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O livro de horas dito de D. Fernando: Maravilha para ver e rezar.

06 set 2013


e marcado com as tags calendário litúrgico, livros de horas, manuscritos iluminados, manuscritos medievais

1. Apresentação
O leitor certamente já experimentou a sensação plena de deleite diante de uma imagem arrebatadora, como se o real superasse em grandiosidade e beleza qualquer fantasia. Este foi o sentimento que tive quando vi pela primeira vez um livro de horas medieval.

Pequenas joias da iconografia, esses códices expressam um momento de grandes transformações no mundo medieval, em que a imagem desempenha papel de importância na estruturação de novos padrões mentais. São verdadeiras enciclopédias que contêm as representações do espaço, do tempo e dos valores básicos que organizam a cultura cristã. Muitos destes padrões inscrevem-se em longa duração, ultrapassando os tempos do medievo, chegando até hoje e dando-nos uma sensação de familiaridade. São expressões da própria ocidentalidade que o renascimento posteriormente refinou e consolidou.

O tema aqui proposto é um estudo crítico preliminar do Livro de horas de D. Fernando, códice cuja procedência é, inegavelmente, da Biblioteca Régia de Portugal e que hoje faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Este estudo aborda inicialmente o que chamei de “Primeiras questões”, uma reflexão sobre as relações do historiador com as imagens, situando a singularidade das percepções daquilo que Jean-Claude Schmitt propôs chamar de Imago1 na Idade Média.

A sensação de dejà-vu a que me referi anteriormente não pode ser levada a extremos. Os processos de aproximação e identificação do medievo devem ser relativizados e permeados pela consciência de alteridade que orienta grande parte do “fazer histórico”. Pareceu-me, portanto pertinente refletir sobre duas questões: uma sobre as relações do historiador com as imagens e a outra sobre o estatuto dos padrões de visualidade no mundo cristão medieval.

O estudo da imagem não pode ser destituído de sua materialidade, incluindo-se obrigatoriamente questões como os mecanismos de produção, uso e destinação deste tipo de códice na Idade Média. Pretendi situar estas questões em “Os livros de horas, um tesouro para ver e rezar”, caracterizando também nesta parte, o conceito de thesaurus que norteou muitas de minhas indagações.

Em seguida, na parte intitulada “O livro de horas dito de D. Fernando”, descreviocódiceapresentandoseuconteúdobásico,asimagenseminiaturas.Nãome preocupei aqui com os dados textuais, assunto do qual, ocupar-me-ei posterior-mente, em outra publicação. Nesta apresentação do códice descrevo o calendário, identificando nos fólios apenas as imagens, deixando, para posterior trabalho, a transcrição dos santos e do diagrama temporal que acompanha cada fólio.

Antes de abordar os problemas de datação e identificação do Livro de horas de D. Fernando foi necessário recuperar o seu percurso, mostrando como se constituiu o acervo da Biblioteca Régia portuguesa, que dará origem no século XIX (1810) à biblioteca brasileira.

O conjunto dos chamados “manuscritos portugueses” que chegou ao Brasil tem origens muito diversas e não parecem aproximar-se dos principais livros de horas hoje existentes nas bibliotecas e arquivos de Portugal. Esta e outras perguntas norteiam o que abordei na parte sobre “A procedência – As bibliotecas régias e o Livro de horas de D. Fernando”.

Estas questões de procedência parecem-me bem mais consolidadas que outras indagações. Em “Problemas de identificação, datação e destinatário”, abordo detalhadamente a questão, situando as polêmicas, os estudos comparativos, atualizando discussões e expressando minhas conclusões preliminares em “Velhos problemas e novas questões: conclusões parciais”.

O riquíssimo material iconográfico desses códices reúne em seus calendários temas do cotidiano e do trabalho e relembra nas outras partes o sacrifício divino, a história do povo eleito e as passagens das vidas de santos. Num livro de horas as funções de texto e imagem não aparecem isoladamente, mas se articulam como um todo ao universo do sagrado, da memória e da própria ética cristã. Procurei exemplificar essas questões em “Uma reflexão: tempo de oração, tempo do mundo no calendário do Livro de horas de D. Fernando”. Esclareço, no entanto, que o material apresentado é mais descritivo, não pretendendo neste momento qualquer análise iconográfica, o que seria impossível sem outros procedimentos de identificação das tabelas temporais, dos santos e de aprofundamentos da pesquisa empírica de outras tantas questões. Não me propus a isto neste ensaio.

O estudo aqui apresentado é o resultado de pesquisa realizada com o suporte institucional e de bolsa da Biblioteca Nacional, a qual agradeço por esta oportunidade. Do mesmo modo, devo mencionar a inestimável participação do professor doutor Clinio Amaral e das doutorandas da Universidade Federal Fluminense Ana Carolina Lima e Tereza Renata Rocha, que integram o grupo de pesquisa sobre imagem e história que coordeno, desenvolvido no Scriptorium-Laboratório de Estudos Medievais e Ibéricos da Universidade Federal Fluminense.2

Sou grata a Jean-Claude Schmitt que propiciou, juntamente com pesquisadores do GAHOM (Groupe d’anthropologie historique de l’Occident medieval – École des Hautes Études en Sciences Sociales) um interessante debate a partir da exposição que lá realizei sobre os temas que vinha desenvolvendo acerca do códice fernandino.

Agradeço finalmente à generosa colaboração e o frutífero diálogo expresso nas cartas e no material que me enviou deste grande especialista da iconografia medieval, James Marrow, professor da Princeton University e curador de museus que hoje são depositários de códices cuja estrutura é muito próxima do Livro de horas de D. Fernando.

2. Primeiras questões

2.1 O historiador e as imagens
O uso da imagem como fonte para o “fazer histórico” é assunto que tem merecido atenção por parte desses estudiosos, particularmente, após as grandes mudanças trazidas pela nova história e pelo crescimento da exploração historiográfica no campo do imaginário, das mentalidades e da antropologia visual. Um mapeamento dos principais problemas de cunho teórico poderia ser resumido em três grandes vetores:

O primeiro refere-se ao estatuto qualitativo da imagem no universo da construção do saber histórico;

O segundo, diretamente decorrente do primeiro, diz respeito ao tipo de construção que se deseja com o uso da imagem;

O terceiro, à especificidade do código visual e às necessidades técnicas específicas que ele impõe ao historiador. Analisemos a primeira questão – a que diz respeito ao estatuto qualitativo da imagem. Há uma visão bastante ambígua a esse respeito. Ou a imagem é vista como algo que traz diretamente o vivido, e o senso comum consagrou essa visão na expressão “uma imagem vale por mil palavras” ou, ao contrário, confere a ela um lugar que relaciona imagem/imaginário, como aquilo que é construção ficcional e, portanto não confiável.

Por trás desta questão está certamente a ideia de documento/monumento que delega à construção textual a única confiabilidade possível. O uso da imagem só seria assim aceitável com o apoio do texto que a explicaria. É claro que tal visão tem sido duramente combatida redefinindo-se sob muitos aspectos o que se deseja de uma história construída a partir de imagens entendidas em seu universo próprio.

Não se trata de fazer uma história da arte (cuja importância é indiscutível) ou algo do gênero, mas uma história que integraria também elementos da antropologia e que permitiria a reconstrução dos padrões de uma determinada cultura visual existentes nas diferentes formações históricas.

Com este tipo de propósito, sob a liderança de Jacques Le Goff, criou-se junto à École des Hautes Études en Sciences Sociales, o GAHOM (Groupe d’anthropologie historique de l’Occident medieval), que durante muitos anos tem abrigado historiadores medievalistas, de algum modo engajados nesta questão. Além do próprio Le Goff, Jean-Claude Schmitt, Michel Pastoureau, Jérôme Bashet, para mencionar apenas alguns dentre os mais atuantes.

Do grupo, como decorrência das discussões, surgiram vários seminários que, além de discutir questões de cunho teórico-metodológico, têm tido forte atuação em políticas de pesquisa que disponibilizam (particularmente na internet) o material iconográfico de várias partes do Ocidente cristão, possibilitando assim o acesso dos pesquisadores a muitas fontes antes inacessíveis para a maioria dos historiadores.

Além do grupo francês, vale ainda ressaltar a importância do Warburg Institute, em Londres que, continuando a tradição de Panofsky e Gombrich, opera hoje com grandes contribuições no campo das discussões das representações,3 mormente no que tange à psicologia social.

A questão das relações do historiador com o campo das imagens precisa, segundo Ulpiano Bezerra de Meneses,4 ser melhor aprofundada. Não se trata de fazer uma história pela imagem, muito menos uma história das imagens ou da arte. Para além de uma iconografia, deve-se interrogar a percepção do potencial cognitivo da imagem. É equivocado pensar uma história artística e outra social, comenta ainda Meneses. E acrescenta que Baxandall, referindo-se ao olho do quattrocento aconselha procurar como os fatores sociais conduzem, pela experiência do cotidiano, ao desenvolvimento de certos hábitos e mecanismos visuais que se convertem em elementos identificáveis na produção e no consumo de pinturas.5

Em síntese, deveria haver por parte do historiador uma tentativa de identificar as estruturas históricas perceptivas.6 Tratar-se-ia assim de trabalhar com o campo da visualidade,7 isto é, como, em determinado contexto ou experiência histórica, o tempo e o espaço, por exemplo, seriam apreendidos por padrões visuais disponíveis em determinada sociedade, quer estivessem eles institucionalizados ou não.

É necessário pensar a materialidade das representações. A pintura, por exemplo, é também um objeto, um artefato tridimensional. Aconselha-nos ainda Meneses que se perceba o artefato no quadro de uma iconosfera,8 con-junto de imagens que num dado contexto está socialmente disponível.

Necessário, portanto, situar a imagem medieval no seu aspecto material, não relegando a análise da produção do códice e da própria produção da imagem e das iluminuras dentro dele. Recuperar os mecanismos de produção e do produtor como um dos agentes sociais, a destinação (não apenas o destinatário) do manuscrito, seu uso, sua função seria assim imprescindível.

Uma vez definido com clareza o estatuto da imagem, destituindo-a dos preconceitos a que me referi, e recortando com precisão o que se pretende com o material iconográfico, é necessário falar da singularidade da linguagem visual na Idade Média, mais especificamente de suas relações com a memória, as representações do tempo, da narrativa cristã e das estreitas ligações da imagem/sacralidade no mundo medieval.

2. 2. A imagem espelho do mundo – percepções na Idade Média

Não se pode entender a imagem na Idade Média com as referências e valores atuais. Uma possível familiaridade do observador contemporâneo deve ser vista com reserva. Expressando os perigos de um anacronismo, Schmitt ressalta de forma pertinente que O historiador deve sobretudo convencer-se da especificidade das imagens medievais com relação às nossas próprias imagens atuais: primeiro porque vivemos há um século no tempo das imagens móveis (cinema, televisão e computador), ao passo que as imagens medievais (miniaturas, pinturas murais, etc.) eram imagens fixas que, é verdade, não ignoravam os problemas ligados à representação do tempo, do movimento, da história ou representação de uma narrativa. Uma segunda questão que deve ser levada em consideração é a relação profunda da imagem com as práticas religiosas – muito mais que qualquer função estética, a imagem medieval é um objeto de culto e dos rituais cristãos. Ela presentifica a própria obra divina da criação.9

Reforçando a singularidade da imagem na Idade Média, o medievalista comenta ainda que
A noção de imagem diz respeito, enfim, à antropologia cristã como um todo, pois é o homem – nada menos que isso – que a Bíblia desde suas primeiras palavras, qualifica como ‘imagem’: Iavé diz que modela o homem ‘ad imaginem et similitudinem nostrum’ (Gênesis 1, 26). Segundo o Novo Testamento, a Encarnação completou esta relação de imagem entre homem, Deus e Cristo.10
No cristianismo a forma é, portanto, em última instância, expressão de Deus, expressão maior do verbo. A arte figurativa medieval, num sentido amplo, pertence ao universo do sagrado, mesmo quando representa cenas do universo laico.11 Remetendo ao princípio da criação, tem primordialmente função simbólica de transcendência, de salvação, de epifania.

O estudo das funções da imagem na Idade Média é questão complexa e difícil, impossível fazer generalizações. Dois aspectos parecem importantes para esta reflexão: uma é a de presentificação de elementos não visíveis e outra a de constituir uma espécie de chave de memória, noção ligada a padrões cognitivos disponíveis e observáveis nesta formação histórica.
No primeiro caso, a imagem poderia ter função similar à dos sonhos na própria Idade Média, isto é, seria uma forma de ultrapassar as fronteiras da experiência sensível e da própria contingência humana.12

O sonho figura a ausência […] Como as imagens materiais, ele participa de um mundo visual, de um mundo imaginário, cujos poderes e condições ultrapassam de longe o plano único do visível e do sensível. É por isso que os modos de funcionamento das imagens materiais e das imagens oníricas apresentam várias analogias: umas e outras cultivam a ambivalência (um gesto, uma figura, raramente são unívocas, na maioria das vezes apresentam vários sentidos simultaneamente), prestam-se aos mesmos fenômenos de condensação (quando duas imagens se combinam para produzir uma terceira) e de descontinuidade (cada elemento concentrando uma sequência narrativa completa).13

Uma segunda função da imagem medieval está ligada diretamente a determinados processos cognitivos vinculados aos propósitos éticos da criação, que em última instância seria uma via possível da salvação. Neste sentido, o livro (texto) tem papel decisivo no universo simbólico do cristianismo. É ele a expressão de Deus que falou com Moisés através da letra, é ele que também trouxe a boa nova.

A leitura era assim um mecanismo diretamente envolvido com o sagrado na Idade Média. O conteúdo do texto deveria ser mastigado, ruminado (ruminatio) e só depois integrado aos conhecimentos já existentes na memória da cada leitor. Mais do que isto, deveria ser guardado de forma ordenada – há uma espécie de topologização das informações e do saber. Finalmente, esse saber deveria ser transformado em imagens (padrões visuais) e estas, disponibilizadas numa espécie de arca.14

A memória, estreitamente ligada a este processo de uso do texto, não re-mete a uma listagem formal, mas seria uma espécie de inventário, onde estaria disponível material para a criação, para o fabrico (fabrica) do saber.

A leitura não está, como se viu, de forma alguma desvinculada da imagem – picturaetlitteratura estãointimamenteligadas.ComentaCarruthers15 queRichard de Fournival em seu Li responde du bestiaire, explica que Deus deu ao homem a faculdade da memória e que há duas portas de acesso a ela: a pintura e a palavra

Toutes deux donnent également accès à la ‘maison de la mémoire’, qui contient toute la conaissance humaine du passé, et, d’un point de vue cognitif, elles ont la même efficacité. Mais la “peinture d’un texte” ne se réduit pas aux illustrations d’une page, comme le précise Richard de Gournival. Elle inclut aussi les images mentales que le texte évoque dans l’esprit des ses lecteurs ou auditeurs.16

A memória tem papel decisivo no processo de aprendizagem e criação na Idade Média. É, juntamente com a meditação, uma via para o saber e para a própria salvação, razão pela qual há tanto empenho em seu treinamento.

Remontando cronologicamente à influência monacal, Mary Carruthers17 mostra ainda como os caminhos da meditação estão ligados, não apenas aos processos de leitura (seja ela em voz alta, a mais comum, ou a silenciosa), mas à forma como ela se dá. A imagem seria, assim como determinadas sinalizações do texto, uma espécie de chave de acesso à memória. Esta memória não seria uma listagem repetitiva (mímesis), mas um grande inventário constituído dos conteúdos de leitura e de todas as representações deles originados. Mais do que tudo, um acervo, um patrimônio, onde estariam os grandes textos cristãos – um tesouro, o Thesaurus do saber cristão.
A imagem como o texto, dá acesso à meditação, à oração e às diversas práticas da espiritualidade. Mas a meditação, não é só o caminho para uma ascese formal, é também uma fábrica, um lugar de criação.

A memória na Idade Média não é apenas o ato de relembrar o passado. É parte substancial da ética de salvação que dá sentido e direção à Cristandade. Articula-se ao campo semântico da prudência, da sabedoria, da perfeição e até mesmo do profetismo.

