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História do Livro | Relatos Sobre o Brasil: O Calvinista Jean de Léry

10 out 2020

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A primeira expedição francesa ao Brasil, liderada por Nicolas Durand de Villegagnon em 1555, trouxe seiscentas pessoas à costa do Rio de Janeiro, entre as quais o franciscano André Thévet. A segunda, já no ano seguinte, trouxe pouco mais de uma dezena de huguenotes (termo referente aos protestantes franceses), que, sob os auspícios do recém-convertido ministro Coligny, fugiam da discriminação e perseguição religiosa. Porém, enquanto o livro de André de Thévet sobre o Brasil, “Las Singularitez de la France Antartique”, foi publicado em 1557, mais de vinte anos se passaram até que surgisse um relato feito por um membro da expedição protestante.

O autor dessas memórias foi Jean de Léry (Lamargelle, Borgonha, ca. 1536 – Suíça, ca. 1613). De origem humilde, Léry aprendeu o ofício de sapateiro antes de se converter à Reforma calvinista e partir para o Brasil, onde, supostamente, haveria liberdade religiosa. No entanto, apenas oito meses se passaram antes que fossem acusados de heresia e tivessem de deixar a “França Antártica” para viver junto aos tupinambás. Em janeiro de 1558, Léry, com alguns companheiros, retornou à Europa num navio carregado de pau-brasil: uma viagem tumultuada, marcada por naufrágios e fome, que levou cinco meses para ser completada.

Estabelecido em Genebra, Jean de Léry se casou e se tornou pastor. Seu ministério o reconduziu de volta à França, onde, após o massacre conhecido como Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), passou a residir na cidade de Sancerre. Ali ajudou companheiros de fé a resistirem a um cerco promovido pelos católicos, episódio que narrou no livro “Histoire Mémorable du Siège de Sancerre”, publicado em 1574. Quanto ao relato da viagem ao Brasil, que amigos lhe solicitavam desde o regresso, demorou mais quatro anos para aparecer. Sua publicação foi motivada pelo desejo de fornecer uma “resposta” a André Thévet, que não apenas atribuíra aos huguenotes o fracasso da França Antártica como descrevera a fauna e os habitantes do Novo Mundo de forma claramente fantasiosa. Além disso, Léry afirma ter perdido, por duas vezes, o manuscrito com suas anotações, contribuindo ainda mais para a demora em publicá-lo.

Por fim, o livro, intitulado “Histoire d´um voyage fait em la terre du Brésil, autrement dit Amérique”, saiu em 1578 pela Tipografia de Antoine Chuppin, no formato in-octavo. O local informado é La Rochelle, porém vários catálogos trazem a indicação de que a impressão foi feita em Genebra, e é isso que consta nas edições seguintes, a cargo da mesma oficina. A primeira edição tinha vinte e dois capítulos, precedidos por uma dedicatória a Gaspard de Coligny, quatro sonetos, um prefácio e um sumário. Era ilustrada com algumas xilogravuras, em número bem menor que as dos livros de Hans Staden e André Thévet, porém muito eloquentes no que diz respeito aos tupinambás. Como esperado, o livro fez sucesso, tanto na França como na Suíça: até o ano de 1677 teve sete edições em francês -- cerca de 7.000 exemplares em circulação, no total. Um leitor de primeira mão foi o filósofo Michel de Montaigne (1533 – 1592), que se baseou nos escritos de Léry (e nos de outros viajantes) para escrever o capítulo conhecido como “Dos Canibais” em seus famosos Ensaios.

Veja a primeira edição do livro de Jean de Léry, que integra a Divisão de Obras Raras. Na página 361 da visualização mostra-se o costume conhecido como “saudação lacrimosa”: ao entrar numa aldeia, o visitante se dirige à casa de um amigo, previamente escolhido, senta-se numa rede e lá permanece, sem nada dizer. As mulheres se acomodam em torno da rede e se põem a chorar, com as mãos nos olhos, como forma de saudar o recém-chegado.

O livro teve também edições em latim, sendo a primeira publicada em Genebra, em 1586, por Eustache Vignon. Em 1592, foi incluído no volume relativo às Américas do “Thesaurus de Voyages” de Theoddor de Bry; em 1611 e depois em 1625, partes da obra foram publicadas em inglês, sendo a segunda incluída em outra compilação de textos de viajantes, organizada por Samuel Purchas. O livro manteve sua popularidade até o século XVIII, quando caiu em relativo esquecimento. Uma edição crítica feita pelo francês Paul Gaffarel veio resgatá-lo já em 1880; a primeira tradução brasileira surgiu em 1889, feita por Tristão de Alencar Araripe, mas, tal como ocorrera com a tradução de Hans Staden pelo mesmo autor, mostrou-se insatisfatória. Em 1961, finalmente, foi publicada uma tradução integral de Sérgio Milliet, baseada na de Gaffarel e com notas de Plínio Ayrosa, que restabeleceu o vocabulário tupi utilizado no original.

Frank Lestringant, especialista na história das viagens do século XVI, insere o livro de Jean de Léry num “corpus” de literatura huguenote nas Américas, que ao menos em tese, e sem se despir do etnocentrismo, se opõe à escravização e ao genocídio perpetrados pela conquista ibérica. Essa foi a semente que originou o mito do “bom selvagem”, disseminado a partir da obra de Jean-Jacques Rousseau e cristalizado no Romantismo brasileiro por livros como “O Guarani”, de José de Alencar.

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Veja, na página da BN Digital, um artigo sobre a França Antártica, que integra um dossier sobre a França no Brasil – um trabalho feito em parceria com a Biblioteca Nacional francesa.




Tupinambás em detalhe de xilogravura do livro de Jean de Léry