BNDigital

Manchete

04 fev 2019

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Adolpho Bloch, anticomunismo, Arte e cultura, Brasília, Carnaval, Censura e repressão, Cinema, Comportamento, Costumes tradicionais, Crítica política, David Nasser, Ditadura civil-militar brasileira, Entretenimento, Esportes, Fotografias, Futebol, Getúlio Vargas, Henrique Teixeira Lott, Imigração, Jean Manzon, João Goulart, Juscelino Kubitschek, Liberalismo econômico, Literatura, Moda, Rio de Janeiro, Rubem Braga

Manchete foi uma revista semanal de grande circulação, lançada no Rio de Janeiro (RJ) em 26 de abril de 1952, tendo circulado regularmente até 29 de julho de 2000. Criada pelo imigrante ucraniano Adolpho Bloch, fugido da Revolução Russa, a publicação se estabeleceu como principal concorrente da então extremamente bem-sucedida revista O Cruzeiro, dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, a qual viria a superar. Manchete foi, afinal, o órgão fundador do extinto Grupo Manchete, que se estabeleceria de fato em 1983, com o início das transmissões da Rede Manchete de Televisão, composta de cerca de dez emissoras de TV (e mais dezenas de afiliadas), todas levando o nome do periódico impresso. Foi em paralelo a essa expansão comercial dos negócios de Adolpho Bloch e sua família, nos anos 1980, que o semanário – com seu slogan ''Aconteceu, virou Manchete'' – atingiu seu ápice, firmando-se como verdadeiro fenômeno editorial: chegou a ter tiragem de milhões de exemplares naquele período. Isso, todavia, não durou muito tempo. Após o fim de sua publicação regular como semanário, marcada pelo fim da Rede Manchete, que puxou à falência a Bloch Editores, em 2000, após um longo período de crise deflagrado na década de 1990, Manchete foi adquirida pelo empresário Marcos Dvoskin, e continuou circulando, mas como produto de uma nova empresa, a Manchete Editora. A partir desse momento, a publicação veio a lume esporadicamente, numa espécie de “sobrevida”: a partir de sua edição nº 2.521, de abril de 2001, e até sua edição nº 2.537, de fevereiro de 2007, a revista veio sendo publicada em cerca de três edições por ano, normalmente datadas dos meses que cobriam o carnaval.

A origem de Manchete deveu-se a um antigo ofício familiar dos Bloch, devidamente atualizado por Adolpho. Na Ucrânia do início do século XX, a família, de origem judaica, trabalhava com artes gráficas. Joseph Bloch, pai de Adolpho, era dono de uma litotipografia, tendo orientado no ofício seus filhos homens, Adolpho, Arnaldo e Bóris. Ainda criança, Adolpho havia trabalhado como auxiliar na produção de folhetos de propaganda para o movimento revolucionário que eclodiria na caótica Rússia de 1917, além de imprimir papel-moeda para o governo provisório de Aleksandr Fedorovich Kerenski. Com a chegada dos bolcheviques ao poder, os Bloch, temendo violências calcadas tanto na instabilidade política quanto no antissemitismo (pogroms de cossacos contra judeus, mais especificamente), decidiram emigrar, chegando ao Brasil somente em 1922. Apesar das dificuldades, Adolpho e seus irmãos conseguiram retomar sua atividade profissional familiar, na América do Sul. Estabeleceram-se no Rio de Janeiro, onde, com os poucos recursos que trouxera consigo, Joseph Bloch estabeleceu um pequeno empreendimento gráfico, no nº 24 da Rua Vieira Fazenda, onde pai e irmãos trabalhavam com pequenas máquinas manuais, imprimindo cartazes, folhetos, boletins e embalagens. A pequena impressora dos Bloch logo se expandiu e mudou de endereço, sempre permanecendo na região central: passou ao nº 285 da Rua Mem de Sá, depois ao nº 38 da Rua da Constituição, para, em seguida, ocupar o nº 26 da Rua Visconde da Gávea; por fim, já em 1939, estabeleceu-se em um moderno edifício de seis andares na Rua Frei Caneca. Adolpho Bloch, naturalizado brasileiro desde 1931, e estando à frente do empreendimento junto com os irmãos desde a morte do pai, então já contava trinta anos de trabalho no meio gráfico, quando, no início dos anos 1950, julgou-se capaz de realizar um plano ambicioso: editar um semanário da linha da revista francesa Paris-Match, para entrar no mercado de revistas ilustradas a cores, liderado, então, por O Cruzeiro. A ideia de Adolpho enfrentou a resistência de Arnaldo e Bóris, que consideravam impossível competir com os Diários Associados e sua revista, líder absoluta no mercado editorial da época, com média de tiragem semanal de cerca de quinhentos mil exemplares. Adolpho, no entanto, fez valer sua visão.