Mary Carruthers comenta em seu Book of memory que Hugues de Saint-Victor (De Tribus maximis circumstantiis gestorum – c.1135) nos diz que as artes da memória devem ser cultivadas seriamente, pois constituem uma pedagogia para preservar o passado em suas múltiplas hierarquias e formas. Este cultivo é, em última instância, um projeto de futuro (não propriamente no sentido do devir, mas, no sentido de conduzir o cristão em sua atitude reta diante da vida, à salvação, propósito maior da existência da sociedade dos homens).

Depois de expor longamente os caminhos mneumônicos para o exercício da memória, H. de Saint-Victor18 informa que existem certos fundamentos do saber que, firmemente impressos na memória, servem de base a todo o resto.

Carruthers chama ainda a atenção para a articulação entre os mecanismos de leitura, memória e imagem. A imagem tem uma função textual de pontuar o escrito, sinalizando as formas diversas de como se deve ler e interiorizar o texto. É uma intermediária entre a oralidade e a escrita. Uma palavra escrita tem uma espécie de forma visual, a sua pintura, que era considerada, ao me-nos entre os instruídos, como parte integrante de sua significação, completa ainda a autora.
É no campo da rememoração, da presentificação dos tempos, da história do povo eleito que se manifesta explicitamente a ética cristã. Os livros de horas medievais podem ser tomados como um exemplo que reúne essas funções.

Ao pensar, portanto, o papel da imagem nos códices iluminados, particular-mente nos livros de horas, pareceu-me pertinente levar em consideração esses pressupostos.

3. Os livros de horas, um tesouro para ver e rezar

3.1. Um livro de horas – um tesouro
A noção de tesouro (thesaurus) na Idade Média associa-se à ideia de arca, uma espécie de “cofre forte” onde estão guardados todos os grandes valores cristãos. O thesaurus, neste sentido, não se refere especificamente a bens materiais, mas àqueles que fazem parte do acervo doado por Deus aos homens: a Sua própria história, a Sua vinda ao mundo dos homens, o Seu sacrifício-morte, a Sua ressurreição e a esperança da salvação. O Livro19, que deu a todos os cristãos a ordem social pela graça da Lei,20 deu também aos homens exemplos a serem seguidos pelo cultivo da caridade e das virtudes.

Um livro de horas é, assim, um tesouro, uma arca21 (na tradição bíblica guarda a lei, o decálogo) no sentido mais exato da palavra na Idade Média. Poderá esta ideia também ser associada à sua beleza e preciosidade, riqueza, variedade da composição e valor artístico, a uma maravilha – a mirabila – para fruição dos sentidos da visão.

No entanto, esses códices contêm bem mais do que isso. São verdadeiras enciclopédias medievais que se organizam em torno do tema central da salvação e contêm todas as histórias bíblicas (Figuras 3 e 4) para se rememorar como garantia da salvação e para recontar, sobretudo através de imagens, as histórias dos santos que atestam a viabilidade dessa salvação.

Esse thesaurus cuja contemplação rememora o sacrifício de Deus é suporte para conduzir os homens a um tempo novo e eterno, aquele da salvação num futuro pleno, anterior ao pecado.22
Desde a Alta Idade Média até o século XII, a produção do manuscrito estava quase toda reduzida aos scriptoria dos mosteiros. O trabalho de confecção de um códice era penoso e lento. Do preparo do pergaminho, seu corte e enquadramento, até o planejamento do fólio, levava-se um tempo razoável.

A escrita era muitas vezes vivenciada como verdadeira penitência. A necessidade de apontar os instrumentos a todo momento, de molhá-los na tinta e de escrever por horas a fio em lugares pouco aquecidos e em posição incômoda, fatigava o escriba. Muitos deles registraram no final do texto o seu cansaço e o alívio por acabar.

O final do século XII marcou uma grande transformação no fabrico dos códices. O crescimento urbano, com um público mais letrado e a demanda das universidades, acabou por provocar mudanças expressivas, e a produção do “livro” manuscrito não fugiu à regra da nova organização corporativa do trabalho. Surgiram as oficinas com artesãos especializados nessa produção e, muito cedo, as funções foram se dividindo – os escribas, os pintores e desenhistas, os iluminadores, os vendedores.

Os ateliês urbanos atendiam não somente às demandas dos religiosos e dos leigos. Um público rico, constituído pelos membros das casas régias ou grandes nobres passou a encomendar luxuosos códices iluminados nas oficinas mais prestigiadas da Itália, da França, da Borgonha, de Gand e Bruges.23

Quanto maior a riqueza, maior a piedade e maior as possibilidades de salvação. Muitos desses tesouros eram usados individualmente e de seu fabrico temos diversas notícias. Vários deles chegaram até hoje quase intactos e apreciá-los é, como já se falou, uma fruição a que não nos devemos furtar. Nesses conjuntos estão os livros de horas.

3.2. O que é um livro de horas
Seria difícil falar de um livro de horas anteriormente ao final do século XII e início do XIII. Embora sejam livros de oração cuja estrutura é claramente demarcada pelas horas canônicas (tradição próxima à marcação do tempo proposta pela estrutura monacal), eles se constituem em material utilizado por leigos, personalizados, cujo aparecimento coincide com o desenvolvimento da piedade individual e com as modificações a partir de Latrão e do movimento franciscano. É preciso, portanto não confundi-los com breviários, missais, saltérios ou outros do gênero, embora estes livros estejam na base de seu aparecimento.

Os livros de horas constituem instrumento de devoção pessoal, lindamente ornados e trabalhados com esmero por grandes artistas do baixo medievo. O material iconográfico apresentado é rico em temas do cotidiano, das sensibilidades religiosas, da organização das temporalidades e das diferentes representações dos espaços cristãos.

O aparecimento desses códices coincide com um momento de grande desenvolvimento da arte miniaturista e de sofisticação no colorido e iluminação, mas também corresponde a profundas mudanças na produção de manuscritos. É um momento em que esta produção sai dos scriptoria e vai para os ateliês, as oficinas especializadas.

3.3. A produção de um manuscrito e de um livro de horas
O scriptorium é quase sempre uma grande sala ou compartimento de um mosteiro para uso dos escribas e copistas destas comunidades. A ideia de lugar fechado e solitário destinado a guardar os “tesouros do saber” aparece em muitas obras de caráter historiográfico e até mesmo no clássico O nome da rosa, de Umberto Eco.24

Na verdade, os scriptoria, desde cedo, constituíram-se em lugares de trocas humanas importantes, agregando monges e não monges que se colocavam a serviço da produção, preservação, circulação e venda de manuscritos. Esta atividade, intensa em muitos mosteiros, aglutinava os antiquarii, librarii, scriptores, illuminatores que foram responsáveis pela produção de códices em boa parte da Idade Média.

O crescimento da vida urbana e o surgimento das universidades e do ofício de intelectual trouxeram novas necessidades à sociedade. Multiplicaram-se as cópias simplificadas e baratas, manuscritos destinados aos estudantes e aos habitantes da cidade que liam ou ouviam as narrativas de cavalaria ou as hagiografias. Ampliou-se um público rico oriundo em boa parte da corte régia ou da rica aristocracia urbana, que demandou produção sofisticada de códices iluminados e ricamente ilustrados. Eram eles em grande parte que encomendavam os livros de horas.

Neste momento, o termo scriptorium confunde-se muitas vezes com a oficina de produção de livros e códices que também agregava copistas desenhistas, iluminadores, livreiros e, até mesmo, bibliófilos. Ampliaram-se suas funções e, muitas vezes, o scriptorium-ateliê é centro de uma rede de relações de empréstimos, de trocas e de vendas que aumentaram socialmente o universo da leitura. É neste novo universo de produção que são, em grande parte, produzidos os livros de horas. Já é hora de apresentar o Livro de horas de D. Fernando, principal objeto deste estudo.

4. O livro de horas dito de D. Fernando

4.1. Descrição do códice
O códice tem 200 folhas (no geral, de 20 linhas) de pergaminho, ilustradas em cores; com dimensões de 250 x 180 mm. Texto em latim. Caracteres góticos, alternados em vermelho e preto. Iniciais iluminadas a ouro e a cores, com bordaduras, tarjas e finais de linha ornamentados em arabescos com motivos fitomórficos e zoomórficos, estes com a predominância de aves. Contém assinaturas manuscritas às margens nos fólios 71r, 138v, 151v e 154v. Antiga localização manuscrita no fólio 2r: 46-5-47 (escrita em cima de 47-5-57). Faltam os fólios 22 e 23. Carimbo da Real Biblioteca – Casa do Infantado nos fólios 16v e 164v.25

O colofão (Figura 5) menciona o ano de 1378 como referência da encomenda deste códice, que teria sido iluminado por Spinello Spinelli. James Marrow26 refuta a autenticidade da data e do artista mencionados, propondo c.1460 e a procedência flamenga (Bruges?) para provável destinatário inglês. O códice pertenceria a um grupo raro e ainda pouco conhecido, os Pembroke Psalter-Hours, usados no rito católico inglês (Sarum use). A argumentação abalizada do especialista deve ser levada em consideração para uma possível mudança na classificação desse manuscrito.27

4. 2. Conteúdo
ff. 2r-7v – Calendário em preto, vermelho e ouro, com inclusão, segundo Marrow28 de santos ingleses como Wulstan, Cedd, King Edward, Cuthbert, Guthlac, Elphege, John of Beverly (7 de maio), Dunstan, Augustine of Canterbury (26 de maio), Alban (22 de junho), Grimbald (8 de julho), Transladação de St. Swithun (15 de julho), Kenelm (17 de julho), Oswald, Transladação de St. Cuthbert (4 de setembro), Transladação de Str. Hugh de Lincoln (em vermelho, 6 de outubro), Osyth, Wilfrid (12 de outubro) Transladação de St. Etheldred (17 de outubro), Frideswide, Macchud (15 de novembro), Edmund (16 de novembro), Hugh of Lincoln (em vermelho, 17 de novembro) e S. Birinus (Figuras 6 a 17).

ff. 10r-16v – Quinze orações a Nosso Senhor Jesus Cristo Incipiunt quindecim orationes ad Christum […] O Domine ihesu christe eterna dulcedo te amancium […] The Fifteen Oes of Christ.29 ff. 18r-37v – Santíssima Trindade [Commemoratio de Sancta Trinitate, Do-mine deus omnipotens pater ET filius et spiritus sanctus da michi famulo tuo
N. victoriam] seguido das Commemorationes ou Memoriae;30 Comemoração a são João Batista; ff. 25r-25v Memória a são Jorge; ff. 27r-27v Memória a são Cristóvão; ff. 29r-29v Comemoração a Santana; ff. 31r-31v Memória de santa Catarina; ff. 33r-33v Memória de santa Maria Madalena; ff. 35r-35v Memória de santa Margarida; ff. 37r-37v Memória de santa Bárbara. ff. 39r-89v – Horas da Virgem Maria, Incipiunt horæ Beatæ Mariæ Virginis.31 ff. 90r-93v – Variações da Salve Rainha,Has Videas laudes, qui sacra Virgine gaudes...

ff. 93v-99r – Quatro Orações a Nossa Senhora; 97-102v Ofício dos Prazeres
de Nossa Senhora; o uso da “oração a Maria” que começa com “Salve virgo virginum” ff. 88r-91v e as Orações a Cristo e suas chagas ff. 102r-110.32

f. 93v – O intemerata...

f. 95v – Obsecro te...

ff. 104r-107r – Ofício das Cinco Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, de
Nossa Senhora e de são João Evangelista.

ff. 107v-109r – Oração de são Beda.ff. 109r-112r – Sete Orações a Nosso Senhor.

ff. 112r-112v – Cinco Prazeres de Nossa Senhora. Incipiunt quinque gaudia Beatæ Mariæa Virginis.ff. 114r-121r – Sete Salmos Penitenciais. ff. 121r-127r – Quinze Salmos Graduais.

ff. 127r-135r – Litania de Todos os Santos.33 ff. 136r-164v – Ofício dos Defuntos seguido de Commendatones animarum ff. 163r-174v 17.34 ff. 178r-186v – Saltério da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. ff. 187r-199v – Saltério de são Jerônimo.35

f. 188v – Em branco.

f. 199 – Glória: Ne reminiscaris... //Oremus //Omnipotens sempi//terne deus clementiam tu//am suppliciter deprecor ut //me, famulum tuum. N. tibi fideliter //servire concedas et perseverantiam bo//nam et felicem consummationem mihi //largiri digneris ut hoc psalterium //quod in conspectu tuo decantavi fiat //ad salutem et remedium animae omniumque meorum ve//niam ac //vivis et defunctis ad itam //proficiat sempiternam. Amen.

f. 199v – Colofão36 (Figura 5) Ipse dipicture que conti//net hoc libro fuerunt manufacte //per Spinello Spinelli et illas deri//gebat Rmo. P. Ioachinus desa ora//tor amplissimus in oratório Re// gis D. Ferdinandi Portugalie et //pro ipsso Rege Menistrus Lusitanie //apud Sanctissimum P. Gregoriû //XI. Anno 1378.

f. 200 – Em branco.

4.3. Descrição das Imagens

4.3.1. Miniaturas a pleno fólio
Muitas delas com medalhões circulares com nomes de santos vários de devoção inglesa.37 (Figura 2)

f. 1v – O martírio de são Sebastião, fólio possivelmente acrescentado a posteriori. (Figura 1)

f. 9v – Salvator Mundi – Cristo sobre o orbe terrestre com quatro medalhões circulares (são Gregório, são Leão, são Jerônimo e são Ambrósio). (Figura 2)

f. 17v – A Santíssima Trindade com quatro medalhões circulares (são Francisco de Assis, são Domingos de Gusmão, são Pedro de Verona e são Ludovico).

f. 20v – São João Batista com quatro medalhões circulares (santo Antão, são Paulo, santo Egídio e santo Efrem).

f. 24v – São Jorge com quatro medalhões circulares (são Sebastião, são Vitor, santo Adriano e são Maurício).

f. 26v – São Cristóvão com quatro medalhões circulares (são Julião e santa Basilissa, são Lourenço, são Vicente e são Quintino).

f. 28v – Santana com quatro medalhões circulares (santo Aleixo, santa Isabel, santa Marta e os dez mil mártires).

f. 30v – Santa Catarina com quatro medalhões circulares (santa Úrsula, santa

Ontcomer, santa Cunera e santa Doroteia).

f. 32v – Santa Maria Madalena com quatro medalhões circulares (as onze mil virgens, santa Águeda, santa Apolônia e santa Clara de Assis).

f. 34v – Santa Margarida com quatro medalhões circulares (santa Eutrópia, santa Zita, santa Benigna e santa Godeleva).

f. 36v – Santa Bárbara com quatro medalhões circulares (uma abadessa, santa Inês, santa Brígida e uma outra santa não identificada).

f. 38v – Jesus Cristo no horto das oliveiras com quatro medalhões circulares (santo André, são Tomé, são Barnabé e são Tiago Maior).

f. 39r – A anunciação. (Figura 3)

f. 46v – A traição de Judas e a prisão de Jesus com quatro medalhões circulares (são Pedro, são Paulo, são Felipe e são Tiago Menor).

f. 47r – A Visitação.

f. 60v – Jesus Cristo diante de Pilatos com quatro medalhões circulares (são Simão, são Judas Tadeu, são Bartolomeu e são Mateus).

f. 61r – A natividade.

f. 65v – A flagelação com quatro medalhões circulares (santo Odulfo, santo Henrique, são Lázaro e são Jodoco).

f. 66r – O anúncio aos pastores.

f. 70v – Jesus Cristo a caminho do calvário, com quatro medalhões circulares (são Dimas, são Longino e mais dois abades).

f. 71r – Adoração dos Reis Magos.

f. 74v – Jesus Cristo crucificado, com quatro medalhões circulares (são João, são Mateus, são Marcos e são Lucas).

f. 75r – A apresentação do menino Jesus no templo.

f. 78v – A descida da cruz, com quatro medalhões circulares (são Crispim, são Crispiniano, santa Gertrudes e santa Petronilha).

f. 79r – O massacre dos inocentes.

f. 84v – A deposição de Jesus Cristo da cruz com quatro medalhões circulares (um bispo, são Laudelino, são Cosme e são Damião).

f. 85r – A Fuga para o Egito.

f. 103v – A crucificação, com quatro medalhões circulares (são Ludovico, são Bavon, uma santa não identificada e santa Luzia).

f. 113v – O Juízo Final, com quatro medalhões circulares (são Basílio, santo Humberto, santo Helvécio e são Leonardo).

f. 135v – A Ressurreição de Lázaro, com quatro medalhões (celebração de uma missa, um túmulo e duas monjas).

f. 177v – Jesus Cristo tendo à sua esquerda, sua Mãe, e à direita, são João Evangelista, entre os instrumentos de seu martírio, com quatro medalhões circulares (são Daniel, são Bento, são Bernardo e são Bernardino).

f. 188v – São Jerônimo, sentado, retirando um espinho da pata direita de um leão, com quatro medalhões (são Gervásio, são Clemente, são Cornélio e são Silvestre).

