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O Voo do Jahú

Alexandre Ricardo Baptista
Colecionador e Pesquisador de assuntos ligados ao Hidroavião JAHÚ e a Travessia do Atlântico


No dia 28 de Abril de 1927 brasileiros entravam para a história por serem os primeiros americanos a atravessarem o Oceano Atlântico dispondo de apenas uma aeronave, o "JAHÚ".

O norte-americano Charles Augustus Lindbergh fez um voo de Nova Yorque a Paris, 23 dias após os brasileiros, e até hoje é admirado e cultuado como pioneiro neste tipo de travessia. E os brasileiros?
Caso semelhante ao de Santos Dumont e os irmãos Wright.

Em 1922 os portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho fizeram uma travessia de Portugal para o Brasil para comemorar o centenário da independência, mas usaram nada menos que 3 aviões para que conseguissem tal façanha.

João Ribeiro de Barros, um jovem da pequena cidade de Jaú (que na ortografia da época se escrevia JAHÚ), que era um apaixonado por aviação, largou os estudos de Direito, foi estudar mecânica e acrobacias aéreas e teve a idéia de retribuir o gesto dos portugueses e fazer um vôo do Brasil para Portugal e pôs-se a procurar uma aeronave que fosse capaz de tal feito sem que contasse com outros elementos além dos próprios.

Após muito estudo, chegou a uma aeronave: era o Savoia Marchetti modelo S-55.

Em 1925, o Conde Eugenio Casagrande tentou fazer uma travessia do Atlântico, onde pretendia alcançar a Argentina para estreitar os laços entre a Itália e a Argentina, já que a colônia italiana era grande na época, naquele País. Partiu da Itália com um Savoia Marchetti S-55 batizado de “Alcione”, mas sofreu um acidente em Casablanca, no Marrocos e não tendo mais condições de vôo, abandonou o Reide.

Em meados de Junho 1926, João Ribeiro de Barros parte para a Itália juntamente com seu amigo, o mecânico Vasco Cinquini, para adquirir uma aeronave, mas a fábrica não quis lhe vender uma unidade nova, temendo que fosse mais um fracasso e denegrisse a sua imagem e ofereceu o próprio “Alcione” do Conde Casagrande por 680.000 Liras o que correspondia na época a mais de 200 Contos de Réis.

Barros aceitou e resolveu fazer o trajeto inverso, saindo da Itália e pousando no Brasil e assim começavam os entraves, pois a fábrica entregou o hidro apenas pintado, alegando estar reformado, mas ao fazer o vôo de testes, quase afundou ao tocar as águas do Lago Mayor, em Sesto Calende, porque os fundos dos botes estavam podres, devido a longa permanência semi-afundado em Casablanca.

Depois de muitas discussões, conseguiram que a fábrica trocasse os botes por novos, ficando assim semelhantes ao do tipo militar com proa alçada e melhor hidrodinâmica e foi batizado de “JAHÚ”.
Barros escreveu nos botes: “vou alí” no bote direito e “já volto” no esquerdo.

O Capitão do Exército, Newton Braga, chega a Itália em fins de Junho de 1926, para ser o navegador e indica como segundo piloto o Tenente do Exército Arthur Fernandes da Cunha.
Partem de Sesto Calende para Gênova em 13 de Outubro de 1926 e de Gênova em 18 de Outubro de 1926.

Após algumas horas de voo, notaram um baixo rendimento dos motores, e amerissaram em Alicante, na Espanha, mas como a cidade não estava na rota, as autoridades ordenaram que fossem presos, alegando serem contrabandistas e só conseguiram a liberdade com a intervenção do Consulado Brasileiro.

Em 19 de Outubro de 1926 partem para Gibraltar, no sul da Espanha, percebem, então, que há algo errado com o combustível. Barros solicita uma investigação ao Cônsul Brasileiro em Gibraltar que nomeia uma comissão e comprova a primeira sabotagem: sabão, água e terra haviam sido colocados na gasolina obrigando-os a esvaziarem os tanques e substituírem toda a gasolina.

O JAHÚ retoma os ares em 25 de Outubro de 1926 e novamente os motores voltam a falhar, exigindo novo pouso de emergência, agora em Las Palmas, Gran Canária.

Decolam de Las Palmas e pousam em Porto Praia no arquipélago de Cabo Verde. Mas ocorre um pequeno acidente, quando traziam o JAHÚ para o seco para reparos e danificam um dos botes, necessitando conserto especializado. Desmontam os motores para manutenção e descobrem a segunda sabotagem: um pedaço de bronze colocado propositalmente no cárter que só não destruiu o motor, devido ao seu peso, que o manteve no fundo do Cárter.

