios

por Maria Ione Caser da Costa
A Revista mensal de Sociedade Ensaios Litterarios foi impressa no Rio de Janeiro pela Typographia Economica de J. José Fontes que estava localizada na rua dos Latoeiros, 34, atual rua Gonçalves Dias. A criação da Sociedade Ensaios Litterarios ocorreu em 1º de junho de 1863, com a publicação do primeiro volume.

A Sociedade foi fundada em dezembro de 1859, em uma sala onde, na época, já funcionava a Sociedade Propagadora das Belas-Artes. Foram os responsáveis pelo acontecimento Feliciano Teixeira Leitão, José Antonio de Almeida e Cunha e João Silvio de Moura, pessoas amantes das letras e interessadas em aprender e compartilhar conhecimento. Desejavam consolidar-se intelectualmente.

No primeiro exemplar da Revista mensal da Sociedade Ensaios Litteraios, num longo texto com o título Introdução, os responsáveis pela publicação explicam sobre a tarefa que se dispuseram praticar. Discorrem sobre o conhecimento, comparando-o com “um apóstolo de luz que falla todas as línguas, que habita todos os países”. Em linguagem detalhada e explicativa, informam que

[...] Esse apostolo é a imprensa que faz com que todos os homens, durante todas as eras, formem esse único homem uniersal do grande Pascal, que subsiste sempre, que aprende continuamente em quanto o universo envelhece.
O que é o livro para a syntese, é o periódico para a analyse das verdades dessa propaganda do futuro.
‘Todos nós somos thesoureiros da verdade, dizia J. Simon’ se a ajuntamos hoje, amanhã serão os outros, nossos credores. Se o livro lhes paga em verdades que, em um certo sentido, emanciparão-se do tempo, paga-lhes o periódico com a metade do presente que já traz em seu cunho o signal de seus destinos futuros.

Desta apresentação, assinada por A redação, os membros da sociedade afirmam:

O periódico é o bolletim de cada dia em que se escrevem as pulsações do coração da sociedade; é o estudo das instituições, dos costumes, das crenças, das luzes de cada hora na vida social, considerada em todas as suas faces; elle afasta todas as decadências, alenta tosos os são princípios, e prepara, fecunda, dirige e coroa as revoluções do mundo.
Pois bem. A sociedade – ENSAIOS LITTERARIOS – que ama e comprehende essa propaganda, vem trazer-lhe também a sua moeda, ainda que modesta.
Neophitos esperançosos da religião veneranda das letras, vem ella apender com os eleitos do templo.
A sua – REVISTA – órgão sincero de seus esforços concienciosos, embora humildes, vem dar testemunho dessas crenças que ainda hoje não morrerão nos corações dos que velão no fogo sagrado de Vesta.

Nas páginas da revista foram reproduzidos os discursos proferidos nas seções solenes pelos sócios e convidados, bem como os relatórios oficiais da Instituição. Na seção “Cronica Mensal” divulgaram os livros e as notícias das agremiações, fazendo de suas páginas um informe para seus leitores. Publicaram também contos, crônicas, romances e poesias. Um destaque para o conto Os Conventos de Benjamin Franklin Ramiz Galvão (1846-1938), publicado na página quinze do primeiro exemplar. Ramiz Galvão, dentre as muitas atividades que desempenhou, foi um excelente educador e também dirigiu por 12 anos a Biblioteca Nacional, onde promoveu, dentre inúmeros feitos, a criação dos Anais da BN.

A Revista mensal da Sociedade Ensaios Litterarios teve sua apresentação em formato reduzido, medindo 22 cm x 15 cm. Com periodicidade anual, cada exemplar teve em média 480 páginas. Não apresentou ilustrações, apenas na folha de rosto. Abaixo do título o desenho de um globo terrestre, cercado de livros ornamentados por folhagens. A folha de rosto do terceiro exemplar apresenta o carimbo da Biblioteca Nacional quando ainda recebia o nome de Biblioteca Nacional e Publica da Corte.