Em 26 de abril de 1952 aparecia nas bancas de inúmeras cidades brasileiras um semanário de grande apelo visual, trazendo, na capa de sua edição nº 1, uma foto de Orlando Machado, com a bailarina Inês Litowski, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, posando ao lado de uma carruagem do Museu Imperial. Internamente, a edição vinha com reportagem fotográfica de Jean Manzon, fotógrafo francês que tinha se firmado como o maior fotojornalista do mercado editorial brasileiro – Manzon foi, aliás, um dos responsáveis pelo sucesso de O Cruzeiro. Com redação instalada no prédio da Frei Caneca – que seria mantido como sede do empreendimento dos irmãos até 1968, quando a empresa mudou-se definitivamente para a Rua do Russel, no bairro da Glória –, Adolpho seguiu a fórmula de seus concorrentes, no nicho das revistas ilustradas a cores, porém, dando um passo à frente: investindo na qualidade visual do periódico, o imprimiu por uma rotativa Webendorfer, a primeira offset do Brasil. Fora isso, agências estrangeiras de fotografia foram contratadas para fornecimento de imagens de qualidade, o que impulsionou as vendas da revista, logo de início. Em outra frente de trabalho, a Webendorfer, que funcionava em tempo integral, não servia só à revista: ela tirava publicações diversas, de empresas que terceirizavam os serviços dos Bloch, algo que a ocupava por quatro dias na semana, para imprimir a Manchete nos outros três. No expediente do semanário, que aparecia como propriedade de Bloch Editores, empresa presidida por Bóris e Arnaldo Bloch, lia-se os nomes de Adolpho Bloch, como diretor-presidente da revista; Oscar Sigelmann Bloch, sobrinho de Adolpho, seu diretor-superintendente; Nelson Alves, diretor-gerente; Henrique Pongetti, diretor-responsável; e Dirceu Torres Nascimento, diretor-secretário.

Carla Siqueira e Tatiana Murilo, num verbete a respeito da Manchete na base de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), disponível na internet, destacam alguns episódios de vulto nos primeiros momentos da revista, que, mesmo com os investimentos e a visão modernizadora de Adolpho Bloch, passou por dificuldades em seus primeiros anos:



Com a edição número três, Manchete teve seu primeiro problema com a censura: uma reportagem sobre dança africana em Paris foi considerada atentatória aos bons costumes e a revista foi proibida de circular em Minas Gerais e outros estados. Em 1953, uma foto de Marilyn Monroe nua motivou a apreensão de Manchete em todo o Brasil, determinada pela censura federal. A edição número 23 de Manchete, em 1952, mostrava Juscelino Kubitschek como governador de Minas Gerais e já o anunciava como “provável futuro presidente da República”.


Algo que contribuiu para o sucesso que Manchete passaria a ter, após uma primeira fase de dificuldades, foi a chegada de Otto Lara Resende à sua redação, em julho de 1954, assumido o cargo de diretor de redação da revista. Foi nesse momento em que a qualidade editorial geral da publicação aumentou, em paralelo a seu refinado apelo gráfico. Sob a batuta de Resende, ainda conforme Siqueira e Murilo assinalam, Manchete cresceu, cobrindo momentos cruciais da história brasileira, que ocorreriam a menos de um mês após a entrada do novo diretor à publicação:



Em agosto [de 1954], a revista teve cinco números seguidos completamente esgotados. A edição número 121 exibia Carlos Lacerda na capa e reportagem sobre o atentado da rua Toneleros, ocorrido no dia 5 de agosto, no qual o jornalista e líder político antigetulista saiu ferido e o major-aviador Rubens Florentino Vaz foi morto. A edição seguinte trazia a descoberta dos criminosos e sua ligação com Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas. Com o desenrolar dos acontecimentos, setores militares exigiram a saída de Vargas. Manchete já tinha 82 mil capas rodadas com a foto do brigadeiro Eduardo Gomes e quase toda a tiragem da revista pronta, quando Vargas se suicidou no dia 24 de agosto de 1954. Imediatamente, a edição número 123 foi refeita, transformando-se em uma grande reportagem sobre a vida e a morte do presidente morto. Com a tiragem esgotada, foi feita uma Manchete extra sobre os acontecimentos, também totalmente vendida em poucas horas. Em 1955, na edição número 187, Oto Lara Resende, ainda diretor da revista, publicou uma entrevista com o general Henrique Teixeira Lott sobre o movimento militar de 11 de novembro de 1955, que assegurou a posse de Juscelino, depondo o então presidente em exercício, Carlos Luz, acusado de participar de uma conspiração que visava impedir a posse dos eleitos, Kubitschek e seu vice, João Goulart.