4.3.2 Miniaturas a meio fólio

Estão intercaladas no texto quase todas as letras iniciais das Horas da Vir-gem Maria e Ofício de Nosso Senhor, representando cenas da vida de Cristo, da Virgem Maria e de diversos santos, incluindo-se aqui também várias iniciais.38

f. 53v Inicial – Memória do Espírito Santo.

f. 54v Inicial – Memória de são Miguel.

f. 55v Inicial – Memória de Pedro e Paulo.

f. 56r Inicial (acima) – Memória de santo Andrea.

f. 56r Inicial (abaixo) – Memória de santo Stefano.

f. 56v Inicial – Memória de são Lourenço com a grelha.

f. 57r Inicial – Memória de são Tomás (de Cantebury?).

f. 57v Inicial – Memória de são Nicolau.

f. 58v Inicial – Memória de todos os santos.

f. 59v Inicial – Tentação de Adão e Eva pelo demônio.

f. 64v Inicial (acima) – Letra T com o sudário.

f. 64v Inicial (abaixo) – Imagem rasurada.

f. 69r Inicial – A letra T e os símbolos da Paixão.

f. 73v Inicial – Jesus sendo posto na cruz.

f. 77v Inicial – A deposição da cruz.

f. 83r – Maria Madalena com Cristo.

f. 88v – O enterramento.

f. 90r Inicial – Anunciação do Anjo a Maria.

f. 93v Inicial – A Pietà.

f. 99v Inicial (acima) – Ingresso de Nossa Senhora no templo, acompanhada de são Joaquim e santa Ana.

f. 99v Inicial (abaixo) – Maria Santíssima no céu com o menino Jesus nos braços, adorado por rei e rainha.

f. 100r Inicial – Adoração dos reis magos. (Figura 4)

f. 100v Inicial – A Ressurreição de Cristo com três guardas romanos.

f. 101r Inicial (acima) – Ascensão de Jesus assistido por Maria Santíssima e os apóstolos.

f. 101r Inicial – Nossa Senhora rodeada pelos apóstolos recebendo com eles
o Espírito Santo.

101v – A natividade. Jesus na relva é adorado por Nossa Senhora.

104r – A inicial em formato de cruz no ofício das Cinco Chagas de Cristo.

104v Inicial (acima) – Sudário de Cristo.

104v Inicial (abaixo) – A mão direita com a chaga.

105r Inicial – Mão esquerda de Cristo com a chaga.

105v Inicial (acima) – Sagrado coração de Jesus. Os quatro pequenos discos representam os rios do Paraíso.

f. 105v Inicial (abaixo) – Pé direito com trespasse de espinho.f.106r – Pé esquerdo com trespasse de espinho.

f. 106v – São João Evangelista.

f. 107v Inicial – Cristo na cruz com os três ladrões.

5. O calendário

5.1. Descrição do calendário
O calendário do Livro de horas de D. Fernando está completo e em bom estado de conservação. Os elementos decorativos que aparecem nas tarjas e nas cenas de cada mês revelam influência marcante das oficinas brugenses, particularmente daquelas que estavam em atividade em meados do século XV. A devoção dos santos traz a marca desta região e, segundo Marrow,39 do Sarum use corrente na Inglaterra do baixo medievo.

Contém a tábua calendarial e as miniaturas referentes às atividades de cada mês, em medalhões quadrilobados, de tamanho uniforme, com contorno de fundo nas cores rosa e azul, alternando-se a cada fólio.

O mês de janeiro (Figura 6) estende-se a plena página, com toda a sua quadratura cercada por elementos decorativos, enquanto nos outros meses apenas uma das laterais a contorna. A decoração das margens apresenta bordaduras diversas, motivos zoomórficos (pássaros na tarja superior e no bas-de-page) e fitomórficos (folhas de acanto, pequenos frutos e flores em quadrifólio e pentafólio, rosáceas e pequenas flores), com predominância das cores vermelha, azul e preta. O ouro aparece nas margens de todos os fólios.

O texto do calendário propriamente dito está enquadrado e justificado, encimado por inicial recoberta em cores e decorada em ouro. As letras capitais alternam-se ora nas laterais, ora no centro e o texto está em latim. Escrito em caracteres góticos, com numeração em romanos vermelho e preto. Em alguns fólios, o texto apresenta-se um pouco apagado. As letras indicam os dias da semana (de A a G) e os números permitem localizar os ciclos lunares, os domingos a cada ano, bem como auxiliar os cálculos do calendário móvel. À direita aparece sempre a relação das festas e dos santos, com iniciais secundárias em cada linha, sendo que os mais importantes estão quase sempre destacados em vermelho. Algumas rubricas extemporâneas, bem mais recentes, com notação em arábicos aparecem no calendário nos fólios 2r (janeiro), 3r (março), 3 v (abril), indicando um uso bem posterior do manuscrito.

5.2. Identificação dos fólios do calendário (Figuras 6 a 17)

f. 2r – Mês de janeiro: homem aquecendo-se diante da lareira.

f. 2v – Mês de fevereiro: podagem das vinhas.

f. 3r – Mês de março: lenhagem das árvores.

f. 3v – Mês de abril: homem com flores celebra a entrada da primavera.

f. 4r – Mês de maio: cena cortesã de caça.

f. 4v – Mês de junho: corte do feno e de cereais.

f. 5r – Mês de julho: ceifa do trigo e de cereais.

f. 5 v – Mês de agosto: debulha e joeiragem do trigo.

f. 6r – Mês de setembro: vindima.

f. 6v – Mês de outubro: semeadura.

f. 7r – Mês de novembro: engorda dos porcos com bolotas.

f. 7v – Mês de dezembro: abate dos porcos ou javalis.

6. As bibliotecas régias e o Livro de horas de D. Fernando

6.1. A procedência
O carimbo da Real Biblioteca – Casa do Infantado, estampado nos fólios 16v e 164v do Livro de horas de D. Fernando, não deixa dúvida quanto à procedência deste códice. Por outro lado, há também vários registros e listas existentes nos arquivos da Biblioteca Nacional do Brasil referentes ao acervo régio e àqueles outros transportados de Portugal para o Brasil à época da vinda de D. João VI.

O setor de manuscritos da Biblioteca Nacional do Brasil registra claramente no Índex das obras do Infantado, e Inventário dos caixões de livros que vieram no dia sete de setembro, que diziam pertencer à sereníssima Casa do Infantado (...) se colige serem a maior parte dos Livros (...) no Gabinete do (...) rei D. José I a referência a

Um livro em pergaminho feito em 1378 governando a Igreja de Deus Gregório XI e adornado de estampas. Estampas feitas por Spinello Spineli e dirigidas pelo padre Joaquim Desa pregador da Capella ao Gov. D. Fernando de Portugal e ministro do mesmo Gov. em Roma. Contém este livro escrito em letra gótica orações e antifonas.40

Se, por um lado, a procedência e os atropelos da viagem para o Brasil do códice fernandino são relativamente conhecidos e documentados, o mesmo não se dá com a questão das origens, da produção e do destinatário do manuscrito. Deste tema ocupar-me-ei mais adiante. Assim, antes de abordar os problemas de datação e identificação do Livro de horas de D. Fernando, é preciso recuperar o seu percurso, mostrando como se constituiu o acervo e a
própria Biblioteca Régia portuguesa que originará, no século XIX (1810), a
biblioteca brasileira. Por ora, caberia encaminhar algumas questões que parecem bastante pertinentes:

1 Quais as possíveis ligações entre as livrarias (bibliotecas) dos reis portugueses medievais e o códice fernandino? De que forma constituíram ou mesmo produziram estes conjuntos os reis bibliófilos da dinastia de Avis?

2 Qual o destino desses acervos até a constituição da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro?

3 Como relacionar o manuscrito fernandino com o conjunto dos outros manuscritos medievais existentes atualmente nas bibliotecas portuguesas?

4 Quais os estudos diretamente relacionados com o Livro de horas de D. Fernando no momento em que integra o acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro?

6.2. A produção de livros de horas em Portugal nos séculos XV e XVI

Nos últimos séculos do medievo quase todos os grandes ateliês de artistas europeus ocuparam-se do fabrico de livros de horas, apresentando, a par de certos padrões comuns, uma variedade e riqueza muito grande, particular-mente nos calendários iluminados que se multiplicaram em grande parte de Flandres e da França e, sobretudo, em livros destinados aos clérigos (saltérios, missais, martirológios) e, mais raramente, nos sacramentais.

O século XV pode ser considerado a época de ouro dos calendários e dos livros de horas, quando se produziu, por exemplo, as Très riches heures du duc de Berry, espécie de padrão estético desses códices. Os ateliês de Bruges e de todo o ducado de Borgonha encheram-se de grandes artistas sob o patrocínio dos duques Felipe e Isabel.

Nesta época dos mais belos códices medievais, o aumento da demanda ocasionada pela ampliação da riqueza dos grandes comerciantes e da aristocracia urbana, fez com que muitas oficinas começassem a produzir os códices com modelos padronizados, diminuindo em muitos casos, sua qualidade estética. No entanto, é preciso também considerar, a grande diversidade e riqueza temática das imagens que variaram muito de região para região, de oficina para oficina e de artista para artista.

Embora a produção em grande quantidade fosse uma singularidade do período que antecede à imprensa (ou mesmo no momento imediato a seu surgimento), as bibliotecas dos reis e grandes nobres ou dos comanditários enriquecidos pelas novas rotas e tratos de comércio jamais deixaram de produzir, encomendar ou adquirir os códices mais ricos e exclusivos dos grandes artistas do final do medievo.

Em Portugal, a produção de manuscritos iluminados foi, por longo tempo, prerrogativa dos mosteiros, destacando-se entre eles, como grandes centros, Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra. No entanto, parece ter sido tardia a produção de códices feitos nos ateliês. O advento da dinastia de Avis (1385) trouxe modificações expressivas nessa produção. Esses reis, grandes bibliófilos, como boa parte dos governantes europeus da época, associam seu nome ao mecenato, constituindo livrarias (bibliotecas) régias e patrocinando, no próprio paço, oficinas de iluminadores e fabricantes de códices ricos.

Francisco Hollanda, filho do não menos famoso iluminador e autor Antonio Hollanda em seu tratado Da pintura antiga,41 arrolando, à moda de Vasari,42 os grandes iluminadores e pintores de sua época, menciona que no reinado de D. João I (1385-1433) havia em Portugal um artista de nome Antonio Florentim, mandado vir de Florença pelo próprio rei. As chancelarias régias também mencionam pagamentos a artesãos estrangeiros, sobretudo italianos.

À época de D. Duarte e de D. Afonso V, a influência dos artistas de Bruges é fartamente referenciada. Lembre-se que o grande centro de produção de códices iluminados, livros de horas e outras maravilhas da Idade Média estava em Flandres. Isabel, duquesa de Borgonha, traz a Portugal artistas de renome, ou faz das feitorias portuguesas em Flandres um centro de trocas e compras de livros que abastecem o paço régio. Ainda em meados do século XV, ou pouco mais adiante, convém lembrar os contatos do cardeal D. Jaime com Bisticci, que teve papel decisivo na construção da Biblioteca Laurenziana e que iria mais tarde constituir o núcleo inicial da biblioteca Vaticana.

O mais antigo livro de horas português (se não considerarmos como português o Livro de horas de D. Fernando) parece ser o Livro de horas de D. Duarte. Tem quase duzentos fólios ricamente iluminados, segundo o uso de Roma, e foi presente de Isabel de Borgonha, irmã do rei D. Duarte. Vale a pena ressaltar a beleza do calendário deste códice, ou mesmo da Anunciação
(f. 96v) ou do Anúncio aos Pastores (f. 120v).

Longe de esgotar a rede que de uma forma ou de outra envolve o paço português até o reinado de D. Afonso V, gostaria de mencionar a importância da produção de manuscritos e de material iluminado de grande valor artístico que envolve o período final do reinado de D. João II. É, no entanto, no período manuelino, quando já a invenção da imprensa havia definitivamente se firmado, que a produção de códices iluminados e especificamente os livros de horas atingem seu maior nível em quantidade e perfeição artística. Falo da presença de grandes iluminadores que trabalharam para a casa régia e que estiveram sob a proteção e o mecenato do rei D. Manuel, enriquecido pelas recentes descobertas nas Índias e no Brasil. As tendas dos irmãos Benning e de Antonio Hollanda, enchiam a Ribeira à época manuelina.

São desta época, além de outros, dois grandes exemplares de livros de horas portugueses: o Livro de horas da rainha D. Leonor e o Livro de horas de D. Manuel, cujo iluminador, Antonio Hollanda, é também o executor da obra monumental dos frontispícios dos Livros de leitura nova.
Importante agora ressaltar outro aspecto da questão: a construção de bibliotecas e das práticas de leitura que acontecem no paço. Deixo de lado muitas outras questões, como o impacto da imprensa e as grandes bibliotecas particulares, para fixar-me no período de D. Duarte e sua famosa livraria.

É o momento da introdução dos clássicos e da tradução para a linguagem do claro (português) de Cícero, dentre outros. Portugal integra-se através de
D. Duarte e de seu irmão D. Pedro ao nascente humanismo das cortes de Borgonha, Florença, Flandres e França.

As crônicas que relatam os primeiros anos da dinastia da Avis (é o caso da Crônica de D. João I, de Fernão Lopes) referem-se a um núcleo inicial de livraria que teria sido formado por D. João I. No entanto, poucas e vagas referências temos dela.

Tal não é o caso da livraria (biblioteca) de D. Duarte, filho e sucessor do primeiro monarca de Avis. Dele possuímos uma listagem de 84 livros em seu testamento e a referência explícita da existência de uma livraria régia de uso privado dos reis.43

Os monarcas que o sucederam, D. Afonso V, D. João II e D. Manuel ampliaram aquele núcleo e deste último temos notícia, através do seu Livro de receitas e do guarda-roupa,44 da existência de mais de uma centena e meia de livros, o que é expressivo para a época.

A biblioteca régia foi se ampliando à época de D. Manuel e dos reis dos séculos XVI. O gosto de D. João III pelos livros iluminados fez com que sustentasse um verdadeiro exército de livreiros a seu serviço em diferentes pontos da Europa.

A ligação dos reis com a produção de livros manuscritos, a tradução e a construção de grandes coleções, as livrarias (bibliotecas), foi prática em toda a Europa. O mecenato e a utilização da imagem do rei vinculado à escrita e à leitura têm sido estudados por muitos historiadores da medievalidade. As práticas de leitura e fabrico dos códices, e depois dos livros impressos, consolidaram, de certo modo, o poder régio.

Ao produzirem códices e livros, os reis portugueses da dinastia de Avis agem coerentemente com o propósito de consolidar seu poder. Constroem redes especializadas de trabalho nas oficinas régias, trazendo artesãos de várias partes da Europa, bem como inauguram sociabilidades ligadas às práticas da leitura e da escrita na corte e nos segmentos abastados das cidades portuguesas.

