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LAURO DE OLIVEIRA LIMA (1921-2013)

por Maria José Costa dos Santos, Vladiana Costa dos Santos

Lauro, como era conhecido nosso personagem, nasceu em 12 de abril de 1921 no Brasil, na região Nordeste, no estado do Ceará, na cidade de Limoeiro do Norte, e faleceu em 29 de janeiro de 2013. O professor Lauro de Oliveira Lima, figura marcante na história da educação brasileira - contemporâneo de Darci Ribeiro e Paulo Freire - foi considerado um reformador do ensino brasileiro em função de suas críticas ao sistema de ensino. Lauro nasceu em um ano em que não havia ainda um sistema organizado de educação pública, numa época em que a rede de ensino não era controlada pelo Ministério da Educação (MEC). A área da educação, durante as décadas de 20 e 30 do século XX, foi marcada por grandes iniciativas, como a busca em dar visibilidade ao movimento do Escolanovismo que foi resultado do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova[1] que sinalizava a reestruturação do campo educacional. Essas décadas foram marcadas, ainda, por conta das reformas educacionais, e desse importante movimento, da Escola Nova, que apresentou grandes temas e grandes figuras associadas a ele, como por exemplo, Dewey e Rousseau. Esse Manifesto veio exatamente para transformar as estruturas curriculares daquele período, se contrapondo às práticas tradicionais e ao ensino conteudista e enciclopedista. A defesa de uma escola pública, universal e gratuita se tornou uma grande bandeira. A educação escolar deveria ser proporcionada a todos, e todos deveriam ter acesso ao mesmo tipo de educação. Compreendia-se que por meio das escolas seria possível preparar o indivíduo para uma nova forma de organização social e, como consequência, o país seria transformado.


Foi em meio a essas transformações no campo educacional que Lauro aprendeu a ler, a escrever e a contar com o mestre-escola Zé Afonso, único professor da região, (ensinava também o “manuscrito”, que era uma espécie de curso de pós-graduação, e a “Tabuada Grande”, a matemática superior), além disso, Lauro fez parte do curso primário com o professor Horácio Ferreira Rocha - Mestre Horácio. (BELLO, 2010)


Na década de 1920, ocorreu uma ação efetiva dos governos de vários estados, incluindo o Ceará, em adaptar suas escolas e o aparelho de ensino às novas exigências de um país em crescimento, que se industrializava. A própria ideia de qualificação de um povo pelo ensino correspondia ao próprio conceito de “moderno”, criando mecanismos de entrada para o crescimento da urbanização nas cidades. O conceito de moderno estava na condição de ser urbano, letrado, e, principalmente, voltado para os novos conceitos de ensino, baseados na Escola Nova, em voga no período. O campo educacional foi marcado pela Reforma da Instrução Pública (Lei n.º 1.953, de 2 de agosto de 1922), que marcou uma ação mais efetiva com a finalidade de melhorar o ensino no Ceará, reequipando umas escolas, construindo outras, e foi nesse cenário que se formou uma instituição de referência do ensino em Limoeiro do Norte, cidade de Lauro – “A Escola Normal” –, adquirindo novos equipamentos escolares e aperfeiçoando o professorado cearense, o que elevaria o nível da formação docente. A proposta de Reforma da Instrução Pública veio para modificar e garantir maior oferta de ensino, com garantias de qualidade, tanto na estrutura física, como na organização do ensino. Esse resgate histórico deve-se a Lauro, no livro Sistema Escolar de Limoeiro do Norte (LIMA, 2002).


Em meio a esse cenário marcado pelas reformas educacionais, surgiu o MEC, criado em 1930, logo após a chegada de Getúlio Vargas ao poder. Surgiu com o nome de Ministério da Educação e Saúde Pública, e englobava atividades pertinentes a vários ministérios, como saúde, esporte, educação e meio ambiente, passando a tratar de assuntos que eram ligados à educação e que antes eram tratados pelo Departamento Nacional do Ensino, ligado ao Ministério da Justiça.