Logo em seguida ao chamado contragolpe, ou golpe preventivo de Teixeira Lott, Manchete entrou numa fase de apoio explícito ao governo de Juscelino Kubitschek, apresentando e abraçando suas propostas de desenvolvimento. Numa manobra publicitária de impacto, Adolfo Bloch havia sido um dos responsáveis por reforçar o slogan “50 anos em cinco”, ao pinçar a frase de um discurso do presidente e imprimindo 20 mil cartazes com ela. Naturalmente, Manchete se mostraria totalmente engajada no processo de construção de Brasília, ao lançar um número especial ricamente ilustrado sobre o assunto. Nesse sentido, acabou se tornando a primeira empresa jornalística a fixar sucursal na nova capital, ainda em obras, formada basicamente por Murilo Melo Filho e Jáder Neves, os responsáveis por enviar de lá reportagens sobre o processo de construção. Muito pelo trabalho de ambos, a inauguração de Brasília rendeu o esgotamento dos 760 mil exemplares da revista em apenas 48 horas. Apesar do grande sucesso da revista, nesse momento Otto Lara Resende já não era mais seu diretor de redação, tendo abandonado Manchete em 1956; em seu lugar havia ficado o fundador de outra revista, a Senhor: Nahum Sirotsky.

Adolpho havia se tornado amigo íntimo do presidente Juscelino. Anos depois, não só Sara Kubitschek velou o corpo do ex-presidente na sede de Manchete, quando de sua morte em 22 de agosto de 1976, como Bloch publicaria três volumes de memórias do ex-presidente: “A experiência da humildade: a escalada política e 50 anos em cinco”. Além disso, em 12 de setembro de 1982, data em que Juscelino completaria 79 anos, Adolpho Bloch inauguraria o Memorial JK na capital federal, construído, sob seu comando, a partir de doações.

Com a agitação em torno da fundação de Brasília, Manchete aumentou sua tiragem e seu volume de publicidade. Foi tornando-se, a partir daquele momento, a maior revista brasileira em circulação, valendo-se, também, do período de decadência em que começava a entrar O Cruzeiro. Aproveitando a oportunidade, Adolpho Bloch investiu pesado: reequipou seu parque gráfico – passou a ser impressa em rotogravura, em 1957, e em uma Albertina, o então mais recente modelo da marca alemã Frakenthal, em 1958. Em paralelo, a Bloch Editores expandiu sua rede de publicações, criando novas revistas de grande apelo junto ao público de classe média, notadamente Fatos & Fotos, Jóia, Pais & Filhos, Ele & Ela, Desfile, Amiga, Sétimo Céu e outras – entre novembro de 1955 e janeiro de 1979, aliás, a editora manteve ainda a Manchete Esportiva, versão mais voltada ao futebol da principal revista do grupo.

A proximidade de Manchete com Kubitschek não trouxe insegurança ao empreendimento dos Bloch quando do início da ditadura militar, iniciada em 31 de março de 1964. Dado o golpe que depôs João Goulart, a revista, que foi a única a publicar a foto do presidente deixando o Rio de Janeiro, em companhia de Eugênio Caillard, reagiu quando Kubitschek foi cassado e exilado pelo regime militar, em junho daquele ano: Bloch desconsiderou a proibição de que o nome de JK fosse mencionado na imprensa, empreendendo mesmo uma campanha pública em defesa do ex-presidente. Mas, fora isso, Manchete não enfrentava os militares: ao contrário, chegou a apoiar o plano de governo pós-golpe. Isso levou à estabilidade que permitiu à revista, em novembro de 1968, sua transferência, da rua Frei Caneca, para aquela que seria sua sede definitiva. Numa área de 26.439 mil metros quadrados na Rua do Russell, na Glória, a empresa dos Bloch se instalou em um moderno prédio de 12 andares, projetado por uma figura-chave do desenvolvimento da arquitetura moderna: o idealizador dos prédios públicos que fundaram Brasília, Oscar Niemeyer.