6.3. O destino das livrarias régias medievais portuguesas

O domínio espanhol em Portugal de 1580 a 1640 deixou abandonado
grande parte do acervo e muita coisa foi levada de Lisboa para a Espanha. Restaurada a monarquia portuguesa, reorganiza-se a biblioteca à época de D. João V, transferindo-se a livraria para o terceiro andar do paço da Ribeira, então sede do poder monárquico. O rei enviou a várias partes da Europa emissários para a compra de livros, manuscritos, mapas e gravuras.45 Vários catálogos foram produzidos nesta recuperação da livraria régia, mas nunca foram encontrados em qualquer parte do que restou do acervo. Isto porque, em 1º de novembro de 1755, um terremoto seguido de incêndio, tomou toda Lisboa de surpresa e destruiu quase toda a biblioteca.

A nova reconstrução de Lisboa e da biblioteca foi tarefa a que se empenhou D. José I, reunindo o que restou da antiga livraria da Ribeira, adquirindo valiosas coleções e, sobretudo, adotando uma política de aquisição de códices e de livros raros, através de compras, doações e confiscos, particularmente dos bens da Companhia de Jesus, cujo poder econômico e político havia sido limitado por ação do marquês de Pombal, ministro de D. José I. Conhecemos hoje, através dos atos de nomeação de bibliotecários e arquivistas e das listagens e catálogos por eles produzidos, boa parte deste acervo.

No Palácio da Ajuda foram reunidas duas coleções distintas: a Livraria Real (ou Real Biblioteca, que era a biblioteca privativa dos monarcas) e a Livraria da Casa do Infantado (destinada à formação dos príncipes reais). Entre 1755 a 1777, a nova biblioteca real foi restaurada.

A invasão napoleônica em Portugal trouxe novos rumos para a história da biblioteca régia portuguesa. Aliado dos ingleses, o rei português muda-se com toda a família real para o Brasil, fazendo neste momento, do Vice-Reino, a sede do poder monárquico. Com o rei, transfere-se pouco tempo depois a biblioteca, transportando para os trópicos um dos grandes acervos europeus naquele momento.

Para a longa viagem rumo ao Brasil, o acervo da Real Biblioteca foi dividido em 3
lotes e acondicionado em caixotes. Na correria para embarcar em 1807 os caixotes
foram esquecidos no porto, permanecendo, por algum tempo, debaixo de sol e chuva, até retornarem para o Palácio da Ajuda. Sua transferência começou a ser feita em 1810. O primeiro lote – que trouxe também, em segredo, os 6.000 manuscritos da coroa – veio acompanhado pelo servente da Real Biblioteca, Joaquim José de Oliveira. O segundo saiu de Lisboa em março de 1811, na fragata Princesa Carlota. Trazia a Biblioteca Real em 66 caixotes e aportou no Rio de Janeiro em junho, sendo acompanhada pelo bibliotecário Luís Joaquim dos Santos Marrocos. O terceiro e último lote saiu de Lisboa em setembro de 1811, com 87 caixotes de livros. Foram embarcados na charrua São João Magnânimo, sob a guarda do servente José Lopes Saraiva. Em novembro de 1811 estava reunida toda a biblioteca real em terras brasileiras.46

Numa destas viagens veio certamente o Livro de horas de D. Fernando, conforme documentação existente nos arquivos brasileiros a que já me referi anteriormente.

Para acomodar o acervo, foi requisitado através do decreto real de 27 de
junho de 1810, o andar superior do Hospital da Ordem Terceira de Nossa
Senhora do Monte do Carmo, próximo ao palácio e à capela reais. Como o espaço era insuficiente, um novo decreto foi assinado, revogando o primeiro, para que o acervo ocupasse também os porões e as catacumbas do mesmo hospital. A data da assinatura deste novo decreto, 29 de outubro de 1810, tornou-se a data oficial de fundação da Biblioteca Nacional brasileira.

6.4. A Biblioteca Nacional e o acervo de livros de horas

O Livro de horas de D. Fernando tem uma história bem diversa dos outros códices portugueses a que me referi anteriormente. O estudo do percurso deste códice é de fundamental importância para entender melhor sua origem e datação. Trata-se, porém, de questão complexa, porque procedendo da Real Biblioteca portuguesa, passou pelos percalços que marcaram a longa história dessa instituição.

O conjunto dos chamados “manuscritos portugueses” que chegou ao Brasil tem origens muito diversas e não parece aproximar-se dos principais livros de horas hoje existentes em bibliotecas e arquivos de Portugal.

Os livros de horas que integram a coleção dos manuscritos iluminados da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro são em número de nove.47 Datados entre os séculos XIV, XV e XVI, têm diversas proveniências. Quatro vieram da Real Biblioteca – Casa do Infantado, outros dois de coleções que foram doadas à Biblioteca Nacional, como a do marquês de Pombal e a coleção José Antônio Marques, doada em 1889, e os três restantes foram adquiridos por compras nos séculos XIX e XX.

6.5. Principais estudos sobre o Livro de horas de D. Fernando

O Livro de horas de D. Fernando tem sido até agora muito pouco estudado, como, aliás, os da mesma categoria que existem na Biblioteca Nacional do Brasil e em arquivos e bibliotecas brasileiras, dos quais temos notícias esparsas e ainda pouco sistematizadas.

Mencionado quase sempre como um tesouro, assunto que já anteriormente discuti, tem sido exposto eventualmente pelo seu depositário (iniciativas bastante louváveis), mas as pesquisas específicas ainda são escassas. Há, porém dois pesquisadores que merecem um destaque especial, por terem feito os únicos ensaios específicos sobre o códice.

O primeiro deles, um trabalho erudito de meados do século passado com pesquisa de peso que descreve o manuscrito.48 Frei Damião Berge em dois importantes trabalhos analisa questões específicas do códice fernandino e de outros livros de horas da Biblioteca Nacional do Brasil, o segundo estudo continua inédito e mereceria uma publicação, ainda que com atualizações, para que o público interessado pudesse ter acesso a este valioso trabalho.

O Livro de horas de D. Fernando consta na Biblioteca Nacional como um breviário. Com esta classificação, Berge não concorda. Numa erudita tentativa de tipologizar o manuscrito com base em grandes clássicos, conclui que se trata de um livro de horas com pequenas variações e que o códice apresenta a estrutura e as partes essenciais desses manuscritos.

Uma segunda investigação, de grande importância, foi desenvolvida por James Marrow, grande especialista da Princeton University que contesta os estudos de Berge, feitos com base nos dados fornecidos pelo colofão do códice fernandino. As principais questões e a tese sustentada por Marrow serão desenvolvidas adiante.

No âmbito das obras de referência, vale mencionar a iniciativa do Catálogo dos livros de horas da Biblioteca Nacional do Brasil realizado por Vera Faillace,49 chefe da seção de manuscritos desta instituição, que é certamente um instrumento de grande utilidade para os especialistas interessados.

Algumas outras menções poderiam também ser arroladas, como guias e catálogos que referenciam o Livro de horas de D. Fernando. No entanto, não são estudos específicos.

7. Problemas de identificação, datação e destinatário do Livro de horas de D. Fernando

A descontinuidade e a tumultuada trajetória do códice fernandino cria questões de grande dificuldade para a identificação e datação deste manuscrito. A estas, agregam-se outras, referentes ao comanditário e ao destinatário deste livro de horas.

Tanto Berge quanto Marrow, estudiosos aqui mencionados anteriormente, trataram destes temas. Frei Damião Berge preocupou-se inicialmente com a tipologia do códice. Seus argumentos e conclusões partem quase sempre do colofão, pouco analisando a rica iconografia contida no códice. Tomo as informações que aparecem nesta parte das Horas fernandinas, mostrando de forma breve, como Berge as trabalhou. O colofão, escrito, nas palavras do próprio Berge, num “latim grosseiro”, apresenta-se em letra diferenciada das outras do códice, em vermelho, com o seguinte enunciado

Ipse dipicture que conti//net hoc libro fuerunt manufacte //per Spinello Spinelli et illas der //gebat Rmo. P. Ioachinus desa ora//tor amplissimus in oratório Re//gis D. Ferdinandi Portugalie et //pro ipsso Rege Menistrus Lusitanie //apud Sanctissimum P. Gregoriû //XI. Anno 1378. 50

A primeira informação relevante do colofão é que teria sido manufaturado nas oficinas do grande pintor aretino Spinelli Spinello (“Ipse dipicture que con-ti//net hoc libro fuerunt manufacte //per Spinello Spinelli”) a mando do próprio rei de Portugal (“Re//gis D. Ferdinandi Portugalie”), e encomendado pelo padre Joaquim de Sá, ministro português junto ao papa Gregório XI (“pro ipsso Rege Menistrus Lusitanie //apud Sanctissimum P. Gregoriû //XI”), que teria feito a encomenda em 1378.

O registro no colofão (f. 199v) menciona portanto como destinatário, D. Fernando, último rei português da dinastia de Borgonha. Berge faz ressalvas importantes a ser este o destinatário. Considerando sobretudo, que a letra do colofão é muito diferente da do resto do manuscrito e observando que apresenta erros no latim, inadequados para um códice destinado à casa real, levanta a hipótese de o colofão ser um acréscimo posterior a este manuscrito.

Numa análise profundamente erudita sobre a tipologia do códice, com base em vários estudiosos (Leroquais e Batiffol, entre outros) situa a presença de diferentes orações, invocações e ritos, concluindo por uma forte influência beneditina, dos monges olivetanos de San Miniato, em Florença, para quem Spinelli Spinello (1346-c.1410) teria trabalhado por longo tempo.
Por sua vez, porém há numerosas miniaturas, em medalhões de santos beneditinos, comemorados no calendário, assim como dos santos da clássica tradição eclesiástica [...] Parece certo que o calendário remonta, não para Roma, mas para a Itália mais setentrional ou central. Ali provém uma das ramificações da grande família beneditina; não da congregação de Cluny, apesar da larga difusão que ela tinha no continente; mas segundo veremos[sic] dos beneditinos olivetanos.51
Ressalta porém Berge que há muito pouca referência aos santos portugueses e estranha mesmo a ausência de alguns deles.

O que talvez possa causar espécie é o fato de, num livro encomendado por um padre português, destinado à real família de Portugal e desenhado por um artista italiano, não haver nenhuma miniatura de Santo Antônio de Lisboa ou de Pádua (canonizado 1232), quando não falta S. Bernardino de Sena, que pouco podia interessar a Portugal.52

Após analisar em detalhes sua estrutura a partir dos textos das orações e das imagens, concluiu, com base em vários especialistas, que se trata de um livro de horas e não de um breviário, conforme está erroneamente classificado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Baseando-se ainda fortemente nos argumentos do colofão, após analisar a tipologia e a estrutura textual, não chega a criticar a questão do lugar de produção do códice nas oficinas de Spinelli, embora faça considerações importantes sobre a datação de 1378 referenciada no texto.
Em relação à data, pondera que, como nos medalhões de santos aparece a figura de são Bernardino de Siena, que teria sido canonizado após a morte do pintor Spinello Spinelli, seria impossível que este iluminador o representasse no manuscrito. O argumento do estudioso é que muito provavelmente, o filho de Spinello, Parri Spinelli (1387-c.1453), poderia ter terminado o manuscrito nas mesmas oficinas de seu pai.

Ambos os pintores são biografados por Vasari53 que discorre longamente sobre eles, tecendo elogios enormes aos Spinelli, chegando mesmo a comparálos a Giotto.54 Vasari ainda expõe longamente a ligação de Spinelli Spinello com os olivetanos de San Miniato. Citando, por exemplo, a bela obra da sacristia deste mosteiro comenta que

[...] Don Iacopo d´Arezzo, abate di S.Miniato in Monte dell´Ordine di Monte Oliveto, dipinse nella volta e nelle quattro facciate della sagrestia di quel monasterio, oltre la tavola de´ll altare a tempera, molte storie della vite di S.Benedetto a fresco con molta pratica e con una gran vivacità di colori, imparata da lui mediante um lungo esercizo et un continuo lavorare con studio e diligenza, como invero bisogna a chi vuole acquistar un´arte perfettamente.55

Berge mapeia as possibilidades de ter havido efetivamente a encomenda do códice a Spinelli, especulando quem, além do rei D. Fernando, poderia ter sido, na família real, o proprietário deste belo manuscrito. Sugere um aprofundamento dessas pesquisas nos inventários dos príncipes e princesas portuguesas. No que pese seus sólidos argumentos e sondagens, as questões de datação e de identificação continuaram ainda a esperar por maiores investigações.

Teria sido, efetivamente, o códice iluminado por Spinelli, este grande artista pré-renascentista que trabalhou por muitos anos para os monges olivetanos em San Miniato e cuja atuação circulou principalmente entre Arezzo, Siena e Florença?

Marrow56 é bem mais cético quanto a esta questão. Nega veementemente que a produção do códice tenha sido feita nas oficinas de Spinelli. Mais do que isso, refuta a sua própria realização na Itália.

Para esse especialista, a data também deve ser revista e propõe a provável realização em c.1460. Segundo ele, a confecção teria sido feita em oficina flamenga, provavelmente em Bruges, para um destinatário inglês, já que a análise do calendário e da própria estrutura do livro estaria explicitamente vinculada ao rito Sarum, usual na Inglaterra e não na Europa continental.

Os argumentos de James Marrow são bastante convincentes. Tinha-os já exposto há vários anos, em carta à Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, onde esteve examinando o códice fernandino. Encaminha de forma bastante diversa dos estudos de Berge as questões referentes às origens e identificação do manuscrito. Enumera com maior fundamento a estrutura e tipologia do Livro de horas de D. Fernando, comprovando a sua filiação ao rito Sarum e a um destinatário inglês com fortes argumentos.

As proof that this manuscript was made for export to England – and thus presumably for an English patron or buyer – I note the following: The liturgical use of the Hours of the Virgin and of the Office of the Dead in the manuscript are those of Sarum (= the rite of the English church). In the Hours of the Virgin, this in indicated by the Antiphons and Capitula that follow the Psalms at Prime and None, which begin: Prime: Antiphon: O admirable…

Capitulum: In omnibus…None: Antiphon: Germinavit radix…Capitulum: Et radicavi…
In the Office of the Dead, Sarum Use is indicated by the incipits of the responses to each of the nine lessons, which are:Credo quod…Qui lazarum…Domine quando…Heu michi…Ne recorderis…Domine secundum…Peccantem me…Requiem eternam…Libera me domine de morte…57

Um segundo argumento referente ao calendário reforça sua análise, pois este apresenta um grande número de santos de procedência inglesa

The Calendar and the Litany of Saints in the manuscript both contain numerous entries of saints venerated in England. In the Calendar these include saints Wulstan, Cedd, King Edward, Cuthbert, Guthlac, Elphege, John of Beverly (May 7), Dunstan, Augustine of Canterbury (May 26), Alban (June 22), Grimbald (July 8), Translation of St. Swithun (July 15), Kenelm (July 17), Oswald, Translation of St. Cuthbert (September 4), Translation of Str. Hugh of Lincoln (in red, October 6), Osyth, Wilfrid (October 12), Translation of St. Etheldred (October 17), Frideswide, Macchud (November 15), Edmund (November 16), Hugh of Lincoln (in red, November 17), and Birinus. In the Litany these include such entries as Edward, Oswald, Botulph, Sexburga, Mlburga, and Osyth.58

Comenta ainda em relação à estrutura que a escolha e a sequência dos textos são essencialmente características das horas feitas para algum comanditário inglês

The choice and sequence of the texts in the manuscript are also characteristic of Books of Hours made for use in England. Among the textual features in Ms. 50.1.1. that are characteristic of English horae I mention: The first prayer in the manuscript, the so-called “Fifteen Oes of Christ” (fols. 10r-16v); the location of the Suffrages of Saints before the Hours of the Virgin (in Ms. 50.1.1 on fols. 18r-35v) instead of at the end of the manuscript (as in most manuscripts made on the continent of Europe); the “farced” prayer to Mary beginning “Salve virgo virginum” on fols. 88r-91v; and such texts as the “Joys of the Virgin” on fols. 97v-100v, the Prayers to Christ and his wounds on fols. 102r-110; the “Commendatones animarum” on fols. 163r-174v, the Psalms of the Passion on fols. 176r-184v, and the “Psalter of St. Jerome” on fols. 185r-196v – ALL
these texts are entirely characteristic of Books of Hours made for use in England.

Concluindo seus fundamentos sobre a estrutura e procedência inglesa de uso Sarum do Livro de horas de D. Fernando, o autor identifica a iconografia aos ciclos de Flandres no século XV, ressaltando como as miniaturas e decorações desse manuscrito estão ligadas a esta região.