Essas reformas não foram suficientes para garantir a ampliação dos espaços de estudos. No caso de Lauro, o acesso à escola em Limoeiro do Norte-Ceará, ainda era escasso. Para progredir nos estudos, era necessário sair da cidade e Lauro optou por sair de sua cidade natal em 1934, com apoio de seu primo Padre Afonso de Oliveira Lima. Seguiu então para o Seminário Salvatoriano da cidade de Jundiaí em São Paulo, a fim de cursar o ginásio na escola apostólica “Divino Salvador”, local em que passou cinco anos como seminarista. Retornou para Limoeiro do Norte, em 1939, para reencontrar a família e amigos e é então convidado para lecionar no Instituto Padre Anchieta, que mais tarde se tornaria o Colégio Diocesano, existente até hoje. Não demorou muito e Lauro foi para a capital, Fortaleza, para trabalhar como secretário, chefe do internato e professor no Ginásio Fortaleza. Foi ali que Lauro deu início a sua carreira de magistério, dando aulas de Latim e Francês e substituindo professores de várias matérias, ao mesmo tempo, iniciava sua legalização do curso secundário através do Artigo 100[2] ou exame elefante, correspondentes ao terceiro, quarto e quinto ano do curso fundamental (BELLO, 2010, p. 25).


Lauro em 1949, aos 28 anos de idade, tornou-se bacharel em Direito, formando-se pela Faculdade de Direito do Ceará. Lauro cursou Filosofia e Direito ao mesmo tempo, e em 1950 licenciou-se em Filosofia. Essas formações colaboraram para Lauro lecionar, em 1951, Psicologia no Curso Normal do Ginásio Farias Brito, marcando o início da implementação de suas ideias revolucionárias para educação. (DOSSIÊ, 2021)


Em 1952 fundou o Ginásio Agapito dos Santos e em 1962 escreveu a obra “Escola Secundária Moderna”, uma importante obra, em que Lauro faz reflexões importantes como: o professor já não é mero informante; o professor é o agente catalítico cuja presença provoca desequilíbrios (necessidade) de onde parte a atividade discente; o professor não impinge informações, desafia os alunos a pesquisarem as soluções dos problemas que propõe; o professor é um criador de obstáculos, entusiasma os alunos pelo trabalho que está sendo realizado, daí a importância didática da capacidade de dramatização do professor; e não esquecer que o exercício da reflexão, redunda numa pesquisa, todo professor, portanto, em certo momento, é professor de análise, e analisar é preceder uma assimilação e compreender um sistema. Essas ideias de Lauro que foram publicadas na coleção Guia para os professores do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, ganham espaço no cenário nacional, influenciando diretamente nos currículos escolares e acadêmicos. Os trabalhos não foram elaborados na mesma época, resultaram de encontros de educadores, jornadas de diretores, seminários de estudos, missões pedagógicas e cursos de aperfeiçoamento de professores pela Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (CADES) e as Inspetorias Seccionais de Fortaleza. O convite para publicação, em 1962, foi feito por Anísio Teixeira, pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos[3]. Lauro considerava essa obra não um livro de texto para alunos, mas um estimulante guia para os professores, e o comparava com os volumes da National Society for the Study of Education dos Estados Unidos. (LIMA, 1976, p. 5).


O livro A Escola Secundária Moderna é uma verdadeira obra-prima da educação nacional que infelizmente foi pouco divulgado e, provavelmente, pouco lido. Nele, Lauro, oferece todas as possibilidades de situações problemas enfrentados pelos professores e a cada uma dessas situações propõe uma ação, o que é uma característica relevante desse educador, apresentar soluções (BELLO, 2010, p. 89). Além de ser um livro altamente didático é também uma espécie de manual para aqueles que querem trabalhar com educação secundária. Todo ele é recheado de sugestões que levam o professor a entender que ele “não ensina, mas ajuda o aluno a aprender.” (BELLO, 2010, p. 89). Essa publicação, ainda, colabora para sua afirmação como “reformulador” da educação brasileira. (DOSSIÊ, 2021)