O então novo prédio da Bloch Editores, na Rua do Russell, merece história à parte. A transferência da administração e da redação da revista para a nova sede teve que ser feita por etapas. Em seu segundo andar, formando um conjunto que ia além das empresas dos Bloch, passou a localizar-se o Museu de Arte Brasileira, com obras de artistas nacionais, e o Teatro Adolpho Bloch, inaugurado em 1973. Mais tarde ali seria, na verdade, a sede principal de todo o Grupo Manchete, lugar de onde seriam administradas tanto a Rede Manchete de Televisão quanto as emissoras de rádio AM e FM da família Bloch. Ainda em 1968, todavia, apenas o avançado maquinário gráfico da empresa não seguiu para a Glória; a bonança financeira daquele ano permitiu aos Bloch a construção de um moderno parque gráfico para a impressão da Manchete em Parada de Lucas, no subúrbio carioca, num terreno que havia sido adquirido do editor José Olympio. Já devidamente instalada, a gráfica passou por melhorias em 1979, com a introdução do uso de uma rotativa italiana Cerutti, que possibilitava a impressão de 42 mil exemplares a quatro cores por hora.

Roberto Muggiati passou a ser o diretor de redação da Manchete em 1975, firmando-se como o jornalista que mais permaneceu no cargo – o deixaria apenas em 1999, com a revista já à beira da falência, sendo substituído por Jamir Holanda, que ficou pouco tempo na função. Cumpre destacar que, quase coincidindo com a fase em que Muggiati dirigiu o semanário, entre 1972 e 1995 o próprio Adolfo Bloch manteve uma coluna na revista, a “Adolfo Bloch escreve”, que só acabou quando da morte do autor; ali era o espaço em que o fundador da revista expunha seu pensamento, sobretudo todo o seu anticomunismo, criticando regularmente a União Soviética. Fora os períodos em que Lara Resende, Sirotsky e Muggiati comandaram a redação da Manchete, estabelecendo-se como os gestores mais regularmente lembrados do jornalismo da publicação, a mesma também passou por períodos em que fora dirigida por Justino Martins, Hélio Fernandes, Nélson Apel de Quadros e Nelson Alves, além do já citado Jamir Holanda.

Para a Manchete das décadas de 1970, 1980 e 1990, no tocante a destaques editoriais, Siqueira e Murilo enumeram apenas o seguinte:



A revista teve algumas edições internacionais publicadas a partir da década de 1970, a maioria em inglês. Em 1988, Bloch editou uma edição de Manchete inteiramente escrita em russo para distribuir em Moscou durante a visita do então presidente José Sarney à União Soviética. Essa edição, escrita pelos próprios redatores da revista, trazia várias reportagens sobre o Brasil. Em 1989, foi feita uma edição especial em francês, distribuída em Paris durante as comemorações do Bicentenário da Revolução Francesa. Em 1992, houve um número especial em inglês sobre a Eco-92. Outro número especial em inglês foi lançado em outubro de 1996 e tinha como tema principal o Brasil no âmbito da globalização.


O verbete de Carla Siqueira e Tatiana Murilo não aponta para o que significaria o fim da revista Manchete anos mais tarde – algo que, ironicamente, se iniciaria do que parecia ser o ponto alto dos empreendimentos dos irmãos Bloch: o momento em que passariam a investir no ramo televisivo, gerindo, portanto, uma rede de comunicação multimídia. Nascida a partir da experiência do semanário – e das demais revistas da Bloch Editores, supracitadas – a Rede Manchete de Televisão se estabeleceu em 5 de junho de 1983. Adolpho Bloch, a rigor, era contra o empreendimento no ramo televisivo. Era visto como antiquado pelo sobrinho Oscar, o principal entusiasta da ideia. Este, benquisto pelos militares no poder, já havia traçado o braço radiofônico do Grupo Bloch, e acabou fazendo valer seu ponto de vista: obteve afinal ajuda do governo federal, como uma forma de retribuição aos serviços prestados pela revista ao regime. A rede de emissoras, segundo Simone Kropf, em verbete a respeito de Adolpho Bloch na mesma base de dados do CPDOC que abriga o de Siqueira e Murilo, quando fundada, se fez de “estações próprias nas cidades de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza, além de 40 afiliadas pelo território nacional”. Outro verbete semelhante, da mesma fonte, porém assinado por Márcia Paiva, pontualmente a respeito da Rede Manchete de Televisão, afirma que a mesma teve início com a fundação de cinco emissoras, “nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, e mais de 30 afiliadas que cobriam todo o território nacional”, sendo que já em setembro do mesmo ano, “somaram-se mais três emissoras às iniciais: Londrina, Cornélio Procópio e Maringá”, todas no Paraná.