A coleção é formada por cinco volumes. O primeiro, mencionado acima. O segundo, publicado no dia 1º de junho de 1864 foi impresso na Typographia Perseverança, que estava localizada no número 99 da rua do Hospício, atualmente rua Buenos Aires, e o terceiro, publicado no dia 1º de junho de 1865 foi impresso na Typographia Nacional de Cotrim & Campos, que situava-se na rua d’Ajuda, 106. O quarto ano de publicação da Revista mensal da Sociedade Ensaios Litterarios veio a lume alguns anos depois, em 30 de abril de 1872. Foi impressa na Typographia do Apostolo, rua Nova do Ouvidor, 16 e 18. Os redatores iniciam o quarto volume com uma explicação:

Aos primeiros clarões de uma manhã de primavera, puzemo-nos a caminho.
Na frente desfraldada aos ventos ia a nossa bandeira.
Ao derredor, juntos ou em grupos íamos todos.
Muita mocidade: alegria e esperanças. Cada qual era uma pormessa em flor – uma aurora a enrubescer o horizonte.
Caminhaos: o caminho foi de urzes e perigos, muitos escorregarão os pés na face lisa dos despenhadeiros ou sangrarão-os em mais de um espinho; muitos voltarão a espádua aos azares do destino, muitos ficarão exânimes: a esrada que seguimos foi-lhes sepulcro.
Depois de doze anos de peregrinação, de muito luctar, de muita provança, eis-nos de novo ás portas da imprensa. Queremos o lugar que nos cabe por direito: somos moços, somos a esperança da pátria.

Continuam o texto de maneira poética agradecida, e finalizam:

Pedimos apenas como os cantores de outros tempos – que nos ouçam e que nos agazalhem.
Sem o orvalho não florescem as plantas, sem animação não prosperão commettimentos.
Basta-nos isto: faremos o mais – porque o mais depende da perseverança, da porfia e do trabalho.
E nós trabalharemos.

Em junho de 1874 é publicado o quinto fascículo do volume cinco, o último da coleção. Foi impresso pela Typographia Cosmopolita, localizada em um sobrado do número 184 da rua dos Ourives, atualmente rua Miguel Couto.

Na última página, uma nota em manuscrito assinada por Luiz Leitão responsável pela tesouraria, informava que: “A publicação do 5º anno foi interrompida neste numero. A Sociedade publicou mais tarde, em 187[ilegível] uma brochura sob o titulo Ensaios literários, com o qual [indenizou] os assignantes.”

O poema selecionado a título de ilustração é de M. Leitão, com título A’ uma menina, acompanhada de uma epígrafe de Victor Hugo (1808-1855): Oh! não se apresse em amadurecer seus pensamentos! / Aproveite a manhã, aproveite a primavera; / Suas horas são flores entrelaçadas entre si. / Não os afine mais rápido que o tempo.


Á uma menina
N’UMA FOLHA DE SEU ALBUM
Oh ! ne vous hâtez point de mûrir vos pensées!
Jouissez du matin, jouissez du printemps;
Nos heures sont des fleurs, l'une à autre enlacées.
Ne les effeuillez pas plus vite que le temps.
Victor Hugo

És tão criança!... Quando moça fôres
E revolvendo do passado as folhas
Do livro d’alma
Não deparares uma só das flores
D’essas que, louca, a caminhar desfolhas
Por sobre um peito de ilusões vasio!...
Porque da vida no fatal desvio
Se perde o rumo de um viver sem luz...
Respira a calma
Da juventude festival, florida!...
Mas não indagues do tristonho moço.
Porque de fogo
Se ha tornado o coração de gelo?!.
Não; não indagues... que dizer não posso...
Agora e logo,
Longe das crenças do porvir que anhélo,
Aqui – no exilio de um existir sem vida –
Guia-me ao termo da jornada – a cruz.

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