Many elements of the cycle of miniatures are also characteristic of manuscripts made in Flanders for use in England, but rather than list those subjects it is simpler to comment on the style of the illumination (miniatures and decoration). Ms. 50.1.1 is closely
related to a small subgroup of de luxe Books of Hours produced in Bruges for English clients…59

Acrescenta, ainda o Professor que o Livro é do grupo dos Pembroke-Psalters, raríssimos nos acervos europeus e americanos, só existindo deste grupo mais dois exemplares conhecidos, um em Cambridge (Cambridge, England, Fitzwilliam Museum, Ms. 53) e outro em Philadelphia (Philadelphia Museum of Art, Philip S. Collins Collection, 1945-65-2, 53).60

O pesquisador supõe que o códice fernandino possa ter sido feito nas oficinas de mestre Antônio da Borgonha (Antoine de Bruges), conhecido por produzir livros de horas destinados à Inglaterra. Muitas das miniaturas têm também acentuada influência dos estilos de Willem Vrelant.61

Willem Vrelant foi um dos mais férteis e influentes iluminadores de Bruges, com grande sucesso comercial. Conhece-se a cronologia de grande parte de seus trabalhos produzidos no último terço do século XV, e sabe-se que foi um atuante membro das guildas das gentes do livro em Flandres, que incluíam não só iluminadores, escribas, pergaminheiros e comerciantes diretamente envolvidos no trato dos livros.

Trabalhou em Bruges para o duque de Borgonha e há farta documentação que comprova a realização de trabalhos de sua oficina nesta poderosa casa em 1468. Embora muitas das suas miniaturas e iluminação sejam verdadeiras obras-primas, sabe-se que Vrelant também produziu em grande escala para exportação e para altos senhores diretamente ligados à Casa de Borgonha. Certamente o estilo inconfundível de Vrelant, com os contornos em preto de suas figuras estáticas, recheadas com fortes cores e muito uso do ouro, o aproxima do iluminador do Livro de horas de D. Fernando – supostamente maître Antoine de Bruges.

Embora mestre Antonio seja conhecido, tal como Vrelant, por fazer horas em larga escala, no caso dos Pembroke Psalter-Hours,62 as miniaturas parecem ser exclusivas, feitas com a participação de muitos pintores. Para Marrow, poderia ter havido no Livro de horas de D. Fernando a participação de, até doze pintores, o que nos possibilita supor que os comanditários destes livros seriam de alto poder aquisitivo, provavelmente das casas régias.

Quanto à procedência portuguesa, no período fernandino ou mesmo no de outro rei português, Marrow,63 em resposta a uma pergunta que lhe enviei por carta, sobre a presença do escudo português no fólio inicial do códice foi bastante taxativo: “o fólio que inicia o livro é posterior e falsificado e o escudo português, de má qualidade artística não poderia designar um proprietário régio”.

Among the many things that are inauthentic about the location and execution of this coat of arms I mention: Illustrations of saints, such as the full-page depiction of St. Sebastian on fol. 1v, are not normally found before Calendars in Books of Hours. Such an illustration makes little sense as the frontispiece to a Book of Hours. The placement of the coat of arms is also non-sensical, as coats of arms do not normally appear in tress in the landscapes of narrative depictions. This contradicts all normal rules of heraldic placement and function.

The pigments used for the coat of arms differ from those found elsewhere in the manuscript, which by itself indicates that the arms were added after the book was finished. The painting of the coat of arms is unrefined and notably clumsy, which one would not expect if the arms were intended to glorify an important owner. In short, the coat of arms on fol. 1v is NOT original and does not appear to be an authentic indication of ownership.64

8. Velhos problemas, novas questões: conclusões parciais

Os problemas referentes ao uso da imagem pelo historiador no âmbito deste ensaio foram mais enunciados que resolvidos. Trata-se de longo trabalho que envolve procedimentos comparativos, com base em construção de banco de dados e acesso a um extenso campo empírico, ao qual tive acesso parcial.

Beneficiei-me até aqui de alguns procedimentos previstos no Thesaurus (GAHOM), que permitiram parte (ainda limitada) da indexação dos elementos figurativos da documentação que delimitei: livros de horas do rito Sarum realizados em Bruges e Inglaterra e material das oficinas próximas aos iluminadores relacionados à corte de Borgonha.

Conforme já disse anteriormente, o problema da procedência parece estar mais esclarecido e documentado, mas carece ainda de consulta a inúmeras listagens das bibliotecas medievais antes do terremoto que destruiu o Paço da Ribeira.

A questão da tipologização do códice está muito bem fundamentada nos argumentos apresentados por Marrow e não me parece haver dúvida quanto a sua tese no que se refere à datação e identificação da oficina produtora do códice. A estrutura do códice de uso Sarum é indubitável e a produção em oficinas flamengas parece de fato um argumento muito consolidado.

Gostaria de acrescentar, no entanto, algumas questões que endossam este argumento.65 Vasari é bastante detalhista no que se refere à atuação dos Spinelli e em nenhum momento menciona qualquer trabalho deste pintor ligado à miniatura. Spinelli é mencionado nos arquivos de Florença mais pela sua participação como pintor de igrejas. Não encontrei ainda referências à sua ação como miniaturista. De fato, a estrutura das horas segundo os usos italianos é muito diferente da apontada por Marrow, embora isto não impedisse que se fizesse lá um livro deste tipo sob encomenda, para outros usos, como, aliás, se fazia em Flandres. Mas não acho que esse seja o caso deste códice.

Gostaria, no entanto, de ressaltar a relação entre o mosteiro dos olivetanos em Florença, onde trabalharam durante grande parte de sua vida os Spinelli e os príncipes de Avis. Menciono as relações do infante D. Pedro em suas viagens com esta casa monacal, as da duquesa de Borgonha, cuja origem portuguesa fez com que fosse o grande elo entre a casa de Borgonha e Portugal, e finalmente o rei D. Afonso V e sua mulher. Estes últimos financiaram um dos mais belos túmulos renascentistas, onde foi enterrado o filho do infante D. Pedro, o cardeal D. Jaime. Íntimo dos grandes bibliófilos e dos intelectuais de Florença, como Bisticci e Picolomini que viria a ser mais tarde o papa Pio II, este cardeal, sobrinho da duquesa de Borgonha, tinha relações estreitas com os artesãos e intelectuais flamengos.

Não acredito que os Spinelli sejam os produtores do Livro de horas de D. Fernando, mas é preciso levar em conta as relações da Casa de Borgonha de Portugal e da Itália florentina, com os olivetanos de San Miniato, em cujos arquivos apenas iniciei minhas explorações.

A exploração dos arquivos portugueses ainda terá que ser aprofundada nos testamentos dos príncipes da casa real portuguesa, bem como as relações de Portugal com a corte de Borgonha, no que tange às encomendas e trocas comerciais de manuscritos. Nos índices de nomes portugueses não há menção de nenhum ministro de D. Fernando, nem de outro rei posterior, como Joaquim Sá.

No entanto é importante que não sejam esquecidas as relações estreitas de Isabel, princesa portuguesa da ínclita geração (como a chamou o grande historiador Oliveira Martins)66 e duquesa de Borgonha no momento de um dos mais expressivos centros de produção de códices iluminados em toda a cristandade. A duquesa (e obviamente seus irmãos) é filha de D. João I e de
D. Filipa de Lencaster, inglesa que tanta influência teve na corte portuguesa dos primeiros momentos da dinastia de Avis.

As crônicas portuguesas são recorrentes ao falar das desavenças de Filipa, que durante toda a sua vida rezou suas horas pelo rito Sarum e encheu o paço régio da liturgia inglesa. Não é também desconhecida dos historiadores a estreita ligação religiosa da rainha com seus filhos e filhas. Não poderia ser um deles o venturado destinatário deste belo códice que aqui veio ter, pelas voltas do destino, do outro lado do Atlântico?

9. Uma reflexão: tempo de oração, tempo do mundo no calendário do Livro de horas de D. Fernando

9.1. Tempo, imagem e devoção nos calendários
Os calendários constituem uma das mais belas partes dos livros de horas e variam em relação a tempo e espaço, a região e clima e a procedência dos ateliês com seus programas iconográficos. São objetos preciosos para os estudiosos da arte e para os historiadores medievalistas.

A análise dos calendários permite-nos muitas vezes datar, localizar a procedência e o destinatário de um livro de horas. Estão diretamente ligados à organização do espaço, das hierarquias sociais e das experiências cotidianas da sociedade. Mostram, sobretudo, como as relações tempo-trabalho-devoção organizam-se a partir das imagens (imago, no sentido medieval do termo). Construir calendários é, de certo modo, domesticar o tempo.

Caberia perguntar inicialmente como, quando e por que um calendário faz parte de um livro de orações. Embora o primeiro calendário impresso seja de 1455 (Alemanha), assistimos desde a Idade Média uma verdadeira “cultura de calendários”, muitos dos quais nos chegaram através dos livros de horas.

Muitas e complexas são as maneiras com que os homens lidaram com o tempo. Para medi-lo e controlá-lo, criou sistemas diversos de usos e de representação, dos quais o calendário é uma das mais antigas expressões. Ao analisar a sua função nas sociedades, Jacques Le Goff comenta que
O calendário, objeto científico, é também um objeto cultural. Ligado a crenças, além de a [sic] observações astronômicas (as quais dependem mais das primeiras que o contrário), e não obstante a laicização de muitas sociedades, ele é manifestamente um objeto religioso. Mas enquanto organizador do quadro temporal, director da vida pública e quotidiana, o calendário é, sobretudo um objeto social.67

A construção de um calendário, lembra ainda o autor, está claramente relacionada com o tempo cósmico, [...] que se impõe a todas as sociedades humanas; mas estas o captam, medemno e transformam-no em calendário segundo as suas estruturas sociais e políticas, os seus sistemas econômicos e culturais, os seus instrumentos científicos e tecnológicos.68
Um dos principais instrumentos de poder na sociedade, o calendário tem função de controle do tempo do trabalho e do ócio, das festas e dos rituais religiosos, da construção das eras, utopias e escatologias. Mais do que isso, “o calendário conduz à instituição da história cronológica dos acontecimentos”.69

O calendário usado na Europa na Idade Média seguiu o sistema desenvolvido originalmente pelos romanos, mas o uso deles é uma herança clássica grega.70 Na Antiguidade romana os meses eram representados por festas religiosas populares e quase sempre acompanhados dos signos do zodíaco. Muitos mosaicos romanos representavam, segundo Perrine Mane,71 os temas das estações. Em alguns casos, por exemplo, (Saint-Romain-en-Gaul, século III) são associados a 28 festas ou atividades rurais divididas nas estações.

No sistema romano, o ano é dividido em 12 meses, como no nosso calendário moderno, mas os dias do mês não são numerados como os nossos. Há uma espécie de três dias chaves identificados como calendas (o primeiro), ides (o 13º ou 15º, dependendo do mês) e nono (o nono dia após ides). Todos os outros dias são relatados como esses dois. Assim falamos: hoje é o segundo dia antes de ides de março.72

O calendário cristão medieval superpôs ao romano uma lista de festas cristãs. Trouxe pouco a pouco grandes mudanças na vivência temporal que passou a ter uma nova direção e estruturou-se em torno de dois polos: a tradição vétero- e neo-testamentária, respectivamente o passado e o presente cristãos: o mundo que o nascimento de Cristo inaugurou é um tempo novo, da renovação do pacto de Deus com os homens.

Ser cristão era pertencer à comunidade de Deus por conhecer a salvação – a nova evangélica da chegada do messias redentor. Era acreditar num tempo que viria, num futuro regenerador, capaz de garantir a sobrevivência da alma, operando a ressurreição de cada homem à imagem de Cristo. O futuro projetava-se num reino celeste para além dos limites do vivido, num tempo escatológico que se realizaria com a morte.

O passado e o futuro estavam escritos numa multiplicidade de livros que constituíam uma referência básica na reprodução do grupo e na transmissão cultural: a Bíblia. Ela organizava e direcionava a expansão evangélica, conferindo aos grupos cristãos uma memória. A narrativa de uma experiência temporal comum garantia um sentimento de continuidade pela presença de um texto escrito que “cristalizava” o passado e criava uma direção obrigatória da História: a salvação.
A sucessão do tempo relida pela ação da Igreja católica organizou-se em função dos parâmetros socioculturais que o cristianismo trouxera, hierarquizando-o por um lado, através da história sagrada e por outro pela sucessão dos trabalhos, sobretudo os do campo que garantiam a sobrevivência deste mundo. Os pagamentos dos tributos, por exemplo, faziam-se sempre nos dias de determinadas festas ou santos (são Miguel, são Martinho, por exemplo).

A construção do calendário cristão envolveu (como, aliás, envolve a de outros calendários), muitas questões:a dependência da natureza, o papel do poder dominante (religioso ou sacerdotal),o peso da história, a força do enraizamento econômico-social, o prevalecer ocasional do fenômeno agrícola, as consequências da insuficiência de um instrumental científico que não permita a previsão.73

Agregaram-se ao calendário romano e à tradição bíblica a memória do sofrimento dos mártires cristãos e as comemorações dos santos. O tempo sacralizou-se. Os ciclos sazonais e a sucessão das mudanças cósmicas repetiam a história do sacrifício de Cristo. A sucessão dos dias da semana relembrava a criação do mundo. A inserção do domingo pelo cristianismo relacionava-se ao descanso divino.

No século IV, começaram a aparecer os calendários sobre pergaminho. Nestes casos, quase sempre, um único personagem simbolizava cada mês acompanhado das festas religiosas, como uma espécie de hesitação entre o sagrado e o profano. Dois ciclos ocidentais representam estes antigos calendários:

1 o modelo carolíngio, que provém em grande parte dos ateliês franceses e alemães;

2 o modelo de Salzburg, o mais antigo dos ciclos medievais que representam os trabalhos agrícolas pelos objetos.74 Os calendários dos livros de horas dividiam o dia no ritmo e sucessão dos tempos da igreja e representavam o ciclo sazonal a partir da leitura cristã sacrificial que ordenava o ano litúrgico. Mas os tempos, embora se repetissem, organizavam-se linearmente na direção escatológica da salvação.

Ao longo da Idade Média, uma nova divisão do tempo, feita sob inspiração monacal, segmentava os dias segundo as orações: matinas, laudes, prima, terça, sexta, nona, vésperas e completas. A estrutura dos calendários dos livros de horas é idêntica às usadas pelos missais ou breviários monásticos.

A partir dos séculos XI e, sobretudo XII e XIII, há uma espécie de monumentalização dos calendários e eles aparecem nos mosaicos das catedrais, nos pórticos e, no século XIII, até mesmo nas construções laicas, associados aos trabalhos dos meses.

Nos últimos séculos do medievo os calendários iluminados multiplicaramse em grande parte em Flandres e na França, sobretudo em livros destinados aos clérigos: saltérios, missais, martirológios e, mais raramente, nos sacramentais. Há uma produção importante nesta época nos Países Baixos e na Alemanha, mas são mais raros na Itália e na Espanha. Os temas profanos dos trabalhos dos meses aparecem quase sempre ao lado das festas dos santos do mesmo mês nas margens laterais e se inscrevem como nas esculturas, em medalhões circulares, quadrilobados ou retangulares que, por vezes, se prolongam em pequenos arcos.

Nos séculos XIV e XV, quando o uso dos calendários já declina nos monumentos, as representações dos trabalhos tomam as formas mais diversas, não mais se limitando apenas às margens, mas prolongando-se para os frontispícios, o bas-de-page, sobretudo nos ciclos flamengos. Muitas vezes os medalhões aparecem nas representações calendariais associados aos temas laicos e da natureza. Irão aparecer em grande parte nos manuscritos iluminados, particularmente nos livros de horas, muitas vezes no bas-de-page e outras vezes, nas cenas centrais dos fólios.