Em 1953, foi criada a CADES, por meio do Decreto n.º 34.638, de 17 de novembro de 1953. Destaca-se no decreto a promoção de: cursos e estágios de especialização e aperfeiçoamento; estudos dos programas e dos métodos de ensino das várias disciplinas; e, elaboração de material didático, com foco especial nos materiais audiovisuais para as escolas, visando suprir a defasagem da formação acadêmica dos professores. Lauro, novamente assume um papel importante na educação brasileira como orientador pedagógico no primeiro curso da CADES, em 1955. Esse foi o período que envolveu também a criação do Colégio Agapito dos Santos. A escrita da obra Escola secundária moderna e sua participação na CADES, geraram discussões que consolidaram suas ideias sobre o entendimento de sua principal concepção didática, que “o professor não ensina: ajuda o aluno a aprender”. Pode-se afirmar que a publicação da obra trouxe mais destaque para ele como educador.


Ainda em 1955, outro fato marcante na perspectiva histórica de Lauro como educador é sua nomeação como inspector Seccional do MEC no Ceará, essa atividade foi exercida por ele e amparada anos depois pelo Decreto n.º 50.808, de 17 de junho de 1961. (DOSSIÊ, 2021)


O artigo 12 do Regimento da Diretoria do Ensino Secundário do Ministério da Educação e Cultura, aprovado pelo Decreto n.º 40.050, de 29 de setembro de 1956, passou a ter a seguinte redação: “Art. 12 As Inspetorias Seccionadas (I.S.) terão suas áreas de jurisdição fixadas pelo Diretor do Ensino Secundário, havendo em cada uma, além do Inspector Seccional, que passou a chefiar os Inspetores, do Ensino Secundário em exercício na respectiva área de jurisdição, o número de Inspetores Assistentes e de Inspetores Itinerantes”.


Esse foi um ano que Lauro teve importantes influências na formação de professores quando foi nomeado professor do Instituto de Educação do Ceará, e logo depois prestou concurso para professor catedrático de Pedagogia. Por conta de seu destaque como educador, e suas obras, em 1957 Lauro lança o livro Uma Escola Secundária Popular, e em 1960, quando a capital do país mudou-se para Brasília, Lauro passou a ter participação e colaboração nas transformações estruturais do MEC. Foi em 1963, que ele foi nomeado Diretor da Diretoria do Ensino Secundário do MEC pelo então Presidente da República João Goulart, e passou a compor a equipe ministerial, trabalhando ao lado de renomados educadores como: Paulo Freire, Anísio Teixeira, Armando Hildebrando e Darcy Ribeiro.


Mas logo em seguida, Lauro, sua família e todo o Brasil têm suas vidas transformadas pelo Golpe Militar de 1964. Ele perdeu o cargo de Diretor do Ensino Secundário, foi aposentado compulsoriamente aos 43 anos, teve seus direitos políticos cassados, foi acusado de comunista e subversivo, ficou preso durante três meses, e, se viu obrigado a mudar-se para o Rio de Janeiro com sua família. É nesse cenário que Lauro, apesar das dificuldades, nunca desistiu das suas ideias revolucionárias, e com uma máquina de escrever nas mãos, percebeu a possibilidade de materializar suas ideias, passando a escrever compulsivamente as seguintes obras: Tecnologia, Educação e Democracia (1965), Treinamento do professor primário: uma nova concepção da escola normal (1966), A Escola no Futuro (1966), Estórias da educação no Brasil: de Pombal a Passarinho (1966), Conflitos no Lar e na Escola (1967), Educar para a comunidade (1967), O Impasse na Educação (1968), e o Treinamento em Dinâmica de Grupo no Lar, na Empresa, na Escola (1969).


