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AFRO AMARAL FONTOURA (1912-1987)

por Denise Medina França e Paulo Roberto Castor Maciel

Afro Amaral Fontoura, nascido em 30 de junho de 1912 na cidade do Rio de Janeiro[1], que à época era o Distrito Federal, “graduou-se em Filosofia pela Universidade do Brasil. Especializou-se em Sociologia nos Estados Unidos” (FRANÇA; 2022, p.5) e faleceu em 21 de agosto de 1987. Filho de Joaquim do Amaral Fontoura e Branca Marques do Amaral Fontoura foi casado com Maria Emília Ferreira Amaral até 1953, quando sua esposa faleceu. Posteriormente, casou-se com Cleonice Amaral Peixoto. Fontoura[2], formado em Magistério, iniciou sua carreira docente aos 17 anos, trabalhando como professor em várias escolas normais. Após sua graduação na antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, ministrou aulas: na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), entre 1950 e 1951, na Universidade do Estado da Guanabara (UEG), na Universidade Santa Úrsula (USU), na Faculdade de Serviço Social do Distrito Federal e na Escola do Comando Maior do Exército (ECEME). Além disso, presidiu a Associação Brasileira das Escolas Normais na década de 1960, momento em que promoveu vários eventos, além de presidir o 1º Congresso Brasileiro de Ensino Normal, realizado no Rio de Janeiro. Identificou-se na hemeroteca digital a participação deste professor em reuniões para discutir o projeto de Lei de Diretrizes e Bases (LDB/1961). Fontoura contribuiu para elaboração desta Lei como assessor da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, o que resultou na produção do livro “Diretrizes e Bases da Educação Nacional”. Nomeado, em 1941, por meio de concurso público, tornou-se técnico de educação do Estado do Rio de Janeiro (JORNAL DO BRASIL, 1941; p. 6). Posteriormente, participou da comissão de discussão sobre a Lei 4024/61 (O DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 1962) e elaboração de cursos para professores sobre os novos programas do ensino primário do estado do Rio de Janeiro em 1964 com a LDB da época. (O FLUMINENSE, 1964a, 1964b).


Na década de 1960, a cidade do Rio de Janeiro deixou de ser a capital do país e passou a ser o Estado da Guanabara. Tem-se que tal modificação trouxe um processo de erosão da importância da cidade e do estado, “e teve como resultado a inversão do processo de crescimento da economia brasileira e crise fiscal” (OSORIO; VERSIANI, 2013, p.192). Nesse período, houve a necessidade de organização de eleições para governador, e quem venceu as eleições foi Carlos Lacerda (1960) que tinha três pilares na sua campanha “ampliação e distribuição da rede de abastecimento de água, reordenamento do espaço urbano do novo estado e ampliação das vagas na escola pública” (COUTINHO, 2007, p.136). Para secretário de educação e cultura do Estado da Guanabara foi escolhido o professor Carlos Octávio Flexa Ribeiro, que tinha dois objetivos: primeiro era adequação da estrutura curricular a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (nº4024/1961) e segundo era a expansão do número de vagas nas escolas do novo estado. De acordo com Coutinho e Gouveia (2019, p.7) a reforma adotada por Flexa Ribeiro buscou dar flexibilidade aos conteúdos programáticos das disciplinas do curso primário.


Verifica-se no documento Reforma do Ensino Primário do Estado da Guanabara (ESTADO DA GUANABARA, 1962) que a disciplina de Matemática apresentava o maior índice de reprovação entre os alunos do primário, e com a reforma foi realizada mudanças e necessidade de readequar os programas das disciplinas. A Reforma estava baseada em propostas da Escola Nova.[3]


Neste cenário e a necessidade de um Programa para o estado da Guanabara era eminente, o Estado convoca Fontoura para elaborar o Programa para o Curso Primário do Estado da Guanabara[4].


Fontoura já possuía reconhecimento significativo entre os educadores, devido à ampla circulação e aceitação da série Biblioteca Didática Brasileira, que ele organizou e lançou em 1949. Essa coleção, publicada pela Editora Aurora, tinha como objetivo preencher a lacuna de recursos educativos direcionados à capacitação de professores, fundamentados nos princípios da escola nova. Podemos justificar a convocação de Fontoura pelo Estado por sua expertise e resultado da circulação e aceitação da coleção Biblioteca didática brasileira.


As experiências educacionais de Fontoura, postas em seus manuais para normalistas, podem ter sido produzidas a partir de apropriações de literatura nacional e estrangeira referentes a educação escolanovista, cujo acesso pode ter sido facilitado pelos lugares de poder ocupado por ele. O prestígio entre seus pares propiciou a participação em Congressos, reuniões, Comissões, nacionais e internacionais, entre outros. A sistematização de experiências docentes em manuais didáticos que circularam em escolas normais em diferentes estados[5], por meio de suas obras, pode ter contribuído com a convocação de Fontoura para elaborar o Programa do ensino primário da Guanabara (O FLUMINENSE, 1964).