É a época de ouro dos calendários e dos livros de horas, quando se produziu, por exemplo, as Très riches heures du duc de Berry (LHB) espécie de padrão estético destes códices. Os ateliês de Bruges e de todo o ducado de Borgonha têm também um papel decisivo na concepção de calendários ornados de maneira muito rica e trazendo às vezes temas burgueses.75

Embora se tenha nesta época os mais belos códices medievais, o aumento da demanda fez com que muitas oficinas começassem a produzir os calendários com modelos padronizados, diminuindo a sua qualidade estética.

Marrow comenta a grande importância dos Pembroke Psaulters-Hours exatamente por fugirem aos esquemas padronizados de representação, comuns na época em boa parte das oficinas flamengas. Também refletindo sobre a necessidade de se considerar estas singularidades, Schmitt pondera que

La temporalité des images ne peut se décliner qu´au pluriel: pluriel des temps sociaux et des représentations du temps, qui varient selon les époques, les intérêts, les niveaux de culture et les occasions de parler et de “vivre” les temps; pluriel des images, qui ne sauraient exprimer le temps et le mettre en oeuvre dans leurs propes séries que de manière toujours spécifique.76

Um exemplo interessante é o caso do Livro de horas de D. Manuel (LHM), produzido nas oficinas dos irmãos Hollanda, que tiveram forte influência flamenga. Ao representarem moinhos ora o fizeram com os padrões setentrionais (f. 6v), ora o fizeram como as azenhas (f. 9v), modelo tipicamente ibérico de influência árabe, transpondo, portanto, uma experiência regional para um quadro rural tipicamente português.

Os calendários integram as grandes transformações que aconteceram na sociedade no final da Idade Média. São mudanças nas devoções, na religiosidade laica cada vez mais intimista, na inserção dos temas junto aos religiosos, mas sobretudo nas imagens e na forma de representar.
Um novo tempo se anunciava. Ao lado do velho tempo da Igreja,77 tempo monacal do badalar dos sinos que chamavam à oração surgiu um novo tempo, o tempo do mercador,78 egresso das necessidades urbanas, impulsionadas por um novo ator social, o burguês, que modificaria lentamente o monopólio do tempo sacralizado. Os calendários integraram as temáticas profanas, burguesas e até mesmo aquelas mais populares em que os tempos se contam como nestes versos:

Janeiro, olha para o ano passado e para o que está para vir.Fevereiro, o mês mais duro em que a vida parece parar.Março, em que começam os trabalhos da vinha.Abril, colhem-se as primeiras flores. Maio, “o tempo está belo e amoroso”.Junho, os trabalhos das terras.Julho, o corte do feno.Agosto, a ceifa.Setembro, a sementeira.Outubro, a vindima.Novembro, mandam-se os porcos às bolotas.Dezembro, mata-se o porco.79

9.2. Tempos de Deus, tempos das estações no Livro de horas de D. Fernando

Ms. 50.1.1, f. 2r, mês de janeiro (Figura 6)

A miniatura apresenta-se em medalhão quadrilobado, com cena única. A linha do horizonte é demarcada pelo fundo azul (com pequena douração superposta), contrapondo-se ao quadriculado do chão e intermediada por muro ou parede. As cores vermelha, verde e azul dominam o quadro.

A cena principal, claramente interiorizada, é composta por figura humana sentada, aquecendo-se diante de uma lareira acesa. Voltadas para ela estão as mãos e a perna erguida de um homem, em gesto descontraído. No traje masculino, a bolsa e o sapato aparecem em destaque, na mesma linha dos olhos. As bordas da lareira limitam um dos lados da quadratura, terminando em movimento arredondado tal como o banco que serve de assento à figura principal da cena.

A representação do aquecimento diante da lareira é recorrente em muitos livros de horas do baixo medievo. Em boa parte destes manuscritos do século XV ela aparece associada à refeição. Nas Horas de D. Fernando temos apenas a primeira cena. Segundo Markl,80 poderia ser a ceia comemorativa de são Silvestre.81 Tanto num caso, como no outro, podemos encontrar maneiras diversas de ambientação: ou a ambientação nobre, ligada diretamente à influência das Horas do duque de Berry ou aquelas que refletiam a influência da burguesia nórdica de Flandres.82
A principal figura da miniatura fernandina parece enquadrar-se no segundo caso. A bolsa representada em destaque é um verdadeiro topos nos programas iconográficos medievais para a representação do burguês. Aquecido num interior bem construído, este personagem era, sem dúvida, um importante ator na construção histórica de um universo intimista, além de inovador na forma de habitar. Muitas vezes era também destinatário de livros de horas ou um grande mecenas que viabilizava sua confecção ou comercialização.

A cena de um velho aquecendo-se diante da lareira é comum nos breviários mais antigos – referia-se quase sempre à entrada do inverno. Esta figura re-lembra as antigas representações romanas ou paleocristãs. Mane observa bem a questão dessa figuração das estações

Dans um exemplaire enluminé à la fin du XIVe siècle par l´atelier de Giovannino de Grassi, l´hiver est symbolisé par um vieil homme en train de se chauffer, le printemps et l´ été par des jeunes gens couronnés de fleurs, un bouquet ou des fruits dans les mains; enfin, l´automne est invoquée par deux vignerons, l´un cercle un tonneau, l´autre vendage.83

É importante lembrar que as temporalidades nos livros de horas não remetiam somente ao ano litúrgico ou aos dias, mas também às estações de cada ano e estavam muitas vezes associadas às imagens do zodíaco. Marrow84 mostra este mesmo tipo de representação do mês de janeiro em outro livro de horas85 do mesmo grupo do LHF, o Pembroke Psalter-Hours (Bruges, c.146570), hoje no Philadephia Museum of Art. No bas-de-page deste manuscrito, dois círculos figuravam o mês de janeiro: a mesma cena do aquecimento que aparece no manuscrito abrigado no Rio de Janeiro, acrescida do símbolo do zodíaco (Aquário) referente ao mês.

Ms. 50.1.1, f. 2v, mês de fevereiro (Figura 7)

A miniatura apresenta-se em medalhão quadrilobado, contornado em ouro. Também em ouro, como nos outros meses, estão a inicial e alguns elementos de decoração da tarja, com bordaduras e motivos fitomórficos.

A linha do horizonte está demarcada pelo fundo rosáceo, bastante esmaecido, contrapondo-se diretamente ao verde do chão. Diferentemente do mês anterior, a cena principal é externa, composta por figura humana em pé, segurando instrumento de trabalho que ultrapassa a quadratura (provavelmente uma machadinha ou similar). A gestualidade sugere atividade de podagem, já que os galhos despidos apontam ainda para o tempo de desfolhamento. A cena refere-se muito provavelmente ao desbaste e trato das vinhas que em alguns livros de horas é representado neste mês.

As atividades agrícolas de inverno aparecem geralmente representadas nos meses de fevereiro e março e, quase sempre, se referem à podagem dos arbustos e da vinha. Na grande maioria dos livros de horas este desbaste é colocado no mês de março, já no final do inverno. Apenas uma minoria destes manuscritos antecipava esta atividade para o mês de fevereiro.86

Têm-se discutido bastante as razões desta variação nas representações, atribuindo-as muitas vezes ao ritmo diferenciado das mudanças climáticas ou às diferenças das técnicas agrícolas de cada região. Embora não se deva desprezar estas explicações, é preciso sobretudo levar em consideração as diferenças dos programas iconográficos das oficinas e dos mestres em torno dos quais muitos ateliês se organizavam.

Os livros de horas dedicavam vários fólios às atividades da vinicultura, pois o plantio e a exploração das vinhas era uma das mais importantes atividades econômicas da Idade Média, quer por seu caráter lucrativo, quer pelo seu uso variado em todos os segmentos da sociedade.

A podagem das vinhas era feita de diferentes formas, mas não poderia ultrapassar o tempo em que a seiva está menos ativa. Feita normalmente com machadinha, foice curta ou até mesmo tesoura, o tipo de corte variava naturalmente conforme a casta da uva, o local em que estivesse plantada e mesmo a forma de plantio.

Muitas vezes, como neste caso, a figura do camponês aparecia em pé, outras vezes sentado, quando fazia a poda baixa ou enxertos e algumas vezes em escadas, quando trabalhava com as vinhas mais altas, acopladas em árvores nas áreas de cultivo ou até nos bosques e florestas. O trabalho era feito por uma pessoa (em alguns casos também representado por um velho) ou poucas mais, que recolhiam os galhos que serviriam para aquecimento ou escora.

O Livro de horas de Rohan87 (LHR) traz uma bela miniatura referente ao mês de março, em que um camponês poda um arbusto com uma pequena foice. No mesmo mês, aparece nas Horas de Nuremberg88 (LHN) uma representação em cena única, muito próxima da que aqui vemos em fevereiro.

No Livro de horas de D. Manuel89 o trabalho das vinhas (tanto a podagem quanto o preparo das mudas e enxertos) é retratado de maneira minuciosa em janeiro e em março. Em muitas cenas o camponês aparece abaixado ou ajoelhado, cortando os galhos mais baixos. Outras vezes numa escada para alcançar os mais altos.

Convém destacar a forte carga simbólica que desde a Antiguidade era conferida à vinha pela sua capacidade de “morrer” no inverno e “renascer” em brotação na primavera. Morte e ressurreição são certamente temas caros ao mundo cristão, e a Idade Média não se furtou à exploração deste forte simbolismo. A liturgia cristã rememora até hoje, a cada missa, a morte de Cristo, utilizando-se para isso do vinho que expressa o sacrifício divino.

Ms. 50.1.1, f. 3r, mês de março (Figura 8)

Também em medalhão quadrilobado, contornado em dourado, a atividade é representada em cena única no mesmo padrão das anteriores. As cores verde, vermelha e azul dominam o quadro e o fundo azul repete a alternância de cores que se verifica em todo este calendário. A vegetação mais densa, com duas árvores com folhagem verde denuncia a chegada da primavera.

Na cena principal uma figura masculina centralizada entre as duas árvores remete às atividades campestres, em gestualidade muito semelhante à da miniatura anterior. O homem de braços erguidos segura uma machadinha, seu instrumento de trabalho.

O trabalho de lenhar parece ser a atividade a que se refere o fólio. Nem sempre retratada nos livros de horas mais antigos, é cena comum nos do final da Idade Média. A representação da atividade de lenhagem em março é tardia, embora muitos códices também a tragam neste mês. A impossibilidade de realizar os trabalhos de cultivo e o crescimento da necessidade da lenha no inverno faziam crescer a demanda por este serviço. Além das prestações obrigatórias que o camponês devia ao senhor, muitas vezes, ele realizava trabalhos pagos de corte das árvores ou o fazia para o seu próprio consumo. Nos últimos séculos do medievo não era incomum que fornecesse para a cidade, a madeira de que ela necessitava.

O corte da lenha é quase sempre atividade realizada nos bosques próximos às áreas de cultivo, mas na sua maioria fazia-se nas florestas mais fechadas, onde as árvores de maior porte eram derrubadas. O crescimento do poder senhorial estendeu-se em boa parte às florestas e, nos últimos séculos da Idade Média, o corte das árvores ou era proibido ou necessitava para realizá-lo de concessões e privilégios por parte do senhor ou do poder régio.

A madeira de todos os tipos, tamanhos ou procedência constituiu material de grande importância em todo o medievo. Empregada para o aquecimento, a construção de casas, móveis, cercas e proteção para as plantas servia também para o cozimento e inúmeras outras atividades, inclusive para o fabrico de instrumentos de trabalho. Em toda a Idade Média ainda podemos encontrar a madeira usada não só no fabrico de cabos ou proteção de instrumentos de trabalho, mas também, nas regiões em que o metal era escasso, até mesmo no corpo destes instrumentos.

A floresta e as atividades que nela eram desenvolvidas sempre tiveram uma forte conotação simbólica, e era bastante comum que sua referência estivesse presente no material hagiográfico. Este espaço, como disse Le Goff,90 é o espaço de provas do cavaleiro, mas é também lugar de retiro dos eremitas e de tentação de muitos santos. O grande medievalista chama também a atenção para a associação que se fazia da floresta ao deserto, com referências destes lugares à tradição vétero-testamentária. Monstros e demônios em grande parte habitavam a floresta e assombravam os que nela trabalhavam. É, pois, no seu sentido figurado como lugar-limite de reflexão, adequado a um livro de orações.

O Livro de horas de D. Manuel representa a atividade de lenhagem no mês de janeiro enquanto em março apresenta como principal cena, a tosquia. Nas Très riches heures du duc de Berry,91 tal como nas horas fernandinas, a atividade de podagem, com a mesma gestualidade, aparece em destaque em fevereiro, ao fundo da miniatura.

Ms. 50.1.1, f. 3v, mês de abril (Figura 9)

A cena única apresenta um homem em pé, segurando flores numa das mãos, em gestualidade corporal de quem caminha. A vegetação bem verde e mais densa que nas miniaturas dos outros fólios referencia juntamente com as flores, os tempos primaveris. Esta representação é bastante comum nos livros de horas flamengos e franceses. Em alguns deles aparece no mês de abril e em outros (mas bem mais raramente), em maio.

A jardinagem e a horticultura eram atividades normalmente exercidas nos primeiros meses primaveris, quando o clima ameno favorecia a brotação das plantas mais frágeis e a intensidade das chuvas era bem menos rigorosa, o que permitia crescimento harmônico.

A saída dos rigores do inverno era marcada por trabalhos que exigiam me-nos do camponês do que os pesados trabalhos da colheita que se iniciavam no verão. O plantio de leguminosas, raízes e ervas garantia um importante complemento na alimentação dos rudes que muitas vezes tinham dificuldades para obter as cotas de proteína e de carboidrato suficientes para seu sustento.

O cultivo das ervas medicinais, feito desde a alta Idade Média ampliouse e sofisticou-se com o crescimento dos mosteiros e com as novas técnicas agrícolas que marcaram os séculos XI e XII. A partir dessa época até o final da Idade Média, cultivavam-se também ervas e temperos de todos os gostos para atender aos hábitos alimentares mais exigentes dos citadinos.

A cidade e o campo se transformaram muito nos três últimos séculos do medievo. Os velhos castelos, antes apenas praças de guerra, serviam de habitação, enchiam-se de tapeçaria, arcas trabalhadas, objetos sofisticados e jardins. A eles deveriam atender os trabalhadores do campo, tanto no final do inverno quanto na abertura da primavera.

A cidade também se integrou a essas mudanças no habitar e no viver – o jardim é parte do urbanismo no final da Idade Média e o burguês da cidade quer um campo domesticado para circundar seus palazzos. Lírios, miosótis, trepadeiras, pequenas rosas, lavandas e flores perfumadas, juntamente com fontes e águas furtivas, compunham os quadros bucólicos do campo e da cidade.

Era natural que muito pouco desse trabalho estivesse efetivamente representado nos livros de horas. Na construção idealizada das temporalidades na Idade Média, os meses de abril e maio estavam sempre associados à diversão, aos jogos e, principalmente, à nobreza e ao ambiente cortesão.

No seu sentido simbólico, a horta, o horto ou o jardim tinham forte sentido edênico, eram uma espécie de réplica do paraíso terreal, lugar das pastorelas e dos amores, muitas vezes também associados à tradição bucólica pagã.

No Livro de horas do duque de Berry o mês de abril é representado por uma cena cortesã, ao ar livre, tendo ao fundo um castelo, um jardim amuralhado e vinhas. O Livro de horas de Rohan mostra na cena principal um cavaleiro com lírios nas mãos, em bela montaria num bosque, seguido por cães.

No século XVI, o iluminador do Livro de horas de D. Manuel92 apresenta no mês de abril, uma cena quase trovadoresca, construída em torno de uma fonte. No bas-de-page, um moinho tipo azenha ladeado de cisnes em águas tranquilas.

Ms. 50.1.1, f. 4r, mês de maio (Figura 10)

A miniatura apresenta imagem de homem em cavalgada, em cena única, com a mesma alternância de fundo dos outros fólios. Marrow93 chama a atenção para a presença no calendário deste mês de muitos santos de devoção inglesa, enumerando-os exaustivamente. “In the Calendar these include saints Wulstan, Cedd, King Edward, Cuthbert, Guthlac, Elphege, John of Beverly (May 7), Dunstan, Augustine of Canterbury (May 26)”. Isto confirmaria sua tese sobre um possível destinatário inglês deste códice e de sua ligação com o Sarum use.