Foi nesse momento que passou a ministrar cursos sobre dinâmicas de grupo, e suas reflexões educacionais ganharam espaço nos programas de pós-graduação, a exemplo, a disciplina Experiência em Dinâmica de grupos no curso de pós-graduação em ensino da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará. Como um educador extemporâneo, e demarcando seu espaço no cenário educacional, o que o destacava era sua forte visão do futuro, pois no contexto histórico das décadas de 50, 60, 70 do século XX ele já fazia uma projeção da educação para o futuro.


Como um admirador de Jean Piaget, em 1972 concretizou seu grande projeto, pois recebeu por escrito a autorização para usar as ideias e o nome de Jean Piaget em uma instituição dedicada a experimentar as teorias desenvolvidas por ele na área de educação, e assim, criou o Centro Experimental e Educacional Jean Piaget, no Rio de Janeiro, fundando ali a Escola Chave do Tamanho. Com isso Lauro esperava obter respaldo científico de suas ideias sobre o desenvolvimento intelectual das crianças para criar o seu Método Educacional, fundamentado na Psicogênese – uma visão pedagógica da teoria piagetiana apoiada nos estudos de Piaget. Mas a morte de Piaget, em 16 de setembro de 1980, desencadeou o desmonte do Centro de Epistemologia Genética de Genebra, no entanto ainda foi possível realizar três congressos e trazer vários discípulos de Piaget para o Brasil, na tentativa de manter viva a obra do seu mestre e expor as mais recentes pesquisas científicas na área da educação.


A dinâmica de grupo é tida como a didática básica. Para muitos, ainda, Dinâmica de grupo é uma espécie de jogo, montado por especialistas, com o intuito de avaliar coisas que escapam ao comum dos mortais. Dinâmica de Grupo – do ponto de vista didático – é o treinamento que visa à superação de percalços ontogenéticos e filogenéticos, mesmo enfrentando os tabus e arcaísmos que impediram a maturação cooperativa do ser humano. O grupo é a própria condição psicológica de maturação tanto na área afetiva como na área intelectual: sem grupo não cresce a inteligência, nem se forma o amor (egocentrismo e objetivação). (LIMA, 2005, p. 43).


Para esse intelectual, o aprender vem quando a ideia do ensino é substituída por uma autoaprendizagem, cabendo ao professor criar situações em que os jovens se disponham a utilizar a informação que está presente no ambiente. Podemos dizer que Lauro revolucionou a escrita educacional e pedagógica, e em 2021 completaria 100 anos, e podemos nos perguntar: como Lauro reagiria as transformações educacionais deste século XXI? Ele deixou um importante legado para educação, suas obras e seu método, as preocupações pedagógicas do autor, bem como, sua relação com a aprendizagem das crianças e dos jovens, sobre os movimentos da juventude, defendendo como eles sabem se organizar e que não aceitam formalismos escolares inventados na idade média, e sobre suas inquietações e desafios acerca da forma de ensinar e de aprender de maneira proativa envolvendo nos processos de ensino e de aprendizagem, professor-estudante.


Ele nunca se conformou que as diferenças fossem tratadas iguais, esta que representava uma educação homogênea que não se encaixava na sociedade brasileira, e pregava como princípio fundamental do seu método, já exposto anteriormente. Para ele o professor deveria ensinar a pensar, a criticar, a descobrir, a inventar, formar alunos com independência, autonomia de resolução de situações, e com opiniões no espaço da sala de aula. Ficou conhecido como um crítico à educação brasileira, ao mesmo tempo que propunha soluções que colaborassem com a construção de uma educação de qualidade e significativa.


Para nosso expert, o professor tem por obrigação profissional, estimular a criatividade do aluno para resolver situações-problema. Para ele a tarefa do professor é estimular a superação de um nível de conhecimento para outro superior, deixando com que os alunos, no processo de interação da sala de aula, construam o aumento do seu conhecimento. Mas para ele a falta de didática não permite a formação adequada de indivíduos e impedirá que esses sejam capazes de planejar o futuro, e isso é um dos maiores problemas da educação brasileira. Destaca, ainda, que os professores continuam apresentando os conteúdos de um jeito maçante e utilizando o livro como o único recurso didático.