Apesar de algumas divergências entre o conteúdo dos três verbetes, o de Simone Kropf sublinha, neste trecho, resumidamente, o rumo que os negócios dos Bloch tomariam já a partir dos anos 1990, misturados a um escândalo na política nacional, a disputas judiciais trabalhistas e a um processo de rápido endividamento; crise que ainda contou, afinal, com a morte de Adolpho Bloch. Após uma década que parecia ser o auge do empreendimento familiar, dado o estabelecimento da rede de comunicação multimídia em 1983,



Menos de dez anos depois a rede estaria mergulhada em graves dificuldades financeiras, a tal ponto que, em junho de 1992, devido ao acúmulo de dívidas, 49% de suas ações foram vendidas. O comprador foi Hamílton Lucas de Oliveira, do grupo Indústria Brasileira de Formulários (IBF), que seria acusado de comprar a empresa num acerto com o esquema de corrupção que envolveu o ex-tesoureiro de campanha do presidente Fernando Collor de Melo, Paulo César Farias. Sem receber seus salários desde dezembro de 1992, os funcionários da Manchete entraram em greve no início de 1993 e, em março, chegaram a ocupar a sede da emissora, paralisando por algumas horas a programação. Na ocasião, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) manifestou interesse na compra da rede. Alegando que Hamílton Lucas de Oliveira não cumprira a cláusula do contrato que previa o pagamento das dívidas da empresa, Bloch requereu na justiça a anulação da venda à IBF. Em abril, obteve liminar que lhe permitiu retomar o controle da emissora, dando início a uma disputa judicial pela posse integral da rede. No mês seguinte, o Banco do Brasil começou a investigar suas contas e as acusações de que teria emitido grande número de cheques sem fundo e duplicatas frias. Embora conseguisse normalizar a folha de pagamentos da TV Manchete, Bloch continuou a enfrentar sérias dificuldades para equilibrar receita e despesa, o que gerava constantes problemas na programação da rede. Em maio de 1995, a emissora teve equipamentos de estúdio arrestados pelo Banco do Brasil como garantia do pagamento de dívidas. Em 19 de novembro de 1995, Adolfo Bloch faleceu de embolia pulmonar e disfunção da válvula mitral, aos 87 anos, ao submeter-se a uma cirurgia cardíaca no Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo.


Segundo Márcia Paiva, que se atém mais detalhadamente à crise que abateu primeiro a TV Manchete, esta, quando lançada, se destacou pela qualidade jornalística, embora investisse, também, depois de algum tempo, e de alguma relutância de Adolpho, na teledramaturgia. O investimento no ramo, por outro lado, enfraquecia a principal revista do grupo, que já em 1988 não era a mesma de outrora, e não apenas no sentido da energia e da atenção que seu empreendimento demandava. No início da década de 1990, afinal, o endividamento do Grupo Bloch, por conta, principalmente, da televisão, começou a se fazer alarmante. Nas palavras da autora,



As dívidas contraídas junto ao Banco do Brasil, ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e à Embratel, originadas na década anterior para a construção da rede, fizeram com que em 1991 Adolfo Bloch iniciasse as negociações para uma possível venda da TV Manchete. Antônio Ermírio de Morais (Votorantim) e Otávio Lacombe (Grupo Paranapanema) foram alguns dos empresários que chegaram a negociar a compra. O empresário e deputado Paulo Otávio A. Pereira, amigo do presidente em exercício Fernando Collor, foi outro interessado que desistiu da compra após ter sido questionado na Câmara pelo deputado José Luís Clerot (PMDB-PB).


