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História do Brasil | Debaixo da imediata proteção de S. M. I . - Fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (21/10/1838)

21 out 2020

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“Debaixo da imediata proteção de S. M. I o Senhor D. Pedro II”, e sob os auspícios da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, fundava-se, em 1838, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), com os objetivos iniciais, segundo seus Estatutos, de "coligir, metodizar, publicar ou arquivar os documentos necessários para a História e a Geografia do Brasil" e tendo como missão “preservar a cultura nacional, estimular estudos históricos, geográficos e de outras ciências sociais sobre o Brasil e reunir e divulgar documentos relativos à sua formação e identidade, com vistas à preservação da memória nacional”.

A fundação do IHGB se espelhava e inseria no ambiente cultural europeu da época, quando intelectuais e homens de notório saber se reuniam em instituições e associações para discutir literatura, história, ciências e artes. Essas instituições, que começaram a surgir no século XVII, se multiplicaram nos séculos seguintes. Somente na França, entre 1830 e 1870, mais de 80 sociedades foram estabelecidas, uma delas o Instituto Histórico de Paris, fundado em 1834, e que foi o modelo inspirador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Entre os associados correspondentes do Instituto de Paris estavam o cônego Januário da Cunha Barbosa (futuro diretor da Biblioteca Nacional) e Raimundo da Cunha Mattos, dois dos maiores idealizadores do IHGB. Ao longo do tempo, o contato entre as duas instituições se daria pela troca de publicações e correspondência, além da abertura de espaço na revista do instituto parisiense para temas e notícias relativas ao Brasil.

Januário da Cunha Barbosa, cônego da Capela Imperial e futuro diretor da Biblioteca Nacional e Raimundo da Cunha Mattos apresentaram a proposta de criação do IHGB ao conselho da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SIAN) - uma sociedade civil, privada, que tinha como seu protetor, assim como o IHGB, o Imperador Dom Pedro II – em agosto de 1838 (http://memoria.bn.br/DocReader/302295/2293) e, após algumas sessões, o Instituto foi oficialmente fundado na assembleia de 21 de outubro por um grupo composto em sua maioria por membros que ocupavam cargos de destaque na administração estatal e políticos de renome. Dos 27 fundadores, 12 eram conselheiros de Estado – deste grupo, 7 eram também senadores. Havia também professores e membros ligados à burocracia estatal: desembargadores, funcionários públicos e militares.

Se desde o início o IHGB se declarou uma instituição privada, também sempre contou com a proteção do Imperador D. Pedro II e subvenção do Estado para a realização de suas atividades e expedições. Inicialmente funcionando na sede do SIAN, já em 1840 se transfere para o Paço da Cidade e, em dezembro de 1849, inaugura suas novas instalações no Paço, construídas a mando do Imperador D. Pedro II. As novas instalações marcam um período de aprofundamento da relação com o Estado imperial. O Imperador passa a ser presença constante e participante do Instituto e, até 1889, foram mais de quinhentas sessões que contaram com a sua presença e presidência, contribuindo para a consolidação da imagem de governante esclarecido e amante das letras e da ciência. A participação imperial não era apenas presencial, mas se dava sugerindo temas para discussões, estabelecendo prêmios para trabalhos científicos e apoiando financeiramente a expansão do Instituto. Seu genuíno interesse em participar das atividades do IHGB ficam claros no discurso que proferiu por ocasião da inauguração da nova sede, cuja sessão ele também presidiu:

"Congratulando-me desde já convosco pelas felizes conseqüências do empenho, que contraís, reunindo-vos em meu palácio, recomendo ao vosso presidente que me informe sempre da marcha das comissoes, assim como me apresente, quando lhe ordenar, uma lista, que espero será a geral, dos sócios que bem cumprem com os seus deveres; comprazendo--me aliás em verificar por mim próprio os vossos esforços todas às vezes que tiver a satisfação de tomar parte em vossas lucubrações.” (http://memoria.bn.br/DocReader/094170_01/34192)

Contando com 50 sócios efetivos, 25 na área de História e 25 de Geografia, e sócios correspondentes ilimitados, o IHGB desenvolvia estudos científicos sobre aspectos históricos e também minerais, composição geográfica do território e formações vegetais, muitas vezes contribuindo com subsídios para o Estado em questões como negociações internacionais e demarcações de fronteiras. Um dos seus objetivos era contribuir para desenhar os contornos de uma identidade nacional brasileira e os trabalhos de seus membros ajudaram a promover a construção de uma narrativa histórica unificadora, contribuindo para forjar uma identidade nacional baseada na continuidade entre o período colonial e o Império brasileiro, ressaltando os laços e heranças portuguesas no Brasil. Seu principal meio de divulgação era a Revista do IHGB, trimestral e ainda em circulação. Essa revista teve uma função imprescindível na divulgação de documentos e consolidação das investigações e estudos históricos no país. Em suas páginas, o Instituto promoveu em 1846 o concurso “Como se deve escrever a história do Brasil”, vencido pelo naturalista alemão Carl Phillipp von Martius. Desde sua fundação, e previsto nos seus estatutos, o IHGB incentivava também sua ramificação, com a criação de institutos históricos nas províncias do Império a fim de contribuir com a coleta de documentos e estudos do país.

Já no período republicano, a sede do Instituto foi transferida para o prédio do Silogeu Brasileiro (foto), edifício construído durante as reformas de Pereira Passos no Rio de Janeiro e que já abrigava a Academia de Medicina e a Academia Brasileira de Letras. Neste prédio, o IHGB funcionou durante quase todo o século XX, no mesmo terreno em que foi construído prédio que abriga a atual sede, inaugurada em 1972.


Explore os documentos:

Sobre Januário da Cunha Barbosa e sua atuação na Biblioteca Nacional

Inauguração da nova sede no Paço da Cidade e discurso do Imperador D. Pedro II

Revista Trimestral do IHGB

Carta a destinatário desconhecido, anunciando a morte do Rev. Januário da Cunha Barbosa, fundador e secretário do IHGB

Edição de “A Definitiva fixação de limites entre as províncias do Maranhão e de Goyaz” pelo IHGB

Anais do Parlamento com verba destinada ao IHGB:
http://memoria.bn.br/DocReader/132489/37808
http://memoria.bn.br/DocReader/132489/39597

Carta oferecendo o diploma do infante D. Sebastião ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

Cartas ao secretário perpétuo do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Januário da Cunha Barbosa, tratando de correspondências e cooperação entre esta instituição e a Real Academia de Ciências de Lisboa



Silogeu Brasileiro, antiga sede do IHGB (acervo: Iconografia/FBN)