Foi diante de um cenário caótico, de muito analfabetismo, que Lauro apresentou o Método Psicogenético desenvolvido por ele próprio. Esse método consiste na tradução para a prática escolar das concepções do desenvolvimento humano decorrentes das pesquisas de Jean Piaget, que educa pela inteligência, avaliando que o método pondera as questões apresentadas pela psicologia moderna, uma vez que segundo Lara e Souza (2013, p. 698) esta conclui que “dadas condições neurônicas normais hereditárias - o restante todo do desenvolvimento mental é função das relações de produção e dos intercâmbios sociais”.


Esse método visa uma prática escolar baseada no equilíbrio, um projeto experimental de educação baseado nos tempos de J. Piaget. Tem por objetivo fazer da educação uma intervenção científica no processo de desenvolvimento e consiste em acompanhar, passo a passo, o desdobramento das possibilidades genéticas do crescimento das crianças para apresentar situações que estimulem a construção de estruturas “cada vez mais móveis, mais complexas, mais amplas e mais estáveis”, explica Lima(1982, p.100).


Para tanto, o professor deve criar um ambiente estimulante, que auxilie o desenvolvimento da criança e que as adaptações não sejam um “sofrimento” para elas. O papel do professor é entrar numa sala de aula com os objetivos definidos, sem esquecer que a didática deve fundamentar-se prioritariamente na psicologia, e que o professor não pode unicamente apoiar-se no pedagógico. É preciso que os professores modifiquem seus métodos para o aluno interagir sempre, e sobre isso, o método contribui de forma contundente para o pensamento de uma educação e uma formação que se centra na ação, na reflexão, na compreensão e no aprender. O processo pedagógico modifica-se sucessivamente, de acordo com o estágio de desenvolvimento mental (psicogênese). O aluno é que determina como o professor deve apresentar as situações didáticas, pois, em cada estágio de desenvolvimento ele tem uma maneira diferente de aprender (esquemas de assimilação). Já o processo didático segue as seguintes linhas fundamentais: - Para se trabalhar com o método é preciso mudar o ponto de vista do professor. - Neste método quem trabalha são os alunos. - O professor não fala, deixa que seus alunos falem a partir da Dinâmica de Grupo. - O professor é um grande planejador que deve ter todos os conteúdos encadeados, para que o conhecimento aconteça. Neste método, o melhor professor de uma criança é a outra criança, que acabou de aprender. Lauro numa visão extremamente revolucionária, como eram suas ideias para a época, dizia, para que os professores deixassem que os alunos falassem, e era para os professores colocá-los em círculos para que todos vissem todos. (LIMA, 1976)


Outra ideia que refletiu a personalidade de um educador subversivo que Lauro de forma muito responsável representava, era sobre a concordância desse professor com as ideias de Paulo Freire em que “o respeito à autonomia e à dignidade, pois cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”. Para ele uma importância do método é a oportunidade que o aluno tem de desenvolver autonomia, na formação de valores fundamentais na construção ética e humana do indivíduo, como dizia Paulo Freire, que o papel do professor deveria ser de respeito “à curiosidade do educando, ao seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem”. Ele ainda destaca, que “o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que “ele se ponha em seu lugar” ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, ambos, transgridem os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência”. (FREIRE, 1996, p. 24-25)


Tais ideias perpassam também às contribuições de Lauro para a Matemática, alicerçado na teoria de Piaget. Para ele o ensino é aquele que considera o aluno como um coconstrutor do conhecimento matemático, no qual professor e aluno atuam de modo interativo. Conforme Lauro (1980), uma teoria educacional advinda dos estudos piagetianos deveria denominar-se interacionista, pois a escola constitui um local – por excelência – onde ocorre a interação professor-aluno-conteúdo matemático. Focando suas reflexões nos anos iniciais do ensino fundamental, reforça a importância do agir no/sobre o concreto e que isso torna-se uma condição necessária ao progressivo desenvolvimento do pensamento lógico-matemático, propiciando posteriormente a construção do raciocínio hipotético-formal. (LIMA, 1980)


O grande trabalho do pedagogo, pois, não é descobrir uma “didática da matemática” (e a didática da matemática é o próprio método hipotético-dedutivo), mas planejar atividades didáticas que contribuam para a tomada de consciência de “embriologia das noções elementares da matemática” (atividade que ocupará um período de nove anos na vida da criança). (LIMA, 1980 p. 51-52). No prefácio do livro Estudo Dirigido de Matemática, de 1964, de Luís Alberto Santos Brasil, Lauro explicita que, de acordo com a teoria psicogenética, o pensamento abstrato é uma capacidade humana, o que explica o surgimento da técnica (Matemática). As reflexões de Lauro apontam que só é possível ao ser humano a construção, como instrumento de trabalho mental, de uma técnica que corresponda à sua própria essencialidade funcional. “[...] a forma de ‘ação matemática’, isto é, a forma de pensamento operatório, pois, há de ser, fundamentalmente, comum a todos os seres humanos normais.” (LIMA, 1964, p. 7).


Com um perfil de educador crítico e defensor de que toda crítica é destrutiva, pois se dispõe a destruir o estabelecido, sempre ousou com críticas contundentes, e no que se refere o aprender Matemática na escola, para ele não pode ser parâmetro para a “normalidade” dos alunos, pois para ele o fracasso escolar nessa disciplina deveria ser atribuído à Didática. Ele evidenciou que aprender Matemática, não se limitava ao domínio de automatismos, como ter a capacidade de recitar a tabuada; a aprendizagem vincula-se à capacidade de desenvolver raciocínios e formas de pensamento tipicamente matemáticos. Destacou que a natureza dos objetos matemáticos que são considerados abstratos, é uma operação do pensamento, e que ainda pode-se dizer que a Matemática é uma “linguagem” altamente purificada, desligada dos símbolos dos objetos e ligada aos símbolos das relações. Diz ainda que foi manipulando objetos que o homem descobriu as leis que regulam suas relações, e que não se deve ensinar Matemática sem esta manipulação real ou imaginada, pelo menos enquanto o aluno não tiver a posse plena dos esquemas operatórios (abstratos) (LIMA, 1964, p. 14).


Foi a partir dessas reflexões que ele caracterizou os professores de Matemática como “professores de pensamento”. Para o autor entre os 12 e 15 anos de idade o pensamento operatório na criança não está plenamente desenvolvido, e que, portanto, é responsabilidade do professor ensiná-la a pensar, proporcionando, o correto ensino da Matemática, a “utilização do pensamento operatório, só alcançável a partir de esforço e de situações-problema adequados” (LIMA, 1964, p.13). Ainda sobre a aprendizagem matemática, ele sugere o uso da História da Matemática como técnica pedagógica, considerando que a “filogênese desta ciência serve como processo didático para a ontogênese da aprendizagem atual de operações que, através do tempo e de sistematizações, se tornaram altamente sintéticas” (LIMA, 1964, p. 11). Para o autor, os processos matemáticos são resultados de sucessivas simplificações de “longas e enfadonhas operações” e, mesmo abreviadamente, os procedimentos históricos usados na construção dessas relações deveriam ser apresentados aos educandos até que eles sentissem a necessidade de simplificar tais procedimentos.


Para Lauro a teoria de J. Piaget caracteriza-se pelo construtivismo, que segundo ele é a forma de inventar a matemática, de modo que, a partir das atividades sensório-motoras, o professor deve encontrar processos didáticos que levem à construção das “noções elementares” da matemática. Lauro ressalta que quase nada se pode obter, para isto, dos matemáticos que partem de “intuições” que só aparecem no final deste longo período. Ele ainda diz que o mesmo se pode dizer dos lógicos, pois esses também não se dão ao trabalho de estudar a embriologia das noções elementares da lógica. Para o autor, o professor tem que aprender um mínimo de matemática (teórica) para conduzir o desenvolvimento das crianças até o limiar das noções elementares usadas pelos matemáticos. (LIMA, 1980, p.51-52)


Lauro foi escolhido como nosso expert por ser um grande educador brasileiro, por ter colaborado com as mudanças estruturais, didáticas e pedagógicas da educação ao longo de sua trajetória, também por suas análises críticas que têm como base as teorias epistemológicas de Jean Piaget, e ao tentar destruir um sistema pedagógico brasileiro, arcaico, inútil, aponta que seu método é uma utopia possível a ser construída. A pedagogia do Lauro foi sempre “através do aprender, ele escrevia aquilo que realmente acreditava como forma de se comportar na vida”. Sua personalidade é retratada através de sua obra. (BELLO, 2010, p.50)


O autor escreveu mais de trinta obras relacionadas à educação, e depois de ter escrito sobre sua terra (Limoeiro), o educador Lauro, continua a ser, do alto de sua riquíssima e exitosa experiência, o melhor exemplo de uma máxima cunhada por ele mesmo: “Não se deve transformar a mediocridade em valor de vida”. Lauro de Oliveira Lima é um autor que falava que “o professor atual não é mais um informador: a informação vem através do rádio, televisão, cinema, revistas, livros, cartazes. A palavra do professor e o livro didático são processos paleontológicos diante da explosão da informação.” (LIMA, 1971, p. 10)


Lauro se destacava por seu espírito insubmisso, e sua ojeriza à mediocridade, que os tornaram-no uma espécie de aguilhão contra o convencionalismo e à absorção acrítica das formas tradicionais de ensino, desenvolvendo um importante trabalho no Brasil. Assim, objetivamos que este trabalho se torne um subsídio para o aprofundamento em relação às contribuições de Lauro Oliveira Lima à educação, bem como o reconhecimento de sua proposta educacional. Que suas ideias sejam mais bem compreendidas e ressignifiquem os atos de aprender e ensinar, e que seu método seja inserido nos estudos dos Cursos de Pedagogia e outras Licenciaturas.


Por fim, o legado de Lauro não só traz orgulho para sua cidade, mas sua importância para a educação brasileira, pois foi um educador que merece ter suas obras lidas, respeitadas, discutidas, estudadas e, principalmente, valorizadas. Nessa perspectiva, esperamos que a trajetória desse educador seja divulgada nas academias e nas escolas, e nesse século de sua existência, ressurja a partir de suas contribuições para a transformação da educação no Brasil.



Referências


BELLO, José Luiz Paiva. Lauro de Oliveira Lima um educador brasileiro. 1. ed. São Paulo: Editora Clube de Autores, 2010.


BRASIL. Decreto n.º 34.638, de 17 de novembro de 1953. Institui a Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1950-1959/decreto-34638-17-novembro-1953-329109-publicacaooriginal-1-pe.html#:~:text=Institui%20a%20Campanha%20de%20Aperfei%C3%A7oamento,que%20lhe%20confere%20o%20art. Acesso em: 27 abr. 2022.


BRASIL. Decreto n.º 40.050, de 29 de setembro de 1956. Aprova o Regimento da Diretoria do Ensino Secundário, do Ministério da Educação e Cultura. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1950-1959/decreto-40050-29-setembro-1956-332756-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 27 abr. 2022.


BRASIL, Luís Alberto S. Estudo dirigido de Matemática. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964.


CENTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS PEDAGÓGICOS (CBPE). CBPE_m156p01 - Pagamento ao Autor do Livro "Escola Secundária Moderna", 1962 – 1963. Disponível em: http://arquivohistorico.inep.gov.br/uploads/r/instituto-nacional-de-estudos-e-pesquisas-educacionais-anisio-teixeira-t-2/1/d/c/1dcc398f0059167d630acf7fb048df3f959434576dd76a9e3eacaa53210d3ed2/CBPE_m156p01_SeminariosDebatesEEstudosParaElaboracaoDoLivroEscolaSecundariaModerna.pdf . Acesso em: 25 abr. 2022.


DOSSIÊ. Edição especial centenário Lauro de Oliveira Lima. Evento-13 de agosto de 2021, transmissão ao vivo pelo Youtube. Disponível em: www.laurodeoliveiralima.com.br.N.1-2021.


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.


LIMA, Lauro de Oliveira. À guisa de Prefácio. In: BRASIL, Luís Alberto S. Estudo dirigido de Matemática. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964. p. 7-14.


LIMA, Lauro de Oliveira. O Impasse na Educação. 2. ed. Petrópolis–RJ: Vozes, 1968.


LIMA, Lauro de Oliveira. Treinamento em dinâmica de grupo: no lar, na empresa, na escola. Petrópolis: Vozes, 1969.


LIMA, Lauro de Oliveira. Dinâmicas de grupo na empresa, no lar e na escola. Grupos de Treinamento para a Produtividade. Editora Vozes. 2. ed., 2005.


LIMA, Lauro de Oliveira. Mutações em educação segundo MCLuhan. 3. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1971.


LIMA, Lauro de Oliveira. A escola secundária moderna. 11. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1976.


LIMA, Lauro de Oliveira. Piaget para principiantes. 6. ed. São Paulo, SP: Summus Editorial,1980.


LIMA, Lauro de Oliveira. Pedagogia: reprodução ou transformação. 1. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982.


LIMA, Lauro de Oliveira. Sistema Escolar de Limoeiro do Norte: Da colônia à escola que revolucionou o município. Fortaleza: Premius Editora, 2002.


PIAGET. Jean. Seis estudos de psicologia. Tradução Maria Alice Magalhães D’Amorim e Paulo Sérgio Lima Silva. 24. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999.


SANTOS, Vladiana Costa dos. A Proposta Educacional de Lauro Oliveira Lima: Reflexões Sobre Concepções de uma Educação Construtivista. Limoeiro do Norte-CE, 2017(Monografia apresentada em 21/01/2017).


SANTOS, Vladiana Costa dos. A Proposta Educacional de Lauro Oliveira Lima: Reflexões sobre Concepções de uma Educação Construtivista. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO – CONEDU, 6., 2019, Fortaleza. Anais eletrônicos [...]. Fortaleza: Editora Realize, 2019. Disponível em: TRABALHO_EV127_MD4_SA4_ID4883_01102019194734.pdf (editorarealize.com.br). Acesso em: 18 set. 2022.


SOUZA, Vânia de Fátima Matias de; LARA, Ângela Mara de Barros. Lauro de Oliveira Lima: a questão da universidade brasileira na década de 1960. Cadernos de História da Educação,v. 12, n. 2, p. 695-708, jul./dez. 2013. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/che/article/view/25036/13875. Acesso em: 14 fev. 2022.



Notas


[1] O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, “datado de 1932”, foi escrito durante o governo de Getúlio Vargas e consolidava a visão de um segmento da elite intelectual que, embora com diferentes posições ideológicas, vislumbrava a possibilidade de interferir na organização da sociedade brasileira do ponto de vista da educação.


[2] “Art. 100. Enquanto não forem em número suficiente os cursos noturnos de ensino secundário sob o regime de inspeção, será facultado requerer e prestar exames de habilitação na 3ª série e, em épocas posteriores, sucessivamente, os de habilitação na 4ª e na 5ª séries do curso fundamental ao candidato que apresentar os seguintes documentos: [...]”


[3] Vale informar que em 1972 o Instituto Nacional de Pedagogia recebe o nome de Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), e no início dos anos 90 do século XX, incluiu-se o nome de Anísio Teixeira, passando a ser chamado Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).

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