Nesse momento ocorreu, possivelmente, um episódio digno de nota em relação aos níveis de competitividade no mercado televisivo brasileiro. O pronunciamento supracitado do peemedebista paraibano foi transmitido em horário nobre pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, principal concorrente da Rede Manchete, dando a entender que Paulo Otávio se beneficiava da amizade e do prestígio do presidente para um tratamento preferencial por parte do Banco do Brasil, com o fim de facilitar a compra da TV Manchete. Quando a IBF comprou os 49% das ações da emissora, em 1992, esta era a terceira maior rede brasileira de televisão, “com 36 emissoras afiliadas, dez retransmissoras e cerca de 2.500 funcionários”, de acordo com Paiva. A autora prossegue:



Neste mesmo ano teve início uma investigação sobre irregularidades na compra, pela mesma IBF, de outra TV — a Jovem Pan. Devedoras à Embratel pelos serviços de satélite, a Jovem Pan e a TV Manchete sofriam ameaças de corte do canal no Brasilsat. A IBF renegociou a dívida com a Embratel, evitando que a Manchete fosse tirada do ar. A Jovem Pan, ao contrário, perdeu o direito de uso do canal.


A crise na TV Manchete de então apenas viu continuidade nas acusações de envolvimento da IBF no esquema de corrupção armado por PC Farias, que veio a público em 1992. Quando os funcionários da emissora no Rio de Janeiro deixaram de ter seus salários pagos, em dezembro desse ano, fizeram uma paralisação, em março de 1993, no mesmo mês em que um show beneficente – com João Bosco, Paulinho da Viola, Nana Caymmi e Moreira da Silva, entre outros – foi realizado no Circo Voador, na região central do Rio de Janeiro, com renda revertida para os profissionais. Assim que a Justiça do Rio de Janeiro concedeu liminar permitindo Adolpho Bloch de reassumir o comando da rede televisiva, o governo “resolveu acompanhar de perto o caso da Manchete”, nas palavras de Márcia Paiva. A presidência da República, então, já estava com Itamar Franco, que, em despacho emitido em conjunto com Hugo Napoleão e Válter Barelli, respectivamente os ministros das Comunicações e do Trabalho, que a TV deveria ficar com os Bloch ou fosse oferecida a outro grupo. Foi nesse momento em que a CUT se interessou pela compra. Segundo Paiva,



O líder sindical Jair Meneguelli chegou, inclusive, a propor acordo ao presidente das Organizações Globo, o jornalista Roberto Marinho, na tentativa de criar uma fundação de direito privado para administrar a Rede Manchete. O interesse da CUT em adquirir a rede foi motivo de controvérsia, sendo visto como uma forma de reforçar a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva para a presidência da República no ano seguinte. Em julho de 1993, os funcionários da TV Manchete de São Paulo, em greve por não receberem sete meses de salários, ocuparam o prédio da emissora durante 15 horas e produziram programas com entrevistas e debates sobre a situação geral da rede. O movimento contou com apoio de sindicalistas, líderes da comunidade e parlamentares, tais como o senador Mário Covas, os deputados Jamil Murad, José Dirceu, Aluísio Mercadante e Irma Passoni. A folha de pagamentos dos funcionários foi normalizada, mas as dificuldades continuaram decorrentes da dívida da empresa junto aos bancos, em especial junto ao Banco do Brasil, INSS e Embratel, afetando diretamente a programação da rede. Por contenção de despesas vários projetos foram adiados e alguns programas antigos passaram a ser reprisados. Em maio de 1995, a emissora teve os equipamentos de estúdio arrestados pelo Banco do Brasil como garantia de pagamento.


Foi o fim, para Adolpho Bloch. Em meio à crise, que afetou todo o grupo da família, e não só a TV, Adolpho faleceu, em 19 de novembro de 1995, vítima de uma embolia pulmonar, ao submeter-se a uma cirurgia cardíaca. Como Oscar Sigelmann Bloch também já havia morrido, quem assumiu o comando da rede foi seu então vice-presidente, Pedro Jack Kapeller, o Jaquito, que, assim como Oscar, era sobrinho de Adolpho – os três, afinal, foram os que traçavam os planos e comandavam as ações das empresas Bloch. Mas sua gestão não duraria muito. A crise da Rede Manchete de Televisão, abrindo precedente para a falência da Bloch Editores, decretada em agosto de 2000, fez com que a revista Manchete, que há alguns anos já não era mais o principal semanário brasileiro, caísse paulatinamente em qualidade. Arnaldo Bloch, sobrinho-neto de Adolpho, no livro “Os irmãos Karamabloch: ascensão e queda de um império familiar”, transcreve as seguintes palavras do fundador da revista, proferidas ao fim de sua vida, preservando mesmo o sotaque que nunca perdera. Sob o título “Adolpho não queria”, a fala do mesmo tocava sinceramente no desando dos empreendimentos dos Bloch, em face ao tino comercial implacável de Adolpho:



Ieu tinha comprado cinco máquinas na Itália. Cinco Cerutti de última geraçón. Eram 42 mil exemplares por hora, quatro cores, nón é verdade? Se lembra da editora? Ieu tinha 30 milhóns limpos. Mas eles queriam a televisón. Um mês antes da licitaçón ieu estava em Nova York e o sujeito, um tal de Norman Alexander, me convidou pra ir ao escritório da rua 45. A fábrica era uma coisa louca, de alumínio, para latas de refrigerante e cerveja. Era uma novidade, uma revoluçón, e ele, o Norman, queria abrir um escritório de representaçón no Brasil. Aqui as latas eram aquelas merdas, de folhas de flandres. O alumínio era material do futuro. Pedi uma semana para responder, mas, quando voltei, o general [João Baptista Figueiredo], o puto dos cavalos, já estava fazendo tudo e entramos na concorrência da tevê. Se ieu pegasse as latas hoje seríamos bilionários. Mas o que é que ieu ia fazer? O Jaquito queria a televisón. O Oscar queria. Ieu nón queria. Mas fiz. Hoje acordo e nón quero nem ver a luz do sol. (p. 260)


Depois da falência do Grupo Manchete, as empresas da rede foram adquiridas pelo empresário Marcos Dvoskin. Na ocasião, a revista fundada em 1952 continuou circulando, agora como produto de uma nova empresa, a Manchete Editora. Entre sua edição nº 2.521, de abril de 2001, e sua edição nº 2.537, de fevereiro de 2007, Manchete saiu em intervalos irregulares, em cerca de três edições de 100 páginas a cada ano. Nesse intervalo, cobria-se regularmente o carnaval – já que nos anos anteriores, em meio à crise, observou-se que a maior rentabilidade da publicação estava em suas edições que cobriam o evento –, assim como assuntos ligados a celebridades e ao mundo do entretenimento, efemérides e saúde.

Com o fim de toda a rede, sua sede na Glória foi desativada e lacrada. Um grupo empresarial veio a comprar o edifício em um leilão da massa falida da Bloch, em 2004, para, em abril de 2010, a BR Properties, controlada pela GP Investimentos, adquiri-lo, por R$ 260 milhões. Em outubro de 2011, a BR Properties alugou o edifício parcialmente para a petrolífera Statoil Brasil Óleo e Gás.

Como não poderia deixar de ser, para as revistas de seu gênero ao longo do tempo em que circulara, Manchete não foi apenas um semanário de jornalismo fortemente calcado na imagem. Teve colaboradores de vulto, no mundo das letras, do jornalismo e da política: Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Porto, David Nasser, Guilherme Figueiredo, Raimundo Magalhães Júnior, Rubem Braga, Joel Silveira, Orígenes Lessa, Marques Rebelo, Oto Maria Carpeaux, Manuel Bandeira, Lígia Fagundes Teles, Elsie Lessa, Paulo Mendes Campos, Jaguar, Antônio Maria, Fernando Sabino, Tarlis Batista, Gervásio Batista, Gil Pinheiro, Nicolau Drei (os três últimos fotógrafos), Ney Bianchi (ilustrador), entre outros, incluindo o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Fontes:

- BLOCH, Arnaldo. Os irmãos Karamabloch: ascensão e queda de um império familiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
- Chagas, Carlos. Verbete da base de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/carlos-chagas. Acesso em: 28 jan. 2019.
- CONY, Carlos Heitor [et al.]. Aconteceu na Manchete: histórias que ninguém contou. Rio de Janeiro: Desiderata, 2008.
- KROPF, Simone. Bloch, Adolfo. Verbete da base de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/bloch-adolfo. Acesso em: 28 jan. 2019.
- O Globo. BR Properties compra edifício Manchete por R$ 260 milhões. Valor Online, 30 jun. 2010. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/br-properties-compra-edificio-manchete-por-260-milhoes-2985984. Acesso em: 29 jan. 2019.
- PAIVA, Márcia. Rede Manchete. Verbete da base de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/rede-manchete. Acesso em: 28 jan. 2019.
- SIQUEIRA, Carla; MURILO, Tatiana. Manchete. Verbete da base de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/manchete. Acesso em: 28 jan. 2019.