De acordo com França (2016), Fontoura ficou responsável por produzir o Programa do Curso Primário (ESTADO DA GUANABARA, 1965), e isso evidencia que o docente exerceu uma função estatal para resolver um problema atuando na produção de um Programa para o novo Estado da Guanabara. Ele tinha reconhecimento de seus pares e conhecimento sobre a profissão docente, uma vez que atuou na formação de professores primários do Instituto de Educação, como professor de instituições de nível superior como dito anteriormente.


França (2016) analisou o Programa da escola Primária do Estado da Guanabara tentando buscar o surgimento de uma nova matemática a e para ensinar Aritmética, com a inclusão/ exclusão de conceitos na matemática[6]. Com relação aos saberes matemáticos elementares para ensinar analisados neste programa, Fontoura acompanha o ideário da Escola Nova em relação aos métodos de ensino, em que se notam as estreitas relações da Psicologia com a Pedagogia, condicionando as atividades ao desenvolvimento das potencialidades dos alunos, com uso de diferentes recursos materiais em sala de aula como forma de auxiliar o aluno em sua aprendizagem.


As mudanças postas no Programa de Fontoura tinham como centralidade orientar as ações do professor em sala de aula, um saber prescrito e instrumental. Defendia saberes que corroboravam com os ideais escolanovistas: relacionar a escola com a vida, aprender pela ação e levar em conta o desenvolvimento infantil para a organização das aprendizagens na escola. Para esse movimento, a ênfase da educação não está na acumulação de conhecimentos, mas na capacidade de aplicá-los às situações vividas.


No que diz respeito à matemática a e para ensinar identificada no Programa, há alguns conceitos que parecem ter ganhado mais destaque, como: a construção do conceito de número, o ensino das quatro operações, o ensino de frações, tabuada e os problemas, os cálculos rápidos e o cálculo mental, ou seja, uma Aritmética prática. Interessante também considerar a preocupação com a exploração do sistema monetário e suas transações, visto que tinha por objetivo atender a uma mão de obra principalmente voltada ao comércio. Dito isso, concluímos que os saberes docentes objetivados no Programa acompanharam as recomendações dos campos da psicologia e da didática em relação à preocupação com o que ensinar em cada etapa de escolaridade, utilitária, graduada e agradável para a Aritmética com utilização de jogos, e saberes profissionais referentes à organização de sala de aula.


Em suma, Afro Amaral Fontoura por conta de sua expertise possibilitou a sistematização e objetivação de saberes docentes aritméticos que consideravam situações da vida prática do aluno, além de propostas funcionais, como o cálculo mental, utilitário e rápido em jogos e concursos, e saberes referentes à forma de organização de uma sala de aula, de acordo com os estudos da psicologia científica.


 

Referências


COUTINHO, Maria Angélica da Gama Cabral. As professoras primárias da Guanabara de Lacerda: a construção do tipo antropológico. Eccos Revista Científica, vol. 9, núm. 1, janeiro-junho, 2007, pp. 135-156 Universidade Nove de Julho São Paulo, Brasil. Disponível em: https://periodicos.uninove.br/eccos/article/view/491/473. Acesso: 29 ago. 2023


COUTINHO, Maria Angelica da Gama Cabral; GOUVÊA, Fernando Cesar Ferreira. Flexa Ribeiro: secretário de educação de Carlos Lacerda na Guanabara (1960-1965). Educação em Perspectiva, Viçosa, MG, v. 10, p. e019036, 2019 Disponível em: https://periodicos.ufv.br/educacaoemperspectiva/article/view/7103. Acesso em: 11 set. 2023.


FRANÇA, Denise Medina de Almeida. Afro do Amaral Fontoura: a sistematização de saberes aritméticos para os cursos de formação de professores da Guanabara (1960-1974). Cadernos de História da Educação (ONLINE), v. 21, p. e066, 2022. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/che/article/view/64742/33392. Acesso: 11 set 2023.


FRANÇA, Denise Medina. M. O ensino de aritmética no programa do ensino primário do estado da Guanabara (1961). Revista de História da Educação Matemática, [S. l.], v. 2, n. 1, 2016. Disponível em: https://www.histemat.com.br/index.php/HISTEMAT/article/view/40. Acesso em: 29 ago. 2023. Acesso: 17 fev. 2021.


HOFSTETTER, Rita, & SCHNEUWLY, Bernard. Penetrar na verdade da escola para ter elementos concretos de sua avaliação: a irresistível institucionalização do expert em educação (século XIX e XX). In: HOFSTETTER, Rita; VALENTE, Wagner Rodrigues (org.). Saberes em (trans)formação: tema central da formação de professores. São Paulo, SP: Editora Livraria da Física, 2017. p. 55-112.


MACIEL, Lizete Shizue Bomura; VIEIRA, Renata de Almeida; SOUZA, Fátima Cristina Lucas de. Afro do Amaral Fontoura: estudos, produções e a escola viva. Revista HISTEDBR On-line, n. 47, p. 232-250, set. 2012. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8640049/7608>. Acesso em: 6 ago. 2019.