Neste meio tempo o co-piloto Arthur Cunha rebela-se e é desligado da tripulação. Outro entrave: conseguir um novo piloto. Como se não bastasse, Barros é acometido por crise de malária, ameaçando desistir do Reide e voltar para o Brasil de navio, mas um telegrama de sua mãe o encoraja, ele retoma o ânimo e retorna ao Reide, agora com o co-piloto Tenente João Negrão, da Força Pública de São Paulo, que chegou do Brasil em Março de 1927.

Decolam de Porto Praia as 4:30 hs. do dia 28 de abril de 1927 para o salto de 2.400 quilômetros no Atlântico e amerissam próximo de Fernando de Noronha com uma hélice danificada. São rebocados até Fernando de Noronha pelo navio italiano “Ângelo Toso”, que passava no momento do pouso.

Substituem a hélice por outra, vinda do Recife e partem para Natal no dia 14 de Maio de 1927.

No dia 06 de Junho de 1927 decolam de Natal e após um voo de pouco mais de uma hora, sobrevoam Olinda e pousam em Recife. Pouco antes do pouso, passaram alguns instantes apreensivos, pois o povo soltava rojões que explodiam bem próximos ao aparelho parecendo granadas de artilharia, mas felizmente nenhum incidente ocorreu e pousaram tranquilamente no porto.

O povo Pernambucano estava em tal contentamento e delírio que lotava ruas, avenidas e praças, tomava todo o cais e superlotavam embarcações, apinhados até nos mastros.

Os aviadores desembarcaram e foram levados nos ombros até o “Parque Hotel” onde se recolheram como hóspedes do estado.

Fanfarras e bandas tocavam, o povo cantava e gritava vivas e hurras.

Festas, homenagens, banquetes, bailes e recepções marcaram a passagem dos aviadores pela encantadora Mauricéia.
No Recife, incorpora-se na tripulação, o mecânico da Marinha do Brasil, Suboficial Antônio Machado Mendonça, que havia prestado serviço para o Comandante português Sarmento de Beires no “Argos”, que se acidentou na costa do Pará.

Na época ainda não existia a arma da Aeronáutica e a tripulação ficou então com representantes do Exército, da Marinha, Civil e da Força Pública.
No filme que mostra a chegada do JAHÚ, que se deu no dia 06 de Junho de 1927, podemos ter uma idéia da grandiosidade do evento que se vivia no País.
O JAHÚ deixou Recife no dia 26 de Junho de 1927 e ao sobrevoar a cidade os aviadores lançaram uma pequena saudação ao povo Pernambucano, que dizia o seguinte:

SALVE! PERNAMBUCO IMORTAL!...
No momento em que voamos sobre Recife e Olinda, o povo alvoroçado alça os olhos para o céu e com a vista nos segue!
Com a vista, porque com o coração, nós o sentimos, acompanha no mesmo ritmo o que nos une.
Segue com a alma o nosso destino.
Antes do “JAHÚ” tomar rumo para o Sul, daqui das alturas do céu de nossa terra, ao ar as nossas saudações!
Elas irão caindo lentamente no espaço ao acaso, sobre as choupanas dos pobres e nos palácios!
Irão caindo nas ruas, nas praças, nos vergeis e nas águas, dirão à todos e à tudo a nossa indizível saudade, o nosso adeus!
E quando não mais te avistarmos, oh! Formosa Mauricéa! Ainda diremos:

Salve! Pernambuco imortal!
Recife Olinda, 23-6-927 JAHÚ.

Depois o JAHÚ pousou ainda em Salvador no dia 26 de Junho de 1927, no Rio de Janeiro em 05 de Julho de 1927 e Santos em princípio de Agosto de 1927.

Finalmente amerissam na Represa de Santo Amaro, hoje Guarapiranga, ainda em Agosto de 1927.

Hoje o JAHÚ está restaurado e encontra-se em exposição no museu “TAM” da empresa aérea TAM na cidade de São Carlos-SP. O Governo do Estado de São Paulo, através da Lei Estadual nº 9.933/98, instituiu a data de 28 de Abril como comemorativa da Travessia do Atlântico.

Este filme foi utilizado na Exposição "Escrito nas Estrelas" - Digitalizado em projeto desenvolvido no Laboratório Liber da UFPE sob a coordenação do Prof. Marcos Galindo.

jahu