A cena é típica do mês de maio em grande parte dos livros de horas e, de certo modo, continua a mesma temática cortesã apresentada no mês de abril. Cavalo e cavaleiro, este com mão enluvada segurando um pássaro de falcoaria apresenta-se em figuração típica da nobreza, quer por sua ação, quer pelos trajes e paramentos que porta.

Os livros de horas representam quase sempre a caça praticada pelos nobres, em ambientes suntuosos, belas paisagens em bosques floridos, lembrando rituais pagãos. Embora o camponês exercesse também a caça, não é ela que aqui está representada nos meses primaveris de abril e maio. Ele o faz geralmente para complementar sua dieta, assim mesmo quando existiam espaços deixados pelo poder senhorial nos bosques e florestas.

A caça ao javali ou ao cervo era a caça nobre, praticada com grande ritual, que envolvia desde a música das charamelas até um farto número de camponeses, armas próprias para a caça e toda a falcoaria adequada a esta atividade. A temática das festas ao ar livre, de grandes comemorações em procissões pelos rios, até as bodas era geralmente representada em maio.

Os jogos primaveris e a caça realizavam-se de acordo com determinadas regras de conduta. Eis uma corte civilizada, como nos diz Norbert Elias.94 Simbolicamente, este era o tempo do ócio e das comemorações, era o tempo da nobreza.

Uma das mais belas representações de maio nos calendários medievais é certamente o Très riches heures du duc de Berry, em que aparecem damas e cavaleiros, luxuosamente paramentados, em montaria sofisticada, tendo ao fundo um grandioso castelo.

A cena principal do mês de maio do Livro de horas de D. Manuel 95 traz uma bela festa de núpcias, realizada ao ar livre. No bas-de-page, a festa fluvial retrata com perfeição o “joli mois de mai”.

Ms. 50.1.1, meses de junho (f. 4v), julho (f. 5r) e agosto (f. 5v) (Figuras 11, 12 e 13)

Os fólios de junho, julho e agosto apresentam miniaturas como as descritas anteriormente, quer na composição das cores e dos elementos figurativos, quer na organização visual da temática desses meses. Mostram-nos a sequência do principal trabalho agrícola na Europa cristã: aquele relativo à cultura dos cereais, base do regime alimentar da população. Logo que terminam as atividades primaveris, figuradas nos livros de horas entre março e maio, iniciavam-se os trabalhos de campo relativos a colheita e preparo dos cereais. Os meses de junho, julho e agosto eram representados, com algumas variações, pela labuta pesada da colheita, com a fenação, a ceifa e a confecção dos molhos de trigo ou de outros cereais e finalmente da debulha.

O fólio de junho (f. 4v) representa um camponês descalço, em pé, com foice de cabo longo nas mãos, em gestualidade de quem trabalha neste labor do campo. A atividade da ceifa com foice curta é a miniatura do mês de julho (f. 5r). Nela, o camponês ajoelhado realizava seu trabalho com a mão direita, de modo a deixar a mão esquerda livre para pegar o feixe cortado.

Em agosto (f. 5v) é a atividade da debulha que é representada. O camponês com o mangual em suas mãos, os braços erguidos, prepara-se para liberar o grão de espiga e em seguida retirar-lhe a casca.

Marrow96 faz referência à presença de vários santos da devoção inglesa nestes meses, o que novamente reforça seus argumentos quanto ao destinatário e provável uso deste códice. Muitos dos calendários ingleses e flamengos retardam a ceifa para julho, mas os do ciclo mais ativo de Bruges coincidem com a representação destas horas “fernandinas”.

O corte do trigo maduro, da aveia, da cevada, do centeio e de vários outros cereais devia ser feito longe dos períodos das grandes chuvas e não podia durar muito tempo para que as espigas colhidas fossem imediatamente amontoadas e abrigadas para o final da secagem. Obedecia assim a uma sequência temporal relativa ao amadurecimento ou à maior ou menor resistência do cereal.

A foice de cabo longo era o instrumento mais comum para o desbaste e corte, mas a foice de cabo curto e outros instrumentos, também podiam ser utilizados nestes trabalhos, quase sempre associados nas miniaturas a uma atividade masculina e árdua. Muitas são as representações da sede, da fome e do calor que elas provocavam. Trabalhando em pé, no período de verão, o camponês quase sempre era figurado com um lenço em torno do pescoço que usava para limpar o suor. Em sua grande parte as miniaturas mostram este trabalho como uma atividade coletiva.

Ao contrário dos trabalhos de corte, a recolha e a confecção dos feixes aparecem muitas vezes nas miniaturas realizadas por mulheres ou ajudando aos homens nessas tarefas. Para juntar as palhas e espigas usavam o ancinho ou um garfo longo, amarrando-as em molhos que deviam ser feitos à largura dos braços para que pudessem ser levados até o transporte, feito por carretas, carros de bois (no caso do Livro de horas de D. Manuel) ou no lombo dos burricos. Muitas vezes no campo existiam pequenas choças que abrigavam o material da colheita que podia esperar aí algum tempo (não longo) até irem à debulha.

A debulha era uma das atividades mais representadas nos livros de horas. Ela era feita muitas vezes pelas patas dos animais que, em círculos, pisoteavam a espiga e o grão, ou pelo mangual, golpeado por trabalhadores, quase sempre em dupla. Os camponeses batiam em ritmo alternado: enquanto um levantava o mangual, o outro batia nos grãos. A debulha variava segundo a região e os cereais a serem trabalhados, e na maioria dos livros de influência gantobrugense era representada em agosto.

A ceifa, a recolha das espigas, a confecção dos feixes, o transporte, a estocagem e a debulha estavam incluídos, em boa parte da Europa, entre os trabalhos obrigatórios e de prestação de serviços compulsórios do camponês.

A presença dos mercados no final da Idade Média e o crescimento da produtividade com as grandes transformações agrícolas trouxeram um eventual uso, em algumas regiões, do assalariamento destas atividades.

No Livro de horas de Rohan (ff. 8v e 9r) a ceifa é representada em agosto por um camponês em atividade, enquanto que nas cenas marginais aparece a figura de Deus com a árvore da sabedoria, a criação de Eva e, em agosto, a tentação do demônio (com duas cabeças). Ao mesmo tempo representa-se a debulha a mangual e a separação do joio do trigo. Nas Horas de Nuremberg, a representação, também em cena única dentro de medalhão, é muito semelhante ao da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Em Très riches heures du duc de Berry, o mês de junho, tendo ao fundo o castelo do duque de Paris e a Chapelle Royal, apresenta o trabalho de ceifa feito por três homens com a foice longa, enquanto em primeiro plano duas mulheres juntam com um ancinho o que foi cortado. Em julho, a ceifa aparece conjugada à atividade de tosquia, enquanto, em agosto, pouco se tem das cenas já aqui referenciadas. O fólio apresenta em primeiro plano uma verdadeira cena cortesã, enquanto à direita camponeses banham-se no rio. Ao fundo pequenas cenas de transporte de grãos.

No Livro de horas de D. Manuel, temos, para o período, três belas miniaturas a plena página. Segundo Markl, a de junho difere muito das suas “congéneres flamengas”.97 A cena principal apresenta um castelo mal desenhado, enquanto “no bas-de-page reencontramos a delicadeza do tratamento de toda a cena da ceifa e da semeadura”.98 No mês de julho, a debulha é feita pelos pés de bois na cena principal, representação rara que, segundo o mesmo autor, revela o aportuguesamento da cena.

No final da colheita, com os grãos estocados para o outono que se aproximava e o temido inverno que irremediavelmente chegaria, o camponês havia obtido uma grande vitória contra seu pior inimigo – a fome. Os trabalhos do eito têm na Idade Média uma forte carga simbólica. A relação do trabalho com o pecado original é recorrente em toda a cristandade. A expulsão do Paraíso fez com que Adão fosse obrigado a cultivar a terra e Eva, a tecer e parir entre dores. Através do trabalho o camponês purgava os pecados e garantia, mesmo que temporariamente, a sua salvação.

Ms. 50.1.1, f. 6r, mês de setembro (Figura 14)

O fólio apresenta na miniatura a atividade relativa ao mês de setembro em medalhão quadrilobado, com predominância das cores verde e azul, com douração. A cena única refere-se às atividades da vindima em suas várias eta-pas. Numa tina ao centro, um homem trajando grande camisa branca faz a pisa da uva. À sua esquerda, o cesto com as frutas a serem amassadas. No lado esquerdo desta mesma tina, um barril presumivelmente já fechado, onde o vinho é estocado. Aqui também a mesma referência de Marrow sobre a presença de santos cultuados na Inglaterra que aparecem neste mês no calendário “fernandino”.

A colheita da uva e o conjunto das atividades que se referem ao preparo do vinho eram, em sua maioria, representados em setembro, mas em alguns códices essa atividade chegava a ser representada um pouco antes. A colheita era feita com uma faca ou uma pequena foice e as uvas colocadas em cestos. Cuidadosamente transportados nas costas dos vindimeiros, eram levados à tina, onde antes mesmo da pisa, obtinha-se a grapa.

A pisa feita com os pés com o auxílio de um bastão iniciava o processo de fermentação ao liberar leveduras no momento em que a polpa da uva desprendiase da casca. O vinho era prensado e a prensa era um dos mais importantes instrumentos de trabalho na produção do vinho. O envelhecimento fazia-se, ainda como hoje em muitas regiões, em tonéis bem fechados. Na Idade Média, o vinho tinha pouca durabilidade. Segundo Mane,99 o vinho na Idade Média é imperfeito e em grande parte era consumido verde, tendo duração máxima de um ano.

As diferentes etapas da colheita e produção do vinho estão belamente representadas no Livro de horas de D. Manuel, que reproduz com perfeição no bas-de-page à direita, num pequeno abrigo, uma prensa, enquanto que à esquerda e ao fundo estão, respectivamente, o envasamento do vinho em tonéis e a pisa. Na cena principal, a vindima que ultrapassa o seu enquadramento.
Em Très riches heures du duc de Berry, vê-se a belíssima cena100 da vindima feita por homens e mulheres e do transporte das uvas em carretos puxados por animais tendo ao fundo o Chateau de Saumur.

Para além de seu valor de uso e de troca, convém lembrar o aspecto simbólico do vinho que se referia claramente ao sacrifício de Cristo, pelos homens. Em algumas representações, a prensa era apresentada em forma de balança e o vinhateiro é o próprio Cristo. A prensa mística aparece em alguns manuscritos bastante conhecidos. Entre estes o do Apocalipse de Lorvão, iluminado em Portugal em 1189.101

Ms. 50.1.1, f. 6v, mês de outubro (Figura 15)

A miniatura do mês de outubro, enquadrada também em medalhão, refere-se à atividade de semeadura, tendo ao centro uma figura masculina, de pé, em gesto de marcha, com um pequeno bornal, onde estão as sementes que espalha na terra já preparada. O efeito das cores e do ouro nas sementes bem como o detalhamento da ação do camponês revelam o cuidado especial que o iluminador teve na confecção desta bela iluminura.

Muitos livros de horas apresentam no mês de outubro (ou mesmo antes, em setembro) o preparo da terra feito com a enxada, a charrua, ou o arado. Nos sulcos deixados, ou no mesmo momento em que era feito, o camponês depositava a semente. Uma mão, cheia na medida certa para evitar o desperdício, deixava o grão escapar por entre os dedos, enquanto a outra quase sempre sustentava o pequeno bornal em que o grão precioso estava depositado.

Eram muitos os cuidados que deviam ser tomados pelo agricultor nesta fase, sobretudo precisavam estar atentos às aves que ficavam à espreita para roubarem os grãos. Era preciso protegê-los de imediato e quase sempre o trabalhador que semeava era seguido por outro que recobria os grãos com o auxílio de um ancinho. Ao longo dos meses seguintes era preciso cuidar do plantio, controlando as ervas daninhas e os pássaros para que, quando o inverno chegasse, a planta pudesse resistir aos rigores do frio.

O trabalho nos campos de cereais está presente em quase todos os calendários de livros de horas e de outros manuscritos. Nas pinturas das igrejas, nos relevos dos pórticos estão representadas as cenas do plantio, da semeadura e do crescimento das plantas.

Nas Très riches heures du duc de Berry, o mês de outubro apresenta miniatura a plena página, em que um camponês montado em um cavalo puxa a grade de aragem preparando a terra, enquanto num primeiro plano está outro camponês com trajes e gestualidade muito semelhantes ao da miniatura “fernandina”.

O enraizamento dessas atividades na tradição e no imaginário cristãos era muito forte. Já foi dito aqui que a expulsão do paraíso como consequência do pecado original foi associada ao trabalho, mas é também pelo trabalho que o pecador poderia se salvar. Durante grande parte da Idade Média, trabalhar era sinônimo de arar, lavrar, semear, colher.102

Muitos textos bíblicos referenciam as atividades de plantio como sinônimo do trabalho. A Idade Média utilizou a metáfora dessas atividades para condenar o ócio e a preguiça, vícios que todo cristão deveria evitar. A força desse símbolo constituiu forte construção ideológica que ajudou a sustentar o trabalho compulsório e o poderio do senhorio laico e eclesiástico.

Ms. 50.1.1, ff. 7r e 7v, meses de novembro e dezembro

Em meados do outono, era preciso ultimar a engorda dos porcos e preparar as carnes para o inverno. A caça ao javali, ainda era objeto dos jogos cortesãos. Mais um pouco e não seria possível fazê-la, porque o frio e a neve impediriam estas atividades.

O fólio de novembro103 (7r), em medalhão com as mesmas características dos anteriores, apresenta cena comum nos calendários dos livros de horas: a engorda dos porcos feita nos bosques e florestas. Nesta época as bolotas caíam no chão ou eram facilmente derrubadas das árvores com varas compridas que os rudes utilizavam para este fim.

O porco que hoje conhecemos era bastante diferente daqueles representados e conhecidos na Europa medieval.104 Assemelhava-se mais ao javali ou ao porco selvagem, por seu porte grande com crina dura no meio do lombo e sua cor escura.

A cena do fólio de dezembro (7v) mostra um homem de pé, com os braços levantados, machadinha na mão prestes a realizar a matança do porco. Feita a engorda, o animal, muitas vezes criado à solta, precisava ser caçado e algumas vezes perseguido como o javali. Um golpe de percussão e o animal era estonteado, morto e sangrado.

Recolhido o sangue em alguidar, cena quase sempre representada como atividade feminina, é o caso do mês de dezembro no LHM. Sapecado a fogo e despelado, o porco é aberto e geralmente pendurado. Preparava-se, então, a carne que seria conservada pela salga ou pela defumação. O sacrifício de um animal, mal visto pela Bíblia, garantia o alimento proteico para todo o inverno.

9.3. Os trabalhos e os dias

Parafraseando Hesíodo, que certamente não era desconhecido da tradição do baixo medievo, convém lembrar que a sucessão das atividades agrícolas representadas nos calendários dos livros de horas medievais constitui uma narrativa altamente expressiva.

De um lado, a representação de tudo aquilo que se desenvolve no cotidiano, no tempo profano, tempo que segue os ritmos da natureza, das estações, do frio e do calor, da luz e da neve. Tempo que em última instância, marcha para garantir a sobrevivência social dos homens.

Há, porém, como tenho assinalado, um outro tempo nessa narrativa: o tempo cristão que vai do inverno ao verão, do sacrifício de Deus à salvação dos homens. Tempo que oferece para os rústicos a possibilidade de salvação pelo trabalho e para os nobres, os tempos primaveris dos quais se apropriaram, ao menos nas imagens desses livros de horas, dos quais o de dom Fernando, não foge a regra.

Finalmente, convém relembrar nestas palavras finais, o que foi dito no início deste ensaio sobre a complexidade do estudo das imagens na Idade Média, tempo que organiza e justifica sua existência numa direção ético-política que garante a salvação.