OSORIO, Mauro. VERSIANI, Maria Helena. O papel das instituições na trajetória econômico-social do Estado do Rio de Janeiro. Cadernos do Desenvolvimento Fluminense


(Fundação CEPERJ), n. 2, julho 2013, p. 1-23.Disponível em: https://redeprorio.com/wp-content/uploads/2021/09/OSORIO-e-VERSIANI-O-papel-das-instituicoes-na-trajetoria-economico-social-do-Estado-do-Rio-de-Janeiro.pdf. Acesso: 11 set 2023.


SCHNEIDER, Laura Aparecida Dreyer; STENTZLER, Márcia Marlene. Prescrições didáticas de Afro do Amaral Fontoura e seu uso na Escola Normal Professora Amasília. In: JORNADA DO HISTEDBR, 10., 2011, Vitória da Conquista, BA. Anais [...]. [S.I.: s.n.], 2011. Disponível em: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada10/apresentacao.html. Acesso em: 9 ago. 2019.


TADEI, Gescielly B. da Silva. A psicologia da educação nos manuais didáticos de Afro do Amaral Fontoura (Paraná, 1950-1970). 2016. Tese (Doutorado em Educação) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2016.


VALENTE, Wagner Rodrigues. Que matemática para formar o futuro professor? História do saber profissional do professor que ensina matemática. Conferência. Revista Exitus, Santarém/PA, v. 9, n. 2., 2019.


 

Fontes consultadas:


ESTADO DA GUANABARA. Programa para o Curso Primário do estado da Guanabara. Série II, Ed. 6. Estado da Guanabara: Editora Aurora, 1965. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/134100. Acesso: 17 jul.2019.


ESTADO DA GUANABARA. Secretaria de Educação e Cultura. Reforma do Ensino Primário. 1962. Disponível em: http://arquivohistorico.inep.gov.br/uploads/r/instituto-nacional-de-estudos-e-pesquisas-educacionais-anisio-teixeira-t-2/0/4/f/04f427254280c9783e7fc48512f1beb2e660ee0549f3a0bee131917811503bce/CBPE_m134p01_ReformaDoEnsinoPrimario_1962.pdf Acesso em: 05 abr. 2021.


FONTOURA, Afro do Amaral. Coleção Biblioteca didática brasileira Rio de Janeiro: Editôra Aurora Ltda, 1958. (Série Escola Viva)


JORNAL DO BRASIL. Atos do Interventor Fluminense. Rio de Janeiro 06, fev., 1941. Disponível em: http://memoria.bn.br/pdf/030015/per030015_1941_00031.pdf Acesso em: 08, abr. 2021.


O DIÁRIO DE NOTÍCIAS. Diario escolar. Diretrizes e Bases da Educação Nacional– comentada e interpretada pelo Professor Afro do Amaral Fontoura. Rio de Janeiro,1962. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/093718_04/23690. Acesso em: 30 de jul. 2019.


O FLUMINENSE. Curso para professores começam amanhã. Rio de Janeiro, 1964a. Disponível em: <http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=100439_10&pagfis=11437 >. Acesso em: 30 de jul. 2023.


O FLUMINENSE. Programas de ensino primário serão adaptados à Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Rio de Janeiro. 04, jul. 1964b. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=100439_10&pesq=%22Afro%20amaral%20Fontoura%22&pasta=ano%20196&pagfis=12491.  Acesso em: 08, abr. 2021.


 

Notas:


[1] Informações pessoais foram obtidas na folha de casamento com a primeira mulher, no site Family Search.


[2] Em um estudo conduzido na Hemeroteca digital, foram encontradas 175 menções relacionadas ao professor em questão. Utilizando as informações extraídas das notícias, foi elaborada uma linha do tempo abrangendo o período de 1950 a 1980, que também permitiu analisar a extensão de suas atividades.


[3] De acordo com França (2022), os tempos da Escola Nova, em relação aos métodos de ensino, cada vez mais se notam as estreitas relações da Psicologia com a Pedagogia, condicionando as atividades ao desenvolvimento das potencialidades dos alunos, com uso de diferentes recursos materiais em sala de aula para auxiliar o aluno em sua aprendizagem. Com a crescente articulação dessas áreas percebe-se a ascensão da Pedagogia Científica, da Psicologia Experimental referenciada pelos processos estatísticos de medida penetrando na prática de testes nas escolas.


[4] Segundo França (2022), o Programa do ensino primário do estado da Guanabara é uma reedição de um Manual didático, Volume I da coleção Biblioteca Didática Brasileira de autoria de Afro do Amaral Fontoura.


[5] Ver França (2020); Tadei (2016); Schneider e Stentzler (2016).


[6] Apropriando-se dos conceitos de saberes a ensinar e saberes para ensinar, conforme definem Hofstetter e Schneuwly (2017), a hipótese teórica é que o saber profissional do professor que ensina matemática seja formado por dois conjuntos de saberes, quais sejam: a matemática a ensinar e a matemática para ensinar (VALENTE, 2019). A primeira, “refere-se à matemática como objeto de ensino do professor; o que ele tem que ensinar” (p.18), que se origina do campo disciplinar matemático. Já, a segunda, “leva em conta a formação de professores” (p. 18), “indica o instrumento para esse ensino, uma ferramenta, portanto” (p. 21).

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