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Acervo da BN | Paraguay Illustrado: humor pesado em tempos de guerra

31 dez 2020

Artigo arquivado em Acervo da BN
e marcado com as tags Guerra do Paraguai, Humor Gráfico, Imprensa Ilustrada, Secult, Segundo Reinado, Solano Lopez

Quando um país está em guerra, é comum que boa parte de sua imprensa também se engaje no conflito – seja pela crítica ponderada, séria e sisuda, seja pelo humor. No que pese à participação brasileira na Guerra do Paraguai, iniciada em 1864, já está mais do que dito e documentado: a revista Semana Illustrada, de Henrique Fleiüss, próxima da coroa como ninguém e sucesso editorial estrondoso junto às elites, atuou quase como um órgão oficial de defesa da campanha verde e amarela. Mas, como todo ilustre representante do poder, claro está, a empresa de Fleiüss tinha que preservar certo decoro. Que dizer então a respeito de Paraguay Illustrado, “Semanario pamphicoromologico, asneirotico, burlesco & galhofeiro?”. Deixemos que sua iconografia o faça.

Circulando no Rio de Janeiro (RJ) entre 30 de julho e 26 outubro de 1865, totalizando somente 13 edições, Paraguay Illustrado foi um semanário satírico que funcionou como veículo de propaganda brasileira contra as forças do presidente paraguaio Solano López, durante a Guerra do Paraguai. Órgão de escracho pesado, não deixava barato: ilustrava López e seus oficiais com patas e chifres, quando não excessivamente obesos, com finas perninhas de saracura e enormes cabeças, à bonecões de Olinda: humor grotesco, em tempos de guerra. Por isso mesmo, suas imagens não vinham assinadas. Contendo quatro páginas por edição, todas impressas por litografia nas oficinas de J. Riscado, no Largo de São Francisco, a revista começou circulando aos domingos, saindo logo em seguida às quintas-feiras. Publicava quase exclusivamente humor ilustrado com relação ao conflito armado – alguns editoriais, textos humorísticos e enigmas também figuravam em algumas de suas edições.

Já que em sua edição inaugural publicara apenas desenhos, em sua edição nº 2, de 6 de agosto de 1865, o Paraguay Illustrado veio com o seguinte editorial:

É natural que o título seja sympathico, hoje principalmente que Paraguay é synonimo de burlesco. O Paraguay Illustrado é um riso de escarneo às ridículas acções do generalito Lopez. O ridículo é a sua arma, elle a isso se presta. E de bom grado prestamo-nos a immortalisal-o! Copiamos textualmente um typo caricato, sobra-nos mesmo assumpto. Expondo ao publico este insignificante trabalho, desde já pedimos vênia; luttamos com grandes difficuldades, sobretudo a falta de recursos que uma tal empreza reclama. Entretanto a nossa vontade irá vencendo as difficuldades que nos embaração. Assim o esperamos. Assim o publico nos auxilie.

No fim, não auxiliou. Apesar de ridicularizar o lado paraguaio durante a guerra, algo que certamente atuava junto à opinião pública brasileira, Paraguay Illustrado não durou muito. Para Nelson Werneck Sodré, em “História da imprensa do Brasil”, a vida curta da revista deveu-se justamente ao seu humor corrosivo. Ela havia sido lançada em um momento em que publicações humorísticas ilustradas mais amenas, como a supracitada Semana Illustrada, faziam mais sucesso – o “caráter combativo e irreverente das revistas ilustradas dificilmente permitiria o sucesso de publicações daquele teor”, nas palavras do historiador (p. 216). Teria o público letrado brasileiro daquele tempo claras posições a respeito dos limites do humor e do bom gosto?

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Primeira página do número 2 de Paraguay illustrado.