10. Abreviaturas

f. fólio ff. fólios Ms. Manuscrito LHF Livro de horas de D. Fernando LHM Livro de horas de D. Manuel LHB Livro de horas do Duque de Berry LHR Livro de horas de Rohan LHN Livro de horas de Nuremberg

10.2 Relação das figuras

Figura 1 – O martírio de são Sebastião. LHF, f. 1v Figura 2 – Salvator Mundi – Cristo sobre o orbe terrestre com quatro medalhões circulares (são Gregório, são Leão, são Jerônimo e santo Ambrósio). LHF, f. 9v Figura 3 – A Anunciação. LHF, f. 39r
Figura 4 – Inicial. Adoração dos reis magos. LHF, f. 100r
Figura 5 – Colofão. LHF, f. 199 v Figura 6 – Homem aquecendo-se diante da lareira . Janeiro. LHF, f. 2r Figura 7 – Podagem das vinhas. Fevereiro. LHF, f. 2 v Figura 8 – Lenhagem das árvores. Março. LHF, f. 3r Figura 9 – Homem com flores celebra a entrada da primavera . Abril. LHF,
f. 3v Figura 10 – Cena cortesã de caça.Maio. LHF, f. 4r
Figura 11 – Corte do feno e de cereais. Junho. LHF, f. 4v Figura 12 – Ceifa do trigo e cereais. Julho. LHF, f. 5r Figura 13 – Debulha e joeiragem do trigo. Agosto. LHF, f. 5v Figura 14 – Vindima. Setembro. LHF, f. 6r Figura 15 – Semeadura. Outubro. LHF, f. 6 v Figura 16 – Engorda dos porcos com bolotas. Novembro. LHF, f. 7r Figura 17 – Abate dos porcos ou javalis. Dezembro. LHF, f. 7v

Notas

1. SCHMITT, Jean-Claude. Imagens. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente medieval. Bauru: EDUSC; São Paulo: Imprensa Oficial
do Estado, 2002. V. I, p. 594 e seg.
1 Os pesquisadores mencionados participaram na identificação dos fólios (comemorações de santos) e medalhões através de narrativas hagiográficas.
2 Sobre a questão veja importante contribuição de CARDOSO, Ciro. Uma opinião sobre as representações sociais. In: CARDOSO, Ciro; MALERBA, Jurandir (Orgs.).

Representações: contribuição para um debate interdisciplinar. Campinas: Papirus, 2000.
4. MENESES, Ulpiano T. Bezerra. Fontes visuais, cultura visual, história visual: balanço provisório, propostas cautelares. Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH, v. 23,
n. 45, p. 11-36, jul. 2003.
1 Ibidem.
2 Ibidem.
3 Ibidem.
4 Ibidem.
5 SCHMITT, op. cit., v. I, p. 594.
6 Ibidem, v. I, p. 593.
7 Nem sempre foram tranquilas as relações das imagens com a Igreja. O tema foi objeto de muitas polêmicas ao longo do medievo, mas a questão foge aos propósitos deste texto. Sobre isto consultar SCHMITT, Jean-Claude. Les corps des images: essais sur la culture visuell au Moyen Age. Paris: Gallimard, 2002; e BASHET, Jerome. L´Iconographie medieval. Paris: Gallimard, 2008.
8 SCHMITT, Jean-Claude. Imagens. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude,

2002, op.cit., v. I, p. 596.
13.idem.
1 A representação da arca como reservatório ordenado do saber, como acervo da sabedoria que vem de Deus, é recorrente na literatura medieval. Cf: CARRUTHERS, Mary. La Mémoire et le livre: peinture et parole. In: CARRUTHERS, Mary. Le Livre de la mémoire: la mémoire dans la culture médievale. Paris: Macula, 2002. p. 321-371.
2 Ibidem, p. 324.
16. Ibidem, p. 324-325.
Todas as duas dão igualmente acesso à ‘casa da memória’, que contém todo o conhecimento humano do passado, e, do ponto de vista cognitivo, elas têm a mesma eficácia. Mas a “pintura de um texto” não se reduz às ilustrações de uma página, como o precisa Richard de Gournival. Ela inclui também as imagens mentais que o texto evoca no espírito de seus leitores ou auditores. [Tradução minha.]
3 CARRUTHERS, Mary. Machina memorialis: méditation, rhétorique et fabrication

des images au Moyen Âge. Paris: Gallimard, 2002. p. 252-257.
1 H. DE SAINT-VICTOR, De Tribus, apud CARRUTHERS, op. cit., p. 376-377.
2 Refiro-me à Bíblia, chamada pelos cristão de Livro.
3 Refiro-me à lei mosaica, o Decálogo, que ordenou, segundo a tradição cristã, a sociedade dos homens pela Lei da Graça.
4 A arca, na tradição bíblica, guarda o tesouro. É tema recorrente na iconografia medieval, mormente nas narrativas bíblicas figurativas que aparecem nos livros de horas.
5 O tema será melhor desenvolvido mais adiante em “Tempo de oração, tempo do mundo no calendário do Livro de horas de D. Fernando”.
6 A produção de códices e a arte da iluminura, na forma como se caracterizou a partir do século XII, foi tardia na península Ibérica. Em compensação, ela se prolonga em Portugal por todo o século XVI.
7 ECO, Umberto. O nome da rosa. São Paulo: Record, 1990.
8 FAILLACE, Vera Lúcia Miranda. Catálogo dos livros de horas da Biblioteca Nacional do Brasil. Dissertação (Mestrado em Bens Culturais e Projetos Sociais) –Fundação Getú

lio Vargas, Rio de Janeiro, 2009.
26. MARROW, James. The Pembroke Psalter-Hours. In: CARDON, Bert; VAN DER STOCK, Jan; VANWIJNSBERGHE, Dominique (Ed.). “Als ich kan”: liber amicorum
in memory of professor Dr. Maurits Smeyers. Louvain: Peeters, 2002. p. 882-883, 889 para Ms. 50.1.1; TANIS, James R. (Ed.). Leaves of gold: manuscript illumination from Philadelphia collections. Philadelphia: Philadelphia Museum of Art, 2001. p. 60-64, esp.
p. 61 e 64 nota 6; BINSKI, Paul; PANAYOTOVA, Stella (Ed.). The Cambridge illuminations: ten centuries of book production in the Medieval west. London: Harvey Miller,
2005. p. 212-213.
1 Esta que julgo mais convincente, melhor fundamentada e que sem dúvida aceito.
2 MARROW, James. Re: About Book of Hours Biblioteca Rio de Janeiro [mensagem pes

soal]. Mensagem recebida por <vaniafroes@terra.com.br> em 29 jul 2009.
29. Ibidem.
“A escolha e a sequência dos textos no manuscrito são também características dos livros de horasfeitosparausonaInglaterra.NaconstruçãotextualdoMs.50.1.1.mencionoaquelas que são características das horas inglesas: a primeira oração no manuscrito, a chamada
‘FifteenOesofChrist’(fols.10r-16v);Aescolhaesequênciadostextosnomanuscritosão
também características dos livro de horas feitos para uso na Inglaterra. Do mesmo modo, a localização do Sufrágio dos Santos, antes das Horas da Virgem, ao invés de ser no final como a maioria dos livros da Europa continental.” [Tradução minha.]
30. “Em cada Comemoração e Memória o recto do primeiro fólio está em branco e o
verso contém uma miniatura de página inteira representando o santo comemorado.” (FAILLACE, op. cit.)
31. MARROW, jul. 2009, op. cit.
“O uso litúrgico das Horas da Virgem e do Oficio dos Mortos no manuscrito são aqueles do Sarum (= o rito da Igreja Inglesa). Nas horas da Virgem, isto [está] indicado pelas Antífona e Capítula que seguem os Salmos na Prima e Nona, que começa:
Prima: Antifona: O admirable…
Capitula: In omnibus…
Nona: Antifona: Germinavit radix…
Capitula: Et radicavi…” [Tradução minha.]
32. Ibidem. “a oração (farsa) para Maria começando com “Salve virgo virginum” on fols. 88r
91v; e os textos como “Joys of the Virgin” nos fólios 97v-100v, as orações para Cristo e suas feridas nos fólios 102r-110 […] TODOS estes textos são inteiramente característicos dos livros de horas feitos para uso na Ingalterra” [Tradução minha.]
33. Ibidem.
“Na litania estes estão incluídos nas entradas como Edward, Oswald, Botulph, Sexburga, Mlburga, and Osyth”. [Tradução minha.]
34. Ibidem. “No Oficio dos Mortos, o uso Sarum é indicado pelos incipits dos responsos para cada uma das nove lições, que são: Credo quod… Qui lazarum… Domine quando… Heu michi… Ne recorderis… Domine secundum… Peccantem me…
Requiem eternam…Libera me domine de morte… [Tradução minha.]
2 Ibidem. Referência ao Saltério de são Jerônimo nos fólios 185r-196v como forte indício do Sarum use.
3 O colofão, ao que tudo indica, é um acréscimo bem posterior ao códice, escrito com letras vermelhas, diferentes da escrita do texto, com erros de latim, o que ratifica uma intervenção posterior no códice. Cf. BERGE, Damião. Um livro de horas do século XIV na Biblioteca Nacional. Revista Verbum, Rio de Janeiro, tomo II, n. 1, p. 49-99, mar. 1945.
4 Os medalhões circulares com nomes de santos são bastante raros, segundo MAR

ROW, 2002, op. cit., vol. I, p. 882-883.
1 Aqui desdobrou-se as miniaturas de um mesmo fólio em acima e abaixo.
2 MARROW, 2002, op. cit., vol. I, p. 882-883.
3 ÍNDEX das obras do Infantado, e Inventário dos caixões de livros que vieram no dia

sete de setembro, que diziam pertencer à sereníssima Casa do Infantado (...) se colige serem a maior parte dos Livros (...) no Gabinete do (...) rei D. José I. (Biblioteca Nacional–Brasil, Divisão de Manuscritos, localização: 65,2,002 n. 004); e INVENTÁRIO dos caixões de livros que vieram para a Reeal Biblioteca, pertencentes à Coroa (Biblioteca
Nacional–Brasil, Divisão de Manuscritos, localização 65,2,002, n. 003).
41. HOLLANDA, Francisco de. Da pintura antiga. Edição comentada por Joaquim de
Vasconcelos. 2. ed. Porto: Renascença Portuguesa, 1930.
1 VASARI, Giorgio. Le vite de´piu eccelenti pittori, scultori et architettori. Fiorenza: apresso i Giunti, 1568.
2 DIAS, João José Alves. Livros dos conselhos de el-rei D. Duarte: livro da cartuxa. Lisboa: Estampa, 1982.
3 FREIRE, Anselmo Braamcamp. Inventário da Guarda-roupa de D. Manuel. Archivo Historico Portuguez, Lisboa, n. 2, 1904.
4 FAILLACE, op. cit.
5 Ibidem.
6 Ibidem.
7 BERGE, Damião. Um livro de horas do século XIV na Biblioteca Nacional. Revista Verbum, Rio de Janeiro, tomo II, n. 1, p. 49-99, mar. 1945; e BERGE, Damião. Livros de horas manuscritos iluminados da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. [Rio de Janeiro,

1973?]. [609] f. Original. Dat. Capítulo VI, n. 4, mencionado por FAILLACE, op. cit.
1 FAILLACE, op. cit.
2 Livro de horas de D. Fernando, f. 199v.
3 BERGE, 1945, op. cit., p. 63.
4 Ibidem.
53. VASARI, op. cit., p. 281 e seg.
Vasari, além de grande artista é também biógrafo, constituindo uma das principais fontes para o estudo das biografias dos artistas de sua época, ou anterior a ela.
5 Segundo Vasari, ninguém, depois de Giotto, teria sido tão perfeito nas cores e desenho quanto o velho Spinelli.
6 VASARI, op. cit., p. 282.
7 MARROW, jul. 2009, op. cit.
8 Ibidem.
9 Ibidem.
10 Estas informações e várias outras foram-me gentilmente fornecidas em correspondência que mantive com este grande especialista, a quem sou grata pela generosidade deste diálogo.
11 MARROW, James H. About D.Fernando´s Book of Hours [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <vaniafroes@terra.com.br> em 18 ago. 2009.
12 MARROW, 2002, op. cit., p. 897.
13 Subgrupo a que pertenceria, segundo Marrow, o códice fernandino.
14 MARROW, jul. 2009, op. cit.
15 MARROW, ago. 2009, op. cit. [Grifo meu.]
16 Tais argumentos têm como base pesquisas que realizei em Florença, Arezzo e Portugal.
17 MARTINS, Joaquim Pedro de Oliveira. Filhos de D. João I. Disponível em <http:// www.tecnet.pt/portugal/68997.html>. Acesso em 20 jan. 2010.
18 LE GOFF, Jacques. Calendário. In: ROMANO, Ruggiero (Org.). Enciclopedia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1984. v. 1, p. 260.
19 Ibidem, p. 266-267.
20 Ibidem, p. 286.

70. MANE, Perrine. Le Travail à la campagne au Moyen Age: étude iconographique. Paris:
A. et J. Picard, 2006. p. 41-46.
1 Ibidem.
2 Ibidem.
3 LE GOFF, 1984, op. cit., p. 268.
4 MANE, op. cit., p. 41-42.
5 Refiro-me ao uso medieval do termo: habitante do burgo, da cidade.
6 SCHMITT, Jean-Claude. Quand la lune nourrissaitle temps avec du lait: le temps du cosmos et des images chez Hildegarde de Bingen. In: CARERI, G. et allii. Traditions et temporalités des images. Paris: Éditions de L´Ecole des Hautes Études em Sciences So

ciales, 2009. p. 73
1 LE GOFF, Jacques. Tempo da Igreja, tempo do mercador. In: _____. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa: Estampa, 1972.
2 Ibidem.
3 GLAUVILLE, Barthélemy de. Le Propriétés des chose. [Incunábulo de Lyon 1485.] In: ROMANO, Ruggiero (Org.). Enciclopedia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1984. v. I, p. 284.
4 MARKL, Dagoberto. Estudo introdutório. In: ___. Livro de horas de D. Manuel. Edição fac-símile. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
5 Ibidem, p. 70.
6 Ibidem, p. 71-72
7 Num exemplar iluminado no fim do século XIV pelo ateliê de Giovannino de Grassi,

o inverno é simbolizado por um velho homem se aquecendo, a primavera e o verão por jovens com flores na cabeça, um buquê ou frutas nas mãos; enfim, o outono é invocado por dois vinhateiros, um em torno de um tonel, e o outro, na vindima. MANE, op.cit.,
40.

1 MARROW, op.cit., p. 863.
2 Pembroke Psalter-Hours. Bruges, c.1465-70 – Philadelphia, Philadephia Museum of Art, The Philip S. Collins Collection, acc.no. 45-65-2, f. 21.
3 MANE, op.cit., p. 187-190.
4 Bibliothèque Nationale de France, Ms. latin 9471, f. 4r.
5 Livro de horas de Nuremberg (f. 10v)
6 MARKL, op. cit., ff. 5r e 8r.
7 LE GOFF, Jacques. O imaginário medieval. Lisboa: Estampa, 1985.
8 Livro de horas do duque de Berry (LHB).
9 MARKL, op. cit.
10 MARROW, 2002, op. cit., referindo-se ao mês de maio.
11 ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1993. v. 1 e 2; e ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
12 MARKL, op. cit.
13 MARROW, James. Re: About Book of Hours Biblioteca Rio de Janeiro [mensagem

pessoal]. Mensagem recebida por <vaniafroes@terra.com.br> em 29 jul 2009. Refere-se
a Alban (June 22), Grimbald (July 8), Translation of St. Swithun (July 15), Kenelm (July 17)
1 MARKL, op. cit.
2 Ibidem.
3 MANE, op. cit., p. 239.
4 MARROW, jul. 2009, op. cit. Translation of Str. Hugh of Lincoln (in red, October

6), Osyth, Wilfrid (October 12), Translation of St. Etheldred (October 17).
1 MANE, op. cit., p. 126.
2 Sobre o tema ver “Tempo e trabalho”; “Tempo da Igreja”; “Tempo do mercador”,

em LE GOFF, 1972, op. cit.
103. MARROW, jul. 2009, op. cit. Frideswide, Macchud (November 15), Edmund
(November 16), Hugh of Lincoln (in red, November 17), and Birinus.
104. MANE, op. cit.
* Vânia Leite Fróes é Professora titular de História Medieval no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Scriptorium-Laboratório de Estudos Medievais e